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Sim, mais um texto de Plutarco, normalmente incluído na Moralia. Este, também conhecido por algum título como Porque deixaram os oráculos de ser dados em verso, fala-nos... bem, de precisamente o que esse título dá a entender. O autor, que se sabe bem informado nestes temas, dá diversas razões para essa alteração. Não as irei mencionar todas (este local nunca deve ser visto como um substituto à leitura das próprias obras), mas duas delas pareceram-me suficientemente interessantes para serem mencionadas por cá:

 

- Os deuses só podiam aproveitar as coisas que eram naturais a cada criatura por eles criada. Isto, em termos latos, quer dizer que a previsão do futuro feita através de pássaros só poderia ser feita através do voo dos mesmos, e estes não poderiam fazer quaisquer previsões em voz humana, por não a terem. Da mesma forma, uma Pítia que não soubesse poesia jamais poderia proferir previsões em verso. Isto denota uma curiosa limitação dos deuses gregos, que certamente não eram omnipotentes, como se pode ver em muitos mitos;

 

- Os oráculos em verso, (talvez?) desde o início, estavam reservados a questões mais complicadas e importantes, cuja resolução poderia suscitar vinganças contra o Templo de Delfos. Disso é um perfeito exemplo a conhecida questão do rei Creso, mas já as questões simples - quando fazer colheitas, se dada pessoa se deveria casar, e assim por diante - teriam sido sempre respondidas em prosa, e de uma forma mais directa. Ao fazer-se um estudo dos vários oráculos que sobreviveram até hoje (e existem pelo menos dois bons livros sobre isso), poderá até constatar-se que isto é verdade.

 

Contudo, não posso deixar de mencionar uma ideia patente no final da obra. Aí, o próprio autor alude à ironia por detrás da questão que inspira este texto: se os oráculos eram dados em verso, tornavam-se demasiado obscuros, as pessoas tinham dificuldade em entendê-los, e queixavam-se da forma dos mesmos, MAS agora que os oráculos eram em prosa as pessoas estavam, então, a queixar-se dessa nova forma. É, como diz a sabedoria popular portuguesa, uma daquelas jocosas situações de "ser preso por ter cão, e ser preso por não o ter"...

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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