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Após muito ouvir falar sobre a Atlântida, decidi aprofundar um pouco mais esse mito, já que tem a sua origem na literatura grega.

 

A primeira menção (e certamente a que mais importa explorar) à existência desta civilização é feita em dois diálogos de Platão - Timeu e Crítias. No primeiro, a referência inicial é feita na sequência de um relato sobre o passado da civilização de Atenas, e é dada uma data para todo episódio - aproximidamente 9600 a.C. . É ainda dito que esta civilização se localizava no Oceano Atlântico, "em frente (...) aos Pilares de Herácles" e que apresentava uma extensão maior que "a Líbia e a Ásia juntas". Após ter conquistado vários outros locais, tentou atacar Atenas mas foi derrotada (gostaria certamente de aprofundar mais esta parte, mas o autor não dá mais informações). Depois, e na sequência de "violentos terramotos e cheias", a ilha "desapareceu nas profundezas do mar", razão pela qual essa parte do mar era "impenetrável", "devido à lama no caminho, causada pelo afundamento da ilha".

Importa mencionar que todo esse relato nos é feito através da voz, não de Platão ou de Sócrates, mas de uma outra personagem (um sacerdote egípcio), e mesmo esse não é um relato na primeira pessoa, mas uma história que Solon (um interlocutores originais) contou a Crítias, que por sua vez a contou a outro Crítias, seu neto. Este último admite recordar-se de "quase tudo" após passar uma noite a relembrar os vários detalhes, os quais tinha ouvido na sua juventude, e Sócrates considera todo o relato como "facto, e não ficção".

 

Partes desta mesma história são depois recontadas por Crítias no diálogo com o mesmo nome, mas também lhe são adicionados alguns novos elementos, nomeadamente em relação ao nascimento e desenvolvimento da ilha. É-nos contado como Poseidon dividiu a ilha principal em dez partes, deixando cada uma delas para cada um dos filhos que teve com a mortal Cleito, sendo o mais velho (a quem foi dado o nome de Atlas, provindo daí o nome do Oceano Atlântico) o rei dessa civilização e os outros (Eumelus/Gadeirus, Ampheres, Evaemon, Mneseus, Autochthon, Elasippus, Mestor, Azaes e Diaprepes) príncipes de cada uma das pequenas ilhas. É-nos falado de toda a riqueza das ilhas, da forma como era extraído o Oricalco ("mais precioso que tudo excepto ouro", e de que eram feitos muitos dos elementos arquitectónicos desta civilização), da abundância de madeira, fruta e de animais (em especial elefantes). É-nos ainda relatada a forma como a ilha se desenvolveu e toda a sumptuosidade que a populava, com extensas descrições das diversas áreas e dos modos de vida.

Tudo isto até que, um dia, a herança divina no coração dos homens se começou a perder; os habitantes, apesar de parecerem "gloriosos e abençoados", começaram a ficar "cheios de avareza e poder injusto". Em busca de uma solução, Zeus reuniu-se com os outros deuses e... nada. Pode até parecer estranho, para quem não estiver habituado à leitura de textos antigos, mas no exacto momento em que Zeus se ia pronunciar sobre tudo isto a trama termina de uma forma demasiado inesperada. De facto, o texto a que hoje temos acesso termina no exacto ponto em que nos é referido que "[Zeus] disse o seguinte ...".

 

Pois bem, a meu ver é esta ausência de um final em Crítias que - e apesar de se saber do destino final da ilha através da sinopse patente em Timeu - gerou todo o mistério que nos chegou até aos dias de hoje. Tal como sucede em Perceval, le Conte du Graal, de Chrétien de Troyes (uma das primeiras histórias sobre o Santo Graal, também ela inacabada), neste caso não é dado um seguimento real a um importante mistério, o que deu lugar às mais diversas interpretações e conjecturas, como é tão frequente quando o género humano se confronta com um desconhecido.

 

Seria, por exemplo, toda a história da Atlântida nada mais que uma metáfora para ilustrar um ponto, como sucede noutros diálogos do mesmo autor? Não sabemos.

 

Seria esta civilização composta por um aglomerado de ilhas? Em Crítias somos levados a pensar que sim, mas então porque procuram as pessoas um continente único?

