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Passada a altura da Páscoa, achei que seria interessante escrever um artigo sobre este tema.

Segundo se diz, há mais de 2000 anos Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, o que daria a toda a humanidade a certeza de uma vida após a morte. Esta improvável ressureição é-nos hoje apresentada como algo único, infalivelmente verdadeiro, capaz de nos apresentar provas que as religiões passadas, unicamente politeístas, nunca tinham dado.

Contudo, num estudo mais aprofundado, é possível verificar que tais presunções são falsas. Apesar da religião greco-romana e egípcia se apresentar como maioritariamente politeísta, era também assolada por diversos cultos regionais. Em Delfos, por exemplo, era dada uma maior ênfase a Apolo. Em determinadas partes do Egipto, o culto de Rá, deus do sol, tinha mais importância que todas as outras.

Seguindo estes padrões, é possível compreender que estas religiões viriam, mais tarde, a tomar uma carácter menos genérico, mais focado em determinados deuses e nos mitos que lhes eram atribuídos. Os Mistérios de Elêusis, um dos mais importantes cultos da Grécia Clássica, dava especial importância à constante morte e ressureição de Perséfone, esposa de Hades, cuja constante transferência entre o reino dos vivos e dos mortos era considerada como uma metáfora para a própria vida. O mesmo acontecia com Dioniso, que sob a forma de Zagreu nasceria por duas vezes.
Nas religiões do Egipto Antigo, também o reaparecimento diário de Rá, sob a forma de uma possível morte e renascimento, era considerado como uma certeza da vida após a morte.

É-nos assim permitido compreender que a ressureição, enquanto elemento principal de uma religião, já existia muito antes do Cristianismo, podendo ter sido adaptada para a inclusão nessa nova religião.
Quanto ao politeísmo, é interessante verificar que o problema greco-romano também se aplica nos dias de hoje. Apesar de o Cristianismo, enquanto religião, venerar uma única divindade, também apresenta um curioso interesse por divindades regionais, chamadas "Santos", cujo papel parece ser o mesmo, o de protector e representante de dons regionais. Tal como os touros eram venerados na Creta Clássica, em virtude dos mitos que os relacionavam com o próprio Zeus, também Santo António é venerado na Lisboa contemporrânea, sob a forma de patrono dos casamentos. Além deste simples exemplo, existem muitos outros...

Como é fácil verificar, as coisas não mudaram assim tanto, com as religiões modernas a se apresentarem como muito similares às antigas, uma verdade que tende hoje a ser ignorada.

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1 comentário

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De Paulo a 28.04.2007 às 18:20

Muito bom seus comentários. Gostava apenas de acrescentar que também o Bom Esculápio fazia ressuscitar os mortos. Não foi por outra razão que Zeus o fulminou, depois de ouvir do Hades que algum mortal estava de aldabrice com ele, a roubar-lhe as almas que no Érebo perambulavam.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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