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Para quem perceber o mínimo que seja de Direito saberá que um ponto crucial de qualquer tipo de crime é a presença, ou ausência, de premeditação, ou seja, se o acto foi realizado no calor do momento, ou se a pessoa já o teria planeado fazer, antecipadamente. Com base nesta distinção, as penas são até bastante diferentes porque se, por exemplo, uma pessoa matar outra quando está numa acesa discussão, isso é menos penalizado do que se o fizer a meio da noite, no silêncio e na escuridão, com uma faca.

Agora, penso que isto tem especial interesse e relevância no mito de Medeia, particularmente naquele que é considerado o seu maior crime, o de matar os próprios filhos. Nas versões mais conhecidas do mito é inegável que Medeia o faz, mas, ao mesmo tempo, não me parece que exista qualquer tipo de premeditação nas suas acções. É que se, por um lado, são várias as mortes causadas por Medeia, todas elas parecem ter algo em comum, que é o facto de estarem intimamente ligadas à forma como ela é pintada, com dons de feiticeira. Isto faz todo o sentido, do ponto de vista antropológico, já que se sabe que as mulheres, quando querem fazer mal a alguém, tendem a optar por métodos indirectos (fogo, venenos, e outras que tais).
Porém, enquanto que Medeia ataca os outros com esses métodos mágicos, todos eles obviamente premeditados, já no próprio assassinato dos seus filhos recorre a um método mais físico (creio que Eurípides até menciona uma faca), muito mais próprio, no caso de uma mulher, de um acesso de fúria, de algo que é apenas executado no calor do momento.

Claro que isto não absolve Medeia do seu famoso crime, mas pelo menos dá-nos alguma margem de manobra para a defender. Medeia, de que creio que já ter falado anteriormente, é alguém que deixa o seu mundo por amor, alguém que abdica de tudo para seguir Jasão, para o ajudar repetidamente, e após um dado momento da história este torna-se alguém que não só não dá valor a tudo o que ela fez por ele, mas até a despreza, como se ela nada fosse, como se ela nada tivesse significado. E, nesse contexto, como qualquer mulher que passe pelas mesmas coisas saberá afirmar, os actos de Medeia são actos de fúria, actos de vingança, actos de tentar tirar a Jasão tudo aquilo que pode, mas sem sequer pensar que estará, igualmente, a perder os frutos do seu ventre. Isso denota, creio eu, que os actos dela face aos próprios filhos não foram planeados, mas sim algo que ela simplesmente fez, num preciso momento, por ser a única forma que tinha de se vingar de Jasão, de lhe causar tanta dor quanto possível, uma intenção que é sempre bastante comum nessas situações...

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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