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Escrita perto do final do século V, a obra Mitologias, de Fulgêncio, pouco mais explica que as obras de mitógrafos anteriores. Contudo, um dos 50 capítulos da obra, o primeiro de todos eles, apresenta um mito mais obscuro, o da origem do primeiro ídolo.

 

Sírofanes tinha um filho, que amava mais que tudo. Quando, por um golpe do destino, o perdeu, entrou em desespero, já que toda a sua fortuna de nada lhe servia nessas circunstâncias. Decidiu então pôr uma efígie do seu filho em casa, com esperança de que isso lhe trouxesse menos dor, mas esse acto acabou por ter um efeito contrário, já que lhe renovava a dor de diariamente (daí a semelhança do nome com a função latina, "idos dolu"). Então, para cair nas boas graças do mestre, os escravos começaram a depositar oferendas em frente dessa éfigie, a usá-la quase como protecção contra possíveis castigos.

 

Este mito, depois apoiado com citações de Petrónio e Mintanor, leva-nos indirectamente a uma opinião partilhada por muitos outros mitógrafos, segundo os quais os deuses gregos eram essencialmente mortais deíficados. Contudo, é-nos aqui também mostrado um intemporal interesse da humanidade, o do tornar a sua figura imortal, fazendo-a perdurar após os limites da morte. Finalmente, podemos ainda daqui extraír uma última lição; tal como Fulgêncio escreve, foram o medo e dor que criaram os deuses, uma tendência que perdurou até aos dias de hoje, em que a religião tem um papel fulcral nas (agora poucas) situações limite da nossa vida.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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