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Antes de avançar para um próximo artigo, existe uma interessante explicação que eu acho que devo fazer.

Por vezes, tento relacionar as três principais mitologias abordadas neste blog com o próprio Cristianismo, o que pode parecer um pouco ilógico. Contudo, esta necessidade parte de uma proximidade inegável entre esses quatro elementos, unidos de uma forma que é por vezes difícil de entender.

Um dos exemplos que costumo dar é do próprio Jesus Cristo. Se eu disser a alguém que Orfeu, personagem da Mitologia Grega, ou "Pedro" (uma qualquer pessoa dos nossos dias) voltaram do mundo dos mortos, as pessoas riem-se, face a uma tal impossibilidade. Contudo, se eu fizer uma mesma referência relativamente a Cristo, esta é interpretada de uma forma totalmente diferente. Relações como esta são possíveis de encontrar em muitos outros mitos da época pré-Cristã e acredito que foram esses mesmos mitos que acabaram por modificar, numa primeira fase, as características e a interpretação da mensagem do próprio Cristo, de modo a serem dados às populações conceitos com os quais elas já estavam familiarizadas.

Veja-se, por exemplo, a associação do dia 25 de Dezembro ao nascimento de Jesus Cristo. Em termos físicos, não existe qualquer prova de que o afamado filho de Deus tenha nascido nesse preciso dia, mas ainda assim são muitas as pessoas que acreditam numa tal possibilidade, mesmo sem quaisquer evidências terrenas. Originalmente, esta data era a data de um festival que celebrava o solstício de  Inverno, instituído pelo imperador Aureliano, em honra de uma divindade solar normalmente denominada "Sol Invictus ". Cerca de um século mais tarde, este festival foi abolido, e essa data acabaria por ser associada ao nascimento de Jesus Cristo. Existem diversas teorias sobre esta associação, mas independentemente de todas elas existem dois factores que são impossíveis de ser ignorados:

-- "Sol Invictus " foi um dos primeiros deuses a ser representado com uma coroa solar, muito semelhante à auréola Cristã. Assim, entende-se a clara relação entre Cristo e esta divindade romana, e é possível que, num período mais tardio, as figuras de ambos se tenham vindo a confundir.

-- Na Cronografia de 354, aparece uma referência a ambos os eventos (o festival em questão, e o nascimento de Cristo), mas esta é feita de uma forma um pouco invulgar. Ao festival, é dada uma referência relativa às festividades, enquanto que o nascimento é referido apenas como tendo lugar em Belém, Judeia, no oitavo dia das calendas de Janeiro, o que dá a entender uma diferença de importância desses dois eventos.

Se, hoje, um qualquer governo optasse por alterar a data do feriado de 25 de Dezembro, e deixasse a população escolher uma data desse mesmo mês, creio que as pessoas voltariam a optar pelo mesmo dia, baseando-se essencialmente na tradição que tanto lhes apraz. Assim, é possível que o mesmo tenha sucedido no Império Romano, com uma nova festividade a tomar o lugar de um festival pagão recentemente abolido.

Deixando de parte toda a complicação relativa a datas, até porque esse tema daria para escrever muitos outros artigos, onde eu quero chegar é que, num período final (leia-se como "depois de Constantino I"), existe uma inteligível relação entre a figura de Cristo e a de alguns dos deuses do Império Romano. Também acredito que esta ligação já existia nos séculos anteriores, mas em 354 d.C. é mais fácil de visualizar, através do documento anteriormente mencionado.


Toda esta informação leva-me a um ponto que acho muito interessante. Durante cerca de 350 anos, a religião romana coexistiu com o Cristianismo, e é pena que não exista muito mais informação sobre esta coexistência. Enquanto que, no caso dos Gregos, a famosa religião teve um final virtual aquando da sua aglutinação pelo Império Romano, no caso deste povo a  admiração por Júpiter, Vénus e todos os outros deuses nunca tem um final muito claro. Também, não existem hoje quaisquer mitos relativos a "Sol Invictus", o que me parece ser certamente curioso. Assim, devo confessar que tenho um especial interesse por esse período, pois foram esses poucos séculos a traçar a rota do Império Romano, e mesmo de toda a religião Ocidental.

A religião dos Gregos e dos Romanos, com os seus deuses e monstros, acabariam por perder toda a sua vertente filosófica, tornando-se não mais que um ideal de beleza e fonte de inspiração a aproveitar no Renascimento, bem como em algumas correntes artísticas posteriores. Quanto ao Cristianismo, em detrimento de continuar a ser uma religião mais filosófica (veja-se, por exemplo, o Primeiro Concílio de Niceia , onde foi discutida a natureza de Cristo), acabaria por se tornar uma religião estritamente regrada pelos Homens, favorecendo a sede de poder de determinadas elites, em vez de seguir as admiráveis leis pacifistas de Jesus Cristo.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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