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Muitas obras de Ovídio já por cá foram referidas (veja-se o seguinte link), mas desta vez escrevo sobre aquela que é provavelmente uma das mais importantes obras deste autor (eu não concordo totalmente, mas visto que são muitos os autores que tecem essa consideração, terei de o aceitar), as "Metamorphoses". Quem não conhecer a obra, e como já foi referido anteriormente, pode lê-la, gratuitamente e em inglês, neste link.

 

Como o nome da obra deixa antever, o principal tema por aqui tratado são as metamorfoses, transformações estas que são relativamente frequentes na mitologia grega. Sobre esse tema, já por cá foi falado de forma básica (veja-se este link), mas uma abordagem assim tão simplista não consegue capturar a real beleza da obra. Mais do que se cingir a um simples compêndio de mitos - algo tão popular nos dias de hoje - os XV livros desta obra apresentam-nos os mais diversos mitos de uma forma sequencial, quase narrativa, que apesar de ser por vezes difícil de seguir, é também extremamente interessante.

 

Veja-se então um exemplo: no livro V passa-se um pequeno concurso de poesia, como que uma querela poética entre as Pierides e as Musas. Este concurso serve de pano de fundo para o autor nos contar parte da batalha contra Tífon, nos relatar o rapto de Perséfone, entre outros eventos. Mais tarde, no livro X, o próprio Orfeu conta-nos muitos outros mitos, como o de Pigmalião e de Adónis.

 

Estas transições de mito para mito são quase imperceptíveis, ao ponto de alguns mitos se chegarem a confundir com outros, e não ser que se conheçam todas as histórias, por vezes chega até a ser difícil compreender o que faz realmente parte do mito e o que é não mais que um artifício poético, usado de forma a conectar relatos totalmente distintos.

 

São mais de 50 os mitos referidos nesta obra, seja de forma parcial (como é feita a menção aos trabalhos de Hércules) ou no seu todo, o que a torna interessante para quem estiver interessado em mitologia, mas convém ter algum cuidado a escolher uma cópia da obra. A versão a que tive acesso, uma tradução em rima, é inegavelmente bela, mas também dificulta bastante a leitura, e seria um pesado fardo para todos aqueles que pretendem somente ler a obra pelo saber que contém. Assim, é realmente importante ter em conta, das múltiplas edições que existem no mercado, qual delas melhor se adapta ao uso que se pretende fazer desta obra.

 

Para terminar, importa ainda fazer uma menção aos momentos finais desta obra. No último livro, o autor refere algumas ideias de Pitágoras, como que a tentar justificar a possibilidade real de todas as transformações, e refere até algumas razões pelas quais não se deveriam comer animais. Neste contexto, o filósofo grego poderia então ser considerado como um ser quase etéreo, suspenso no tempo e cujos ensinamentos são quase divinos, mas... a meu ver, esse momento de monólogo tende a destoar do resto da obra, mais do que os episódios relativos a Esculápio (ou as menções ao poder e glória de César) que se lhe seguem. É, ainda assim, uma obra importante no estudo dos mitos gregos, quanto mais não seja para que se possam aprofundar estudos entre as diversas versões de dados mitos.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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