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Dizem-nos as histórias que num dado dia a viajante Sibila de Cumas se encontrou na corte de Tarquínio, o último rei de Roma. Dos nove livros que tinha em sua posse, ofereceu-os ao monarca por uma soma avultada (curiosamente, a história não nos preserva quão elevada seria...), mas este rejeitou comprá-los. Então, a Sibila atirou três deles para o fogo e propôs que Tarquínio comprasse os seis restantes ao mesmíssimo preço. Pela segunda vez o monarca rejeitou essa proposta, e pela segunda vez a viajante destruiu três dos volumes que tinha em sua posse. Finalmente, a desconhecida ofereceu os três últimos livros pelo preço original. Inesperadamente, Tarquínio acabaria então por comprá-los - são os Livros Sibilinos, famosos da cultura e religião romana - enquanto que essa Sibilia desapareceu misteriosamente, para nunca mais ser vista pelos homens.

 

Muito se poderia escrever relativamente a este pequeno mito, mas os seus mistérios são maiores do que a informação que ele nos revela. Está envolto na neblina dos tempos, surgindo numa espécie de vácuo histórico e mitológico cujos contornos estão aqui representados. Seja quem tiver sido essa Sibila, os livros que supostamente vendeu a Tarquínio acabaram por se tornar de extrema importância na religião romana, mas também foram perdidos nos primeiros séculos da nossa era, fruto de dois incêndios.

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Muitas são as referências aos Ciclopes, enquanto figuras mitológicas, na literatura da Antiguidade, mas a mais famosa de todas elas é indubitavelmente aquela que ocorre na Odisseia de Homero. O episódio de como o herói Ulisses o cegou (momento que até pode ser visto na imagem acima) é sobejamente conhecido, bem como a forma brutal como Polifemo e os seus companheiros ciclopes conduziam a sua vida.

De onde vem então a expressão "à maneira dos Ciclopes"? Se esta expressão já não é utlizada nos nossos dias, remetia-nos para a ideia de uma vida desregrada, "bárbara" no sentido grego da palavra, contrária às regras da civilização, como aquela do ciclope de Homero, que comia seres humanos e bebia muitas vezes em excesso.

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O "Corno da Abundância", também conhecido como cornucópia, está frequentemente associado ao deus-rio Aqueloo, que Hércules defrontou em combate. Como pode ser visto na parte inferior da imagem acima, o herói até partiu um dos cornos do deus quando este assumiu a forma de um bovino. Mas depois o mito torna-se um pouco invulgar - para obter o seu corno de volta, o deus trocou-o pelo Corno de Amalteia, símbolo da cabra/deusa que tinha amamentado um jovem Zeus. Em seguida, o herói entregou esse segundo corno ás Náiades, que o transformaram na chamada "cornucópia" (note-se que, etimologicamente, esta era uma "cópia do corno" da deusa). Desconhece-se o porquê da necessidade dessas trocas e cópias, mas é possível que se tenham devido a uma sintetização de diversos mitos antigos. Posteriormente, essa cornucópia acabou por ir parar ao mundo dos mortos, em que o deus Pluto a passou a carregar como o seu símbolo de abundância.

Mas porque usamos, então, a expressão "cornucópia"? Em Portugal ela parece ser utilizada para designar locais em que existe uma abundância de alguma coisa. Por exemplo, o bolo que partilha este nome costuma ter um interior repleto de alguma espécie de creme.

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Nos seus Adágios Erasmo apresenta uma expressão curiosa, ao revelar que de alguém com bastante conhecimento se podia dizer que até "Sabe como Júpiter desposou Juno". A própria ideia revela-nos de antemão que esta é uma história um pouco obscura, que somente um número muito restrito de pessoas conheceria. Se, nesse sentido, o casamento das duas figuras está intimamente ligado com os próprios mitos gregos e o casamento de Zeus e Hera, mesmo nessa cultura o mito em questão não é muito conhecido. Sabe-se que houve uma celebração, essa de grande fama, mas os eventos que levaram ao próprio desposo são pouco conhecidos.

Felizmente, Erasmo também conta essa história, atribuindo-a a um escólio na obra do poeta grego Teócrito. Seguindo as suas linhas basilares, podemos revelar que Zeus se transformou num cuco, lançou uma tempestade e se foi colocar perto do regaço de Hera. Naturalmente que a deusa recolheu o pequeno pássaro, tendo a intenção de o proteger do mau tempo. Porém, nesse momento o deus voltou à sua forma original e tentou ter relações sexuais com essa sua irmã. Inicialmente esta recusou-o, mas com a intervenção de outros deuses, a que se juntou depois um pedido de casamento do próprio Zeus, essa paixão física acabou por ser consumada.

 

Não podemos ter a certeza de que este mito nos preserva a versão original, mais antiga, do episódio que antecedia o casamento de Zeus com Hera, mas é uma história que, se for vista no contexto geral dos mitos gregos, faz todo o sentido. Permite-nos compreender que as múltiplas infidelidades do deus, em que este se transformava em diversas figuras não-humanas para seduzir as mulheres, tinha uma base no seu próprio casamento divino - seria, por essa razão, também possível que as mortais seduzidas pelo deus pensassem, conhecendo o caso particular de Hera, que a sedução do deus não fosse levar somente a uma relação casual. Por isso, esta parece-nos uma possibilidade credível para um potencial episódio, hoje perdido, que até possa ter antecedido o casamento de Zeus/Júpiter com Hera/Juno!

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O mito de Hilas (e Hércules) é indissociável da trama dos Argonautas. Conta-nos que quando estes heróis empreenderam a sua demanda, numa dada altura pararam numa ilha. Hilas afastou-se, acabando por ser raptado por umas ninfas de um curso de água próximo. Hércules, que o amava, recusou-se a partir sem o encontrar, abandonando a expedição principal para partir em busca do desaparecido. Enquanto caminhava, gritou repetidamente por Hilas, mas diz a história que nunca mais o encontrou, supondo-se que, eventualmente, tenha abandonado a busca.

 

Este mito é mencionado pelos mais diversos autores, sendo difícil saber qual a sua fonte mais antiga, mas é particularmente famoso do poema de Apolónio de Rodes. "Chamar Hilas" é portanto uma tarefa impossível, na qual qualquer espécie de progresso é impossível.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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