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Que as obras "Lúcio, ou o Burro" (uma obra de Pseudo-Luciano) e "O Burro de Ouro" (ou "A Metamorfose", de Apuleio) são similares é relativamente fácil de ver, até porque não abundam obras em que a personagem principal é transformada em burro, mas numa leitura comparativa das duas podem ser notadas muitas outras semelhanças. São múltiplos os episódios extremamente parecidos, mas existe também um elemento que me pareceu significativamente diferente - o final.

 

Enquanto que na obra de Apuleio o burro é transformado de volta à sua forma original com algum auxílio divino, o burro de Pseudo-Luciano (e uso este nome por não se ter a certeza da autoria da obra) parece contar apenas consigo próprio. Depois, enquanto que o primeiro se torna sacerdote de Ísis, o segundo volta para os braços da mulher com quem, sob a forma de um burro, tinha tido relações sexuais, a qual acaba até por rejeitá-lo.

 

Sem querer revelar demasiado da trama de ambas as obras, as múltiplas semelhanças de episódios levam-me a pensar que poderá ter existido uma tradição comum em que ambas as obras se basearam, ou que uma delas se baseie na outra. Já que a história de Apuleio é bastante mais detalhada e desenvolvida, é possível que provenha da outra e a tente adaptar, melhorar, para um novo público. Contudo, se se tiver em conta que ambos os autores (ou, para ser correcto, os possíveis autores) são da mesma época, é muito mais provável que ambas se baseiem numa história popular.

 

Para terminar, caso um leitor queira conhecer a história em questão, importa dizer que pode optar por uma obra ou pela outra. Se a obra de Apuleio é muito mais famosa, isso prende-se com a riqueza e detalhe da mesma; por outro lado, "Lúcio, ou o Burro" apresenta uma trama mais sucinta, mais rápida, mais fácil de ler, que provavelmente agradará a quem procura uma obra mais simples.

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2 comentários

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De BAdS a 01.11.2010 às 18:04

Se bem me recordo, o autor de "História Verdadeira", numa dada interpretação, ironizava de tal maneira as divindades, que demonstrava um comportamento quase "ateísta". Poder-se-á, então, compreender a manutenção do estado animalesco em "Lúcio, ou Burro" nessa luz, tendo em conta a possível ligação ao pensamento de Luciano, indiciada pelo texto e tradição?

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De alguém a 20.11.2010 às 00:49

Essa foi uma questão parcial que, há já vários anos, eu discuti com um dado professor. Na altura, entendeu-se que a ironia para com as divindades, muito visível na literatura de Luciano, não pode ser vista como um ateísmo.

Se nas obras de Luciano essa ironia surge como mais concentrada, dando o aspecto de que existe um maior desrespeito para com a divindade, isso deve-se à sua pouca extensão. Já em Homero, cujas obras são maiores, existe um maior espaçamento entre os episódios irónicos - veja-se, por exemplo, a figura dos deuses feridos na Guerra de Tróia, ou as querelas humanas que têm um espelho no próprio Olimpo.

Além disso, mais do que criticar a divindade, Luciano parece criticar a concepção humana do divino. Quando, em "História Verdadeira", os heróis chegam a uma ilha e lá encontram sinais de uma passagem de Hércules, sempre me pareceu que esta era uma crítica às "fábulas" criadas pelos mortais, em detrimento de uma verdadeira crítica aos deuses, ou um real ateísmo.

Assumindo, então, que esta obra é mesmo da autoria de Luciano, seria ela um exemplo do ateísmo do autor? Não me parece. Veja-se, a título de exemplo, a história de Medeia; mediante o autor que a trata, existem dadas alterações importantes. Será que algum dia poderemos compreender de onde vieram todas elas? Não creio, até porque nunca poderemos saber o que vai na cabeça de um autor aquando do processo de criação; assumir que existe, imperativamente, uma relação entre as crenças de um dado autor e a toda sua criação literária não é de todo correcto; para descrever uma homicídio o autor não tem de matar alguém, e por conseguinte a alteração de um detalhe numa obra é algo que não pode ser explicado excepto por autores clarividentes, com uma segurança de argumentação quase divina, mas sem provas reais. E isso, diga-se, prefiro não fazer, por várias razões.


Quanto à falta de comentários, bem, o objectivo deste blog nunca foi, e nunca será, o de ter muitos comentários. Se assim o fosse, eu escreveria sobre jogos de futebol, ou sobre centros comerciais, ou andaria a pedir cunhas a editoras que publicam nomes sonantes.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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