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Um dos aspectos mais interessantes da mitologia grega e romana é o facto de nem todos os elementos divinos terem a mesma importância. Assim, Varrão, numa das suas mais famosas obras, dividia os deuses em múltiplas classes, como nos informa Tertuliano. Existiam, para esse autor, os deuses dos filósofos, os dos poetas, e os da população, numa ideia que nada tem a ver, directamente, com a veneração, mas sim com a construção da ideia da própria divindade.

 

Quando, por exemplo, um dado poeta contava um mito num dos seus textos, podia até acontecer que esse mito tivesse algum fundamento religioso, mas também era possível que fosse, exclusivamente, o exercício da liberdade poética desse autor a tomar lugar. Não é por ele contar uma história em que Medeia e Hércules se conhecem e defrontam a Hidra de Lerna que um tal episódio era considerado como real pelo resto da população.

De forma equiparável, se um filósofo dissesse que cada uma das estrelas era uma deusa, isto não implicava que, de um dia para o outro, os céus se passassem a apresentar repletos de novos deuses, cada um com seu nome, e cada qual como objecto de veneração, mas sim que alguém simplesmente teorizou essa possibilidade.

E, ainda, existiam deuses que só eram venerados pela população (talvez de classe mais baixa?), como os deuses do nascimento e crescimento das crianças, os das descidas, e o das dobradiças da porta.

 

Essa é, de facto, uma enorme distinção que marca o confronto entre os autores pagãos e os cristãos. Como já aqui foi referido várias vezes no passado, se existiam mitos em que deuses devoravam os próprios filhos, ou em que Zeus traía a mulher com múltiplas mortais, nenhum dos adeptos da antiga religião parecia acreditar, ou considerar, que esses actos eram aceitáveis e deviam mesmo ser seguidos pelos humanos. Em vez disso, se, para eles, essas eram "fábulas dos poetas", já os autores cristãos da Antguidade parecem assumir que era precisamente essa enorme imoralidade que a religião dos pagãos pregava - que todos deveriam trair esposas, ou comer crianças, entre incontáveis outros exemplos de actos horrendos - o que não era verdade.

Um outro aspecto importante a ter em conta, e que advém dessa tripla divisão, é que os deuses da população subsistiram durante mais tempo que os dos outros dois grupos. Na Idade Média, mais de 500 anos após a queda de Roma, ainda se conheciam exemplos de figuras não cristãs que eram veneradas por agricultores, mas esse é um tema que ficará para outra altura, dada a sua vastidão.

 

Porém, o mesmo autor, Varrão, e em relação aos deuses romanos, até faz uma divisão ainda mais surpreendente, quando os divide em certos, incertos, e eleitos. Tertuliano, autor cristão, goza essa divisão, e com alguma razão; se um deus é "incerto" (ou seja, se não sabemos se ele existe), porque deverá ele ser venerado? E se um deus pode ser "eleito", como sucedeu com César e com várias outras, isso implicaria alguém ter a possibilidade de o eleger, como num Senado divino, algo que, por razões extremamente óbvias,  seria impróprio aos mortais.

 

Onde nos levam estas divisões? Essencialmente, a uma ideia de que a religião na Antiguidade, e mais particularmente na Grécia e em Roma, não era tão simples como nos poderia parecer, visto que a dois mitos distintos nem sempre é dada uma mesma relevância. Um deles até poderia ser um mito que era objecto de culto (por exemplo, o de Apolo e a Píton, em Delfos), enquanto que outro era mais considerado como uma mera "fábula dos poetas" (por exemplo, quando Diomedes fere uma deusa), e algumas figuras eram meramente locais (como Visidiano de Nárnia), e, portanto, os vários mitos nem sempre têm o mesmo grau de importância.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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