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A figura de Evémero chegou-nos, essencialmente, naquilo a que hoje até chamamos "evemerismo", a ideia de que os deuses do paganismo eram mortais que, devido aos seus actos em vida, tinham depois sido deificados. A teoria é bem conhecida, mas a obra em que originalmente aparecia, História Sagrada, não nos chegou nem na sua forma original, nem na tradução latina feita por Énio (o mesmo que escreveu os Anais).

 

Porém, o carácter geral da obra pode ser descoberto através de uma compilação dos elementos que três autores - Diodoro Sículo, Eusébio de Cesareia e Lactâncio, já aqui falados anteriormente - nos preservaram nas suas próprias obras. Recorrendo a elas, podemos saber que, nesta sua obra, Evémero dizia ter feito diversas viagens, eventualmente visitando a (fictícia?) ilha de Panceia, local de uma sociedade utópica onde, entre muitas coisas idílicas, existia um templo a Zeus. Era nesse templo que estava uma coluna com letras gravadas a ouro, onde eram contadas as histórias de um mortal Zeus, e dos seus antecessores (Urano e Crono), às quais tinham, mais tarde, sido adicionadas histórias de figuras como Afrodite, Apolo ou Cadmo. Devido ás suas descobertas, todas elas teriam sido, à medida que o tempo passava, passadas a ser vistas como deuses.

 

Se é esta última ideia que, para nós, até acabou por caracterizar a figura de Evémero, há que ter em conta que essa ênfase poderá nem ter existido na obra original. Sabemos, através das obras mencionadas acima, várias das ideias desse autor, e parece-me absurdo tentar negar que a ideia dos deuses enquanto mortais divinizados existia nessa sua obra, mas, ao mesmo tempo, não podemos afirmar que essa ideia era a principal do seu trabalho. Há que pensar que, quando este autor é mencionado, é quase sempre com base nessa importante teoria, mas nada nos diz que, no trabalho original, a ideia possa até ter tido a mesma importância que outros lhe deram. De facto, se esta teoria é atribuída a Evémero, isso não quer dizer que tenha sido ele o originador da mesma. Até pode ser anterior a ele, mas o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que foi ele o principal autor a popularizá-la; porém, o pouco que sabemos desta sua História Sagrada também nos deve levar a compreender que essa teoria poderá não ter sido tão importante para ele como, mais tarde, se provaria para os muitos autores que se lhe seguiram.

 

Seria esta uma obra de ficção, como a História Verdadeira de Luciano? Estaria o autor, quando se referiu às suas próprias viagens e à ilha de Panceia, a falar de algo por que efectivamente passou, ou a criar um contexto para apresentar uma sua teoria? Não sabemos, mas deve, aqui, é reter-se que esta obra de Evémero tinha, em si, mais do que a mera ideia de que os deuses do Olimpo eram mortais deificados.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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