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Muito poderia eu escrever sobre esta "História Nova" de Zósimo, mas no contexto deste espaço existem alguns aspectos mais importantes do que outros. Contrariamente ao que sucede em muitos dos livros de história a que tive acesso no passado, este conta a ascensão e (parcial) queda do Império Romano, mas do ponto de vista de um autor que não é cristão; de facto, em muitos momentos da obra o autor apresenta ideias totalmente contrárias ao Cristianismo, além de apoiar as antigas religiões gregas e romanas. Porém, este aspecto é muito menos focado do que se poderia pensar... é óbvio que o autor não passa o tempo a criticar a nova religião, mas fá-lo, indirectamente, sempre que pode imputar um dado evento a causas religiosas. Seguem-se cinco momentos da obra que achei especialmente interessantes:

 

Num dos livros é contado um episódio em que um dado imperador, e respectivo exército, vêem perto de uma estrada um homem que parece ter sofrido um sem número de chicotadas, um homem que parece estar morto (dele nem recebem qualquer tipo de resposta) excepto nos seus olhos. Este estranho evento é então interpretado como um presságio do futuro que aguardava o próprio império de Roma.

 

Mais tarde, é contada a história de dois ídolos (um de Júpiter Dodoneu e um de Minerva, se não estou em erro) que foram a única coisa a sobreviver a um terrível fogo, e que não pode deixar de nos relembrar muitas das lendas cristãs da mesma época, e até de eventos dos nossos dias.

 

Ainda, ao longo da obra existem múltiplos momentos em que esta ou aquela figura procuram numa igreja o espaço onde ninguém lhes possa fazer qualquer mal, e esse santuário é (quase) sempre respeitado, no sentido que a pessoa não é simplesmente arrastada de lá. De facto, a pessoa parece ter de sair sempre pelo próprio pé, mesmo que isso tenha origem em subterfúgios menos correctos. Assim, um dos "milagres" que teve lugar durante o saque a Roma, em que as pessoas que se refugiavam em igrejas foram poupadas, parece ter muito menos de milagroso do que se poderia pensar.

 

Também, a passagem de Alarico por Atenas é motivo para uma curiosa história - ao olhar para as muralhas da cidade, este rei dos Hunos viu nelas as figuras de Minerva e Aquiles em posição de ataque, razão pela qual acabou por tentar a paz com a cidade, em detrimento de um ataque directo.

 

Ao referir-se a um Imperador como "pontifex maximus", o autor explica de onde vem esse título. Mais do que a metáfora óbvia desta figura ser a que faz a ponte entre os homens e os deuses, é dito que o nome deriva dos primeiros ídolos; já que nessa altura ainda não existiam templos onde os alojar, teriam sido inicialmente colocados em pontes (talvez como forma de frisar a importância das mesmas? Isso já não é explicado...), e daí o nome.

 

Porém, o objectivo desta obra leva a que acabe por ser muito mais detalhada em alguns aspectos do que noutros. Se à Guerra de Tróia, às conquistas Alexandre Magno ou aos primeiros imperadores são dedicadas apenas algumas linhas, já a vida de Constantino I, a dos últimos imperadores e os eventos mais tardios são providos de um maior detalhe. Culpa das fontes consultadas pelo autor? Talvez, mas infelizmente a obra também está incompleta, e as duas lacunas (ou até o facto de nunca ter sido terminada?) não nos permitem ter acesso àquele que deveria ser o seu final, o saque de Roma por Alarico, do qual poderíamos ter uma importante fonte de informação...

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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