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O concurso de Homero e de Hesíodo é um texto de autoria desconhecida que, na sequência de uma referência aos jogos funerais de Alcidamente em Cálcis feita n'Os Trabalhos e os Dias, imagina um concurso (se realmente teve lugar, ou não, é-nos impossível saber, já que os argumentos para ambas as hipóteses são muito fortes) entre os dois. O texto como que compara as vidas, as obras, e as mortes de ambos, e põe Hesíodo como desafiador face ao seu famoso opositor.

 

No geral, o desafio funciona com Hesíodo a pôr uma questão (ou, depois, a cantar o início de um verso), e com Homero a ter de responder a essa questão, ou completar o verso. Por exemplo, quando Hesíodo lhe pergunta qual é a melhor coisa para os mortais, este responde que é "não ter nascido, mas se já tiver nascido, passar as portas do Hades rapidamente"; quando lhe pergunta o que é a felicidade, Homero responde-lhe que é "a morte depois de uma vida de pouca dor e do maior prazer".

 

O texto é construído de uma forma em que Homero se sobrepõe a Hesíodo em todos os desafios, excepto no final, aquele que lhe dá a vitória. Nessa altura, quando os dois opositores são instados a dizerem as melhores linhas dos respectivos trabalhos - o primeiro cita Os Trabalhos e os Dias, enquanto que o segundo cita a Ilíada - o público parece considerar o segundo como superior, mas é o juíz do concurso que acaba por privilegiar a paz e a utilidade do texto de Hesíodo face aos muitos conflictos do texto homérico, e é assim que Hesíodo ganha um tripé, prémio que acaba por dedicar ás musas e que, vários séculos mais tarde, Pausânias até vê com os seus próprios olhos.

 

De um ponto de vista mais real, esta até é uma vitória que nos poderá parecer justificada. Por muito belos ou interessantes que textos como a Ilíada ou a Odisseia nos possam parecer, para homens do campo um texto como o de Hesíodo acaba por ser muito mais útil, ao fornecer-lhes conhecimento sobre as culturas e sobre todo um conjunto de tarefas que directamente lhes dizia respeito. E, portanto, se hoje até damos mais importância aos textos de Homero (os estudantes de Clássicas que o digam), deveríamos, igualmente, saber reconhecer que, num dado contexto e numa dada época, estes eram tão importantes como a mais famosa obra de Hesíodo.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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