 

E de onde vem toda a sugestão de que esta civilização era surpreendentemente evoluída? Nada nos dois textos nos dá a entender isso. Os momentos finais de Crítias levam-nos até a pensar numa civilização imperfeita, repleta de defeitos humanos e reais, mais do que com um carácter (quase divino, parece-me) que hoje lhe é dado.

 

Em suma, seria esta uma história verdadeira? Em Timeu, Sócrates dá-nos a entender que sim, mas até que ponto podemos acreditar nele, quando a nossa tarefa é a de julgar correctamente uma questão deste âmbito? Creio que sem termos acesso ao final de Crítias (e mesmo com as informações de Timeu, já que estas não são totalmente conclusivas) nada podemos concluir. Conjecturar sobre a existência da Atlântida de Platão é quase o mesmo que ler os fragmentos de Satyricon e tentar recriar toda a trama... Assim, vejo-me obrigado a concluir que tal como sucede com o Santo Graal de Chrétien de Troyes, também a Atlântida poderá ser uma invenção (ou, quem sabe, uma reinvenção) de Platão. Isto porque não temos, para além deste autor, acesso a qualquer outra fonte que nos confirme a veracidade dos eventos. Ainda assim, devo dizer que a creditação da história da Atlântida a "um sacerdote egípcio" me recorda de um artifício mais frequente após a idade média - para atestar a veracidade de um texto, eram então dadas fontes de um passado distante, que já não sobrevivem mas a que o novo autor/tradutor teve, de algum modo, acesso. Curiosamente, esse artifício era vulgarmente utilizado para dar um maior crédito a textos falsos...

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4 comentários

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De ricardmag a 09.09.2016 às 17:00

Vejam isto

http://ancientufo.org/2015/04/the-unexplained-portuguese-cosmic-egg/
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De alguém a 08.10.2016 às 22:30

Obrigado. Essas "visões" tendem a ser muito circunstanciais, mas é sempre bom aprender algo de novo!
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De José Lopes a 29.06.2010 às 11:07

Saudações:

Compreendo as suas reservas e dúvidas sobre a narração platónica, porque elas também se colocam a quem quer que se debruce sobre esse texto e sobre o enigma que nos vem assombrando desde então.
As contradições e falhas no Timeu e no Crítias, são óbvias, mas ficarmo-nos por aí seria como negar a existência da cidade de Tróia a partir das efabulações e liberdades poéticas de Homero, ou dos Homeros.
A perfeição e suprema tecnologia dos atlantes são aditamentos de autores muito posteriores. Sobre a Atlântida ser um continente, isso passa por Platão descrevê-la como uma ilha maior que a Líbia e a Àsia reunidas, o que será certamente um exagero do filósofo ou das suas fontes obscuras.

Mas há pelo menos, dois detalhes interessantes que passo a referir à vol d'oiseau.

A localização parece-me geograficamente muito precisa: uma ilha (gigante) diante das Colunas de Hércules, para além da qual se passava, diz Platão, para outras ilhas (talvez as remanescentes Antilhas) e destas para o continente oposto, que "é um verdadeiro continente", a América. Para um grego da antiguidade, isto quase parece tirado do Google Earth.

Para finalizar, as datas, nos diálogos platónicos é dito que a submersão da Atlântida se dá 9000 anos antes de Sólon, o que dá os tais 9600 anos antes da nossa era. Se espreitarmos os manuais de geologia, podemos constatar que foi por estes tempos (em séculos e não num só dia e numa só noite), que os níveis dos oceanos se elevaram entre 80 e 120 metros devido ao derretimento das calotas de gelo que cobriam os continentes, provocando a submersão de ilhas, e planícies na orla das placas continentais.
Houve inclusivamente um pico térmico na fase final da glaciação do Würm em que os glaciares derreteram mais depressa e os níveis do mar subiram em grande escala: foi a chamada Oscilação de Allerod, cerca de 9700 antes da nossa era, muito próximo da data da fantasia platónica.
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De alguém a 09.07.2010 às 01:12

José Lopes, obrigado por essas explicações extra. Eu não quis desenvolver muito alguns aspectos que abordou (isso iria além dos objectivos deste blog), mas creio que a forma como o fez - nomeadamente nos dois detalhes que desenvolveu - foi bastante interessante.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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