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A Argonautica, vulgo a história de Jasão e os Argonautas, narra a demanda do herói titular em busca do velo/tosão de ouro. Falo aqui da versão de Apolónio de Rodes, se bem que existam outras.

 

Neste caso, devo começar por dizer que a história, mais pelos seus detalhes do que pela sua complexidade, é difícil de resumir. Não pretendo fazê-lo, tal como não poderia resumir a Ilíada, ou a Odisseia, pelo que um resumo da história pode ser encontrado, por exemplo, neste link. Cinjo-me, então, àqueles que considero serem os momentos fulcrais da obra, aqueles que tomam lugar no reino de Colchis.


Para que Jasão possa levar o velo de ouro, é-lhe pedido por Eetes, rei de Colchis, que cumpra uma difícil tarefa: a de usar touros cuspidores de fogo para lavrar uma planície, na qual deveria plantar dentes de dragão. Destes singulares ítens nasceriam soldados, que o herói também teria de derrotar.

O herói acaba por cumprir tais tarefa com a ajuda de Medeia, filha do rei e sacerdotisa de Hécate, que por intervenção divina se apaixona por ele, paixão que o herói parece retribuir. Depois, e apesar de ter conseguido um tal feito, Eetes recusa-se a permitir que o velo de ouro abandone o seu reino; de forma dissimulada, acaba por ser esta mesma heróina, com as suas artes mágicas, a adormecer o dragão que guarda o singular ítem.

O par de amantes, juntamente com o resto dos Argonautas, acabam depois por escapar do reino na famosa navegação Argo.

 

Veja-se, agora, a obra partindo do seu início. Começando numa altura em que a trama já vai a meio (in medias res, para quem gosta dessas expressões latinas), o autor nomeia dezenas e dezenas de heróis, alguns dos quais extremamente obscuros para nós, que acabam por fazer parte dos Argonautas. Isto leva a um pequeno problema, o de não sabermos o porquê exacto de toda a aventura, um ponto abordado por outros autores, mas não por Apolónio de Rodes. Por aí, penso que este mito tenha sido bastante famoso, ao ponto de o autor poder passar directamente à acção, em vez de apresentar os momentos iniciais de toda a aventura.

 

Os heróis passam então por diversas ilhas, e envolvem-se em aventuras que penso serem menores. Numa delas, Herácles acaba por abandonar os Argonautas, seguindo em busca do seu companheiro Hilas. Seria esta uma tentativa de livrar Jasão da companhia do maior dos heróis gregos, de forma a que este não ensombrasse os feitos dos seus companheiros? É provável, até porque Glauco surge na sequência deste evento, assegurando os heróis de que é correcto, e aceitável, deixar esse herói para trás.

 

Depois, os viajantes da Argo salvam Fineu das Hárpias que o atormentavam, passam pelas Simplegades usando um artifício que já cá foi referido, e eventualmente chegam ao seu destino, o reino de Colchis. Aí, envolvem-se nos episódios cujo resumo também foi apresentado acima.

 

Aí, Jasão é apresentado como um herói que, a meu ver, é muito mais fraco e pobre que os seus antecessores. Não possui a força de Herácles, ou inteligência de Odisseu, mas somente o amor de uma mulher, que lhe é oferecido pela intervenção divina de Hera. São muitos os paralelismos com a história de Teseu e Ariadne, ao ponto da própria Medeia recusar essa comparação, mas... o que quererá realmente dizer este amor? Será que Jasão realmente amava Medeia, ou acaba simplesmente por se aproveitar da paixão que esta por ele tem? Noutras versões da história a resposta é mais clara, mas aqui não existe forma de retirar uma conclusão real. Desde este momento até ao final da trama que parece existir uma genuína paixão entre as duas personagens, mas a multiplicidade de versões que mostra Jasão como acabando por trair Medeia deixa a dúvida no ar.

