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Se numa qualquer conversa ouvirmos falar de sereias, o nosso imaginário tende a levar-nos para uns seres meio-mulher, meio-peixe, de voz encantadora. Mas... e se esta ideia estivesse incorrecta?

 

Inicialmente existiam duas criaturas muito similares. Ambas apresentavam elementos comuns - tinham uma voz encantadora e eram metade-mulher - mas, depois, havia algo que as distinguia - a parte inferior do seu corpo. Uma delas, aquela que para nós é a mais conhecida, era metade-peixe, mas havia uma outra figura que era metade-pássaro. As primeiras eram chamadas Sirenas, enquanto que as segundas tinham vulgarmente o nome de Sereias.

 

Até aqui tudo bem, mas à medida que se vão consultando bestiários de diferentes épocas nota-se um fenómeno interessante: apesar de começarem como figuras totalmente distintas, depois parece existir uma fusão de ambas e uma confusão dos seus nomes, algo que é seguido pelo desaparecimento de uma delas.

 

Isto poderá parecer estranho, mas pense-se então em mitos nos quais uma dessas figuras está presente. Um dos mais famosos é certamente o episódio da Odisseia em que a personagem principal é presa ao mastro do navio de forma a que consiga ouvir, sem sofrer qualquer dano, o canto destas criaturas. Assim, veja-se um vaso onde é mostrado o episódio em questão:

 

 

É demasiado fácil constatar que as figuras mitológicas aqui presentes são metade-mulher (identificadas pela ausência de barba) e metade-pássaro. Também, uma das personagens humanas está presa ao mastro do navio, algo que nos permite identificar a cena com uma ainda maior precisão. Então, que criaturas serão estas? De acordo com grande parte das traduções portuguesas (a título de exemplo, veja-se a disponível neste link), são sereias, apesar de não terem - como é fácil reparar - uma metade inferior semelhante à dos peixes.

 

Assim se compreende que, como já referi acima, ao longo dos tempos as sirenas se tenham transformado em sereias, enquanto que as sereias originais acabariam por desaparecer quase totalmente do nosso imaginário. Agora, falta explorar o porquê... não é possível concluir algo com uma total certeza, mas parece-me que esta alteração tem a ver com o contexto mitológico de ambas as figuras, provavelmente até ligado com o episódio mencionado acima. Neste contexto faz mais sentido tratarem-se de mulheres-peixe do que de mulheres-pássaro, e talvez seja por razões como essa que o nome transitou de umas para as outras. Veja-se que na arte medieval ambas as figuras se tendem a confundir, e só são distinguidas pelo seu contexto (como pode ser constatado nas múltiplas imagens disponíveis neste link), e esta é uma confusão que chegou aos dias de hoje, em que as sereias são vulgarmente mostradas como tendo uma metade inferior semelhante à dos peixes.

 

 

Voltando-se então à questão inicial, serão as "sereias" realmente seres meio-peixe, meio-mulher? Se originalmente essa era uma ideia incorrecta, foi tornada correcta pelo peso das anos; contudo, se quisermos ser mais precisos e correctos, uma sereia é um ser meio-pássaro, meio-mulher, enquanto que a sirena junta à sua parte feminina uma metade de peixe.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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