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Esta obra de Filóstrato, mais conhecido como autor da Vida de Apolónio de Tiana (já aqui falada), tem um apelo muito invulgar. Trata-se de um diálogo entre um céptico e alguém que venerava Protesilau, o primeiro dos Aqueus a morrer em Tróia, sobre o tema que dá título à obra. Ao longo do diálogo o céptico vai sofrendo uma transformação, tornando-se depois num adepto convicto dos encantos semi-divinos de Protesilau.

 

Existe, assim, uma gradação interessante neste diálogo. Se começa com uma introdução em que é provada a real existência dos heróis e semideuses, até com algumas provas físicas à mistura, eventualmente transforma-se numa dissertação sobre a guerra de Tróia, em que, através da figura de um viticultor que costumava ver Protesilau, é estabelecida uma comparação entre a Tróia de Homero e uma outra, por vezes até muito diferente mas mais realista, que Protesilau teria testemunhado após a sua morte física.

 

Esta é, a meu ver, uma obra surpreendente, já que apresenta não só alguns detalhes secundários curiosos (recordo-me, por exemplo, que é feita uma referência à descoberta de esqueletos de heróis, gigantescos e com cabeça de cobra - quem pensar um pouco, entenderá o que isto significa), como também compara versões e episódios da guerra de Tróia, complementados com um catálogo de informações sobre cada um dos heróis, desde os maiores (como Aquiles ou Odisseu) até alguns dos quase desconhecidos. São também contados diversos milagres realizados pelos intervenientes dessa guerra, e múltiplos prodígios, entre muitas outras coisas, das quais Protesilau é, na maior parte das vezes, um informador in absentia (sim, que usar palavras em Latim soa sempre bem a certas elites), que interage com o viajante exclusivamente através dos relatos do viticultor.

 

Posso ainda mencionar um aspecto misterioso desta mesma obra - apesar de serem feitas múltiplas menções ao conceito da reencarnação, seja relativamente às de Protesilau ou às de Pitágoras (que, segundo se conta, acreditava ter vivido outras vidas, uma das quais enquanto Euforbo, herói troiano), o tema nunca é muito desenvolvido, ficando a pairar como um conhecimento secreto que apenas seria acessível a um nível mais elevado do culto de Protesilau, ao qual nenhuma das duas personagens tinha ainda acesso. Em relação a esses repetidos regressos do mundo dos mortos, ambas as personagens do diálogo mostram-se tão curiosas como qualquer leitor moderno, mas a resposta permanece secreta até ao anoitecer do final da obra.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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