Em qualquer dos casos, isto leva a um ponto interessante - Medeia, versada nas artes mágicas, acaba por não ter qualquer poder sobre o amor. O mesmo se passava com Circe, incapaz de suscitar uma real paixão de Odisseu, o que nos poderá levar a pensar que o amor era considerado como a mais forte magia, sobre a qual apenas aos deuses (ou, para ser mais preciso, Eros) tinham um real poder; por um lado, tem-se a incapacidade da miraculosa Medeia em resistir à paixão, e por outro tem-se a figura de Eros, que causa essa mesma paixão de uma forma quase infantil, e quase como uma brincadeira, já que lhe fora prometido um brinquedo em troca desse acto.

 

Jasão, por amor, é tornado invencível e consegue ultrapassar as diversas tarefas que Eetes lhe põe. A conquista do velo de ouro, mais do que por Jasão ou pelos Argonautas, é uma conquista da própria Medeia, e ao fazê-lo trai o seu país e a sua família, razão pela qual tem de escapar de Colchis. Mais uma vez, por amor esta nova heroína toma um caminho sem retorno, com base numa promessa de casamento feita por Jasão. Será que esta é uma promessa que acaba por ser cumprida? Nesta versão a resposta parece ser positiva, já que o par acaba por consumar o seu casamento, de forma a que Medeia não pudesse voltar a ser entregue ao reino de seu pai.

 

Nesta viagem de retorno, os Argonautas acabam ainda por encontrar as sereias, de quem escapam graças à música de Orfeu, o irmão de Medeia (aqui morto por Jasão, na sequência de uma armadilha) e Talos, guardião da ilha de Creta, que Medeia destrói. Contudo, e visto que a trama termina no exacto momentos em que os Argonautas regressam a causa, nada é possível concluir sobre o derradeiro destino de Jasão e Medeia. Existem várias versões da história (e a esse importante tema voltarei no futuro), mas nesta nada mais se sabe.

 

Ainda assim, em termos gerais existem mais algumas coisas que merecem ser referidas. Enquanto que nos segmentos iniciais da história Jasão tem um papel que me parece ser quase secundário, desde o momento em que este se cruza com Medeia que a ênfase da acção parece passar para esta princesa de Colchis. É ela que, uma e outra vez, salva Jasão e os próprios Argonautas, seja com a sua magia (como no caso das tarefas de Jasão, ou nos eventos com Talos), com as acções (de guia, em Colchis, ao ser o isco numa armadilha, ao aceitar consumar o casamento com Jasão) e, talvez mais que tudo, com o seu amor.

De facto, na segunda parte esta heroína parece ter um papel ainda maior que os Argonautas; ainda assim, é curioso que os famosos heróis tenham um papel extremamente limitado em toda a aventura. O próprio Herácles, o maior dos heróis da mitologia grega, acaba por dar o papel de líder a Jasão. Orfeu também apenas intervem num único momento, e tal como Pólux ou os Boréades. É como se todos esse heróis ali estivessem somente para preencher algum espaço, para fazerem um único feito e regressarem ao esquecimento, algo que me parece ser bastente infrequente nos mitos gregos.

 

Será que, então, todo este épico acaba por ser uma forma de glorificar Jasão, tornando-o maior que todos os Argonautas, cujos actos são pontuais e episódicos? Ou será que esta é uma história que glorifica a própria Medeia, enquando causa e consequência da obtenção do velo de ouro? Creio que tudo se prende com uma questão de interpretação - por um lado, tem-se Jasão, um herói humano, que define um objectivo e não olha a meios para o atingir; por outro, tem-se uma jovem Medeia, que por amor abandona até o dever para com os seus familiares, e que faz tudo por quem ama. Serão estas características positivas ou negativas? É discutível, e talvez seja essa dualidade de visões que dá um sabor especial a este mito, às figuras de Jasão e Medeia, cujo tratamento é sempre um pouco diferente em cada autor.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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