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Dentro de alguns dos temas por cá já tratados, sempre achei curiosa existência de um dado grafito em Roma. Aqui fica uma reprodução do mesmo, retirada deste link.

 

 

Além de um texto (cuja interpretação pode ser vista no endereço acima mencionado), o grafito mostra uma pessoa (presumivelmente o Alexamenos nomeado no texto) a venerar um deus com cabeça de animal, possivelmente de um burro. Será a cena aqui mostrada a da crucificação de Jesus Cristo, com algumas liberdades artísticas e religiosas? Não podemos ter uma total certeza para nenhum dos lados, mas sempre me pareceu curioso o facto de uma das figuras ter cabeça de burro, uma singular characterística mais frequente no Egipto, em que muitos dos deuses apresentavam cabeça de animal (apesar deste deus, em específico, estar ausente do panteão egípcio, numa altura em que a sua presença poderia aqui levar a outras questões).

 

Se este facto, dos cristãos venerarem um deus com cabeça de burro, é referido por muitos autores, nenhum deles parece esclarecer totalmente a questão, ou sequer referir a existência de um qualquer mito por detrás dessa aparência. Porém, Tertuliano parece levar-nos a algumas curiosidades, já que refere estes elementos por duas vezes no livro III de Às Nações:

 

- No capítulo XI refere que foi Tácito (veja-se Histórias, V.3-4) que inventou tal tolice, e reconta partes das palavras desse autor. Depois, diz que os seus pagãos é que veneram burros, não só em cabeça (ou seja, antropomórficos) mas com um corpo completo de burro, ou seja, que veneram toda a espécie de gado, juntamente com Epona (deusa protectora dos cavalos, burros e mulas) e os estábulos que lhes estão associados.

 

- No capítulo XIV, refere a história de um antigo judeu que apresentava uma caricatura dos cristãos a que dava o nome de Onocoetes. Sobre isto, Tertuliano diz que os seus opositores veneram deuses com cabeça de vaca, cabra, etc., pelo que têm vários Onocoetes entre eles.

 

Então, de onde viria toda esta história? Sendo que Tácito era um dos mais importantes historiadores latinos, é muito provável que pelas suas palavras esta figura inicialmente associada ao Judaísmo tenha então passado a ser associada aos cristãos, de que ainda se sabia menos nessa altura. Então, mais do que um mito, esta crença era fruto de um equívoco, seja somente da parte de Tácito ou até das representações sociais dos judeus (e, mais tarde, dos próprios cristãos) vigentes na altura. Assim, é muito provável que o Alexamenos do grafito fosse cristão (mais do judeu, já que se apresenta algo semelhante a uma cruz), e alguém se quisesse referir a ele de uma forma pejorativa, satirizando parte das suas crenças religiosas.

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2 comentários

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De Flávio Josefo a 04.07.2011 às 08:15

Mas a cruz não é um símbolo que só séculos mais tarde foi associada ao Cristianismo?
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De alguém a 04.07.2011 às 08:27

A cruz, enquanto símbolo do Cristianismo, sofreu diversos mutações ao longo dos tempos. Se, enquanto elemento de veneração, só surge muito séculos mais tarde depois da data suposta deste grafito, o elemento que aqui se pretendia satirizar tem não tanto a ver com os elementos que os cristãos veneravam na sua religião mas sim com aqueles que as outras religiões pensavam que eles veneravam, em especial a junção de dois elementos diferentes: que o seu fundador tinha sido crucificado, e que veneravam um deus com cabeça de burro.

Contudo, é importante ver que a cruz, como a temos hoje e enquanto elemento de veneração, só se tornou similar à de hoje séculos mais tarde, creio que após a Idade Média. Até lá, houve uma evolução de ícones, entre eles uma combinação do cordeiro + cruz, um próprio cordeiro crucificado, o ichthys, o chrismon, etc, todas elas símbolos de uma ênfase dada a aspectos diversos da mesma religião.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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