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Em altura de Páscoa podemos recordar três histórias menos conhecidas da crucificação de Jesus Cristo, estas provindas de evangelhos e histórias gnósticas. Não é, evidentemente, nestas tradições que a Igreja acredita hoje em dia, mas nada é perdido em relembrá-las.

 

Numa delas, quando Simão de Cirene o ajuda a transportar a cruz durante parte da via sacra, Jesus troca de identidade com este. Ou seja, é este Simão, sob a forma humana de Cristo, que acaba por ser crucificado, enquanto que o verdadeiro Jesus se ri de toda a cena, supostamente pelas pessoas acreditarem que Deus poderia ser crucificado.

 

Numa outra, Jesus era um homem comum sobre quem o Espírito Santo desceu no baptismo. Foi só nesse momento que ele se tornou o Cristo, e depois, quando está a ser crucificado, grita "Meu poder, meu poder, porque me abandonaste?". Nessa corrupção do texto bíblico, ele estaria então a dizer que o poder divino de Cristo, que desceu sobre a si no baptismo, agora se tinha afastado - era mero homem, novamente.

 

Numa história já da Idade Média, Jesus é crucificado numa cruz que ele próprio fez (recorde-se que provavelmente foi, tal como José, carpinteiro), usando a madeira da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal - a mesma de onde Eva tinha colhido o famoso fruto. Ninguém parece ter pensado que isso implicava ir ao Paraíso e, por razões que desconhecemos, decidir voltar a sair desse local idílico.

 

Todas estas histórias, distintas das dos quatro evangelhos canónicos, tinham uma espécie de função. Nem sempre é muito fácil distinguir qual seria, mas nos dois primeiros casos poderão ter advindo da necessidade de argumentar que Deus (ou uma qualquer figura divina) não poderia morrer na cruz, enquanto que a terceira nos poderá levar à ideia de uma ligação mais directa entre o pecado original e a sua remissão pelos actos de Jesus.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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