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Quando um grupo de pessoas se reúne num banquete, é decidido que deverão discursar sobre o amor, um de cada vez. É essa a ideia por detrás deste texto platónico, em que a vários discursos se segue, eventualmente, o do sempre esperado Sócrates. Posso mencionar que cada um desses discursos tem o seu interesse particular, já que exploram as várias vertentes do amor, das mais básicas até ao amor pela sabedoria, mas é-me impossível resumir essas linhas, até porque muito da beleza e do conteúdo original acabariam por se perder. No entanto, posso e devo mencionar alguns dos mitos referidos na obra:

 

- É recordado, como importante exemplo de amor, a situação de Alceste, uma esposa que deu (literalmente) a vida pelo marido, quando os próprios pais deste se recusaram a fazê-lo. Depois, por amor e com intervenção divina, ela é trazida de volta ao mundo dos vivos; esta situação é oposta à de Orfeu, incapaz de trazer a amada de volta. Se o mito não é contado na sua totalidade, posso referir que esta é a mesma figura sobre a qual Eurípides escreveu uma tragédia.

 

- Se, na versão de Homero, a vida curta de Aquiles se deve ao facto deste ter escolhido juntar-se à Guerra de Tróia, é referida aqui uma outra versão do mesmo mito. Segundo esta, a morte de Aquiles derivava do facto deste ter morto Heitor, algo que fez como vingança pela morte do seu amado Pátroclo. Uma alteração no oráculo - Aquiles poderia juntar-se aos Gregos, não podia era matar Heitor - faz com que esta se torne uma história do poder e do ímpeto que o amor suscita nos seres humanos, quando estes se encontram em circunstâncias extremas.

 

- Sobre a relevante figura de Afrodite, é revelada a existência de duas deusas - uma delas filha de Urano, e outra filha de Zeus e Dione - que partilham um mesmo nome mas têm características diferentes, sendo a primeira a do amor intelectual e a segunda a do amor carnal e sexual.

 

- Da boca de Aristófanes surge um mito que considero muito interessante. Inicialmente existiam três sexos - o masculino, o feminino e um caracterizado pela junção dos dois anteriores, com duas cabeças, quatro braços, quatro pernas, etc - o último dos quais tinha capacidades muito superiores aos outros dois, sendo até capaz de desafiar os deuses. Então, estes decidiram separá-lo em dois, levando à configuração humana actual (e não temeriam voltar a fazê-lo caso continuassem a existir problemas, ficando os seres humanos a saltitar, providos de uma única perna). Assim, um dos objectivos humanos seria o de encontrar essa segunda parte de nós mesmos, de que fomos separados pelos deuses.

 

- Num relato em segunda mão (é-nos contado por Sócrates, que o ouviu da boca de Diotima de Mantinea), é dito que o Amor nasceu de uma relação sexual entre a Pobreza e a Abundância, explicando-se através desta paternidade o carácter tão contraditório da nova figura.

 

 

Em relação a estes mitos, devo começar por fazer uma menção ao mito de Alceste, que sempre considerei ser extremamente belo, não tanto pela forma como Eurípides o retratou mas por todo um conjunto de questões que pode suscitar. Era capaz de jurar que já tinha falado dele por cá, mas infelizmente não o encontro... terá então de ficar para uma oportunidade futura.

Também o mito de Aristófanes merece ser referido, não por ser absurdo, como as personagens da obra parecem pensar, mas por poder ser uma possível fonte da ideia de "alma gémea", explicando a necessidade humana de um parceiro, de alguém que nos faça completos, como até poderíamos ser antes de Zeus nos ter separado. Seria uma sátira às teogonias da época? Talvez, mas é muito curiosa, essa ideia dos humanos como seres incompletos, sempre em busca da metade que lhes falta, e que parece até ter chegado aos dias de hoje.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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