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Esta obra tem a curiosa distinção de ter sido, durante muito tempo, o grande épico dos latinos, sendo, depois, suplantado pela Eneida, e levada a um quase esquecimento. Isto acaba até por ter o seu quê de ironia, já que várias expressões de Virgílio provêm do texto de Énio (como Macróbio nos informa), mas como a obra parece já não sobreviver de uma forma completa, temos de nos apoiar nos fragmentos para a julgar de forma mais directa. E, desta obra, existem ainda hoje mais de 500 fragmentos, provando-nos a sua enorme popularidade.

 

A sua trama cobria a história de Roma, desde a fuga de Eneias da caída Tróia até aos eventos que tiveram lugar durante o tempo de vida do próprio autor, justificando a sequência o título de Anais dado à obra. Originalmente, e como Cícero nos informa, a obra até acabava num ponto anterior, dada a idade que o autor então tinha, tendo depois sido expandida com mais alguns livros.

 

Mas, se esta é uma obra agora fragmentária, parece-me mais justo falar de uma sequência especialmente importante, do que de dezenas de linhas cuja posição seria agora difícil de localizar. Então, o primeiro verso da obra era, provavelmente "Musas, que com os vossos pés pisam o magno Olimpo". Depois, seguia-se uma sequência em que o autor explicava o porquê de ter escrito a obra: em sonhos, surgiu-lhe a figura de Homero no Hélicon, dizendo-lhe que já tinha passado por várias vidas, que numa delas tinha sido um pavão, e que, agora, habitava o corpo deste novo poeta.

 

A grande importância desta segunda ideia é a de permitir ver Énio como um herdeiro