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Despedida

09.02.14

É com algum pesar que hoje, quase 10 anos após ter começado, dou por terminado este espaço. Novo conteúdos, como a abordagem ao resto da obra de Plutarco, traduções de textos, e as minhas monografias pessoais, irão ser levados para um novo espaço, mais privado e de acesso limitado, que já está disponível aqui [link removido]. Importa, ainda assim e segundo creio, explicar o porquê da minha decisão.

 

Essencialmente, eu hoje apercebi-me que um grande objectivo deste blog estava falhado; eu sempre tentei levar os mitos gregos a tanta gente quanto possível, e mostrar-lhes não só os muitos mitos mas também a cultura, as muitas e interessantes obras da Antiguidade. Eu, que escrevo, sempre me achei secundário, sempre achei que seria apenas um mero interlocutor, um transmissor desse conhecimento a que vou tendo acesso. E, através da escrita neste espaço, tive a oportunidade de, mais concretamente nos últimos dois anos, explorar mais de três centenas de obras, que com prazer tentei, muitas vezes, transmitir. Este espaço era um versão mais directa, mais simples, dos meus registos pessoais, e nele me focava somente nos mitos e nas obras com temas com eles relacionados.

 

Porém, isto também gerou um enorme problema... mais do que o conhecimento que tentei transmitir, as pessoas com quem fui falando nesta área e/ou sobre este espaço mostraram sempre, e exclusivamente, mais interesse em mim, naquela minha figura de mais que mero interlocutor, do que no próprio conhecimento que eu tivesse para lhes transmitir. E, infelizmente, isso também contrasta demasiado comigo próprio; eu costumo, a quem me conhece bem, dizer que se um dia me aparecesse uma cópia do Hortênsio de Cícero, ou da obra de Varrão sobre as antiguidades humanas e divinas, ou até da Filosofia dos Oráculos de Porfírio, à porta de minha casa, eu seria o mais feliz de todos os seres humanos - leria as obras, passá-las-ia a quem sempre me auxiliou para que as estudasse de forma mais técnica, e jamais me interrogaria da sua proveniência. E, no entanto, essas pessoas insistiram em dizer-me, uma e outra vez, que essa proveniência importa... dizem-me, até, que essa proveniência é o que mais importa, TUDO o que importa, lembrando-me as abomináveis aves do lago Estínfalo nesses seus barulhos, mas sem que alguma vez tenham entendido que a minha tarefa era de lhes mostrar o que poderão saber, o que poderão explorar, por eles mesmos, e não a de me mostrar grandioso e dar-lhes, de mão beijada, o material a copiar letra por letra, como fazem aqueles que copiam frases de Quintiliano, Lactâncio ou Aristóteles, sem sequer alguma vez terem aberto as obras desses autores.

 

Mas, devo dizer, falhei. Quando, por exemplo, tentei participar em conferências de Clássicas em Portugal (lá fora, porém, sempre foi um pouco diferente), a minha participação foi-me sempre negada sem sequer avaliarem a qualidade do meu trabalho uma única vez. Quando tentei pedir ajuda em alguns temas, as pessoas nunca me responderam. Quando pedi para me irem mantendo informado de eventos nesta área, não o fizeram. Quando tentei requisitar, em famosas bibliotecas, alguns livros para continuar a minha pesquisa, estes nunca estavam disponíveis, apesar de informação em contrário, tendo eu de os pedir emprestados recorrendo a apoiantes de outros países. E, ao longo de todo esse tempo, fui-me apercebendo que as pessoas não queriam o conhecimento, mas a pessoa; não queriam a arte, mas o título; não queriam o Héracles do mito, mas o Alcides. Foram-lhes dadas pérolas, e essas pessoas (que começo por identificar no novo espaço, para que se saibam quem são) insistiram em chafurdar na lama, em busca de bolotas. E, graças a essa gente que pouco sabe mas muito fala, gente que de Sabedoria terá pouco, e outros que tais, eu entendi que já não faz mais sentido continuar, pelo menos não aqui, pelo menos não para essa audiência que sempre pareceu preferir conhecer o autor à mensagem, quando a segunda, como dizia Sócrates em Fédon, sempre me pareceu a mais importante, por transcender o próprio autor.

 

Poderia, e deveria, não mais escrever uma linha que fosse, mas ao mesmo tempo também não quero privar uma outra audiência, mais simples, de parte desse conhecimento, e daí esta alteração parcial, para mostrar parte do meu trabalho a todos, e outra parte somente a quem o merece, seja onde for.

 

Para terminar, queria acabar por agradecer a várias pessoas - P., H., A., S., J., e acima de tudo a R. - por todo o apoio que me deram ao longo dos anos. Obrigado, lembrem-se das palavras de Plínio o Velho, e voltaremos a ver-nos no novo espaço.

 

 

[Texto adicionado posteriormente:] Este espaço voltou. Porquê? As razões podem ser lidas aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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