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As obras Lúcio, ou o Burro e O Burro de Ouro, de que já falei anteriormente, têm bastante em comum uma com a outra. Então, decidi estudá-las em sequência, de forma a notar, de uma forma mais precisa, as semelhanças e diferenças entre elas.

 

De uma forma geral, a trama das duas obras é a mesma, e os elementos essenciais da trama parecem manter-se. Estranhamente, até alguns elementos secundários ocorrem nas duas obras. Porém, a obra de Apuleio adiciona diversas histórias secundárias, que em nada têm impacto para a trama principal, e clarifica alguns elementos. Por exemplo, se no primeiro texto o facto de Lúcio estar a visitar uma casa quando é transformado em burro é rapidamente esquecido, já no segundo é, eventualmente, explicado que o desaparecimento foi interpretado como uma evidência de que ele estaria envolvido no assalto. Também é divulgado, na obra de Apuleio, o destino final de algumas das personagens, mas esses elementos, como também já referi, são todos eles secundários.

 

Porém, a trama tem um momento chave que merece ser analisado. Para quem não tenha lido a(s) obra(s), posso dizer que fala de um homem, Lúcio, que por artes mágicas é acidentalmente transformado em burro, forma da qual só poderia voltar quando comesse algumas rosas. Eventualmente, e perto do final da trama, o burro é levado para um espectáculo, onde deveria ter uma relação sexual com uma mulher. Agora, se na obra de Pseudo-Luciano é aí que ele encontra as rosas, já na obra de Apuleio o burro escapa quando todos estão distraídos, e mais tarde adormece, e é aqui que a trama se torna significativamente muito diferente.


A obra de Pseudo-Luciano acaba pouco depois deste momento (Lúcio, em forma humana, volta para uma mulher com quem tinha tido sexo na sua forma de burro, e é agora rejeitado), mas na obra de Apuleio o derradeiro livro XI é quase exclusivamente sobre Ísis, que ajuda o herói a voltar à forma humana e faz com que ele se torne sacerdote do seu culto, por dever essa nova vida humana exclusivamente à deusa. É curioso, esse contraste entre o final das duas obras mas, pessoalmente, não posso deixar de sentir que o final da obra de Apuleio está ali um pouco a mais, como se tivesse sido lá colado quase por engano. Soa pouco natural porque, em todo o resto da obra, são raros os momentos em que se aponta para alguma explicação mais divina da transformação, ou dos eventos que vão tomando lugar, e então a aparição de Ísis, e quase tudo o que ocorre nesse último livro, assemelha-se a um terrível deus ex machina ali colocado, única e exclusivamente, para dar um final mais real a toda a história.


Para terminar este tema, importa-me esclarecer algo... as duas obras não são a mesma! Ambas falam de um Lúcio que, por artes mágicas, se transforma em burro, e o essencial das aventuras de ambas as personagens é igual, mas a obra de Pseudo-Luciano também tem uma trama mais directa e mais rápida, enquanto que O Burro de Ouro (ou A Metamorfose) de Apuleio perde muito tempo com elementos adicionais e histórias secundárias (por exemplo, o relato dos amores de Cupido e Psique ocupa quase 2 dos 11 livros da obra). Portanto, ler uma delas não é o mesmo que ler a outra, se bem que se alguém tiver de optar somente por uma delas, certamente se tornará mais rico com a obra de Apuleio do que com a de Pseudo-Luciano...

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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