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Creio que o título desta obra de Salútio deixa entender precisamente do que ela fala, mas também esconde um conteúdo muito mais importante do que se poderia esperar. Claro que o autor fala dos deuses e do mundo, mas fá-lo de uma forma extremamente sintética, quase como se este se tratasse de um catecismo.

Por exemplo, num dos momentos iniciais (e que, a mim, me pareceu de especial interesse para aqui) o autor divide os mitos em cinco diferentes tipos, que depois seriam tratados por diferentes pessoas. Os mitos teológicos seriam da competência dos filósofos, os físicos pertenceriam aos poetas, e assim por diante. Vejamos:

Of fables, some are theological, others physical, others animastic, (or belonging to soul,) others material, and lastly, others mixed from these. Fables are theological which employ nothing corporeal, but speculate the very essences of the gods; such as the fable which asserts that Saturn devoured his children: for it obscurely intimates the nature of an intellectual god, since every intellect returns into itself. But we speculate fables physically when we speak concerning the energies of the gods about the world; as when considering Saturn the same as Time, and calling the parts of time the children of the universe, we assert that the children are devoured by their parents. But we employ fables in an animastic mode when we contemplate the energies of the soul; because the intellections of our souls, though by a discursive energy they proceed into other things, yet abide in their parents. Lastly, fables are material, such as the Egyptians ignorantly employ, considering and calling corporeal natures divinities; such as Isis, earth; Osiris, humidity; Typhon, heat: or again, denominating Saturn, water; Adonis, fruits; and Bacchus, wine. And, indeed, to assert that these are dedicated to the gods, in the same manner as herbs, stones, and animals, is the part of wise men; but to call them gods is alone the province of mad men; unless we speak in the same manner as when, from established custom, we call the orb of the Sun and its rays the Sun itself. But we may perceive the mixed kind of fables, as well in many other particulars, as in the fable which relates, that Discord at a banquet of the gods threw a golden apple, and that a dispute about it arising among the goddesses, they were sent by Jupiter to take the judgement of Paris, who, charmed with the beauty of Venus, gave her the apple in preference to the rest. For in this fable the banquet denotes the supermundane powers of the gods; and on this account they subsist in conjunction with each other: but the golden apple denotes the world, which, on account of its composition from contrary natures, is not improperly said to be thrown by Discord, or strife. But again, since different gifts are imparted to the world by different gods, they appear to contest with each other for the apple. And a soul living according to sense, (for this is Paris) not perceiving other powers in the universe, asserts that the contended apple subsists alone through the beauty of Venus.
fonte: aqui

Este seria, segundo o mesmo autor, então o caminho para se poder compreender a verdade por detrás dos mitos. Mais do que meras violações, parricídios e raptos, eventos que os autores cristãos tanto abominavam, existia por detrás desses mitos uma verdade escondida, que não seria tão simples como nos possa parecer.

Bem, mas nem só de deuses vive esta obra, e aborda igualmente temas como a imortalidade da alma, o destino, a existência do mal, a necessidade de sacrifícios aos deuses (e seu objectivo), ou o porquê dos castigos divinos tardarem em chegar, entre outros. As mesmas questões que também incomodavam os autores cristãos da mesma época, importa frisar, e que ainda a nós nos preocupam. Porém, se cada um desses temas daria para encher um conjunto inumerável de linhas, o mais importante em relação a esta obra é certamente o facto de o fazer de uma forma simples, directa, quase que a dizer "a nossa religião, em relação a este tema, pensa X", algo que para nós só pode ter um valor adicional, até porque muitas dessas informações não nos chegaram de nenhuma outra forma.

Fácil de ler, e até muito interessante para quem estiver curioso sobre a visão destas questões teológicas no século IV d.C. .

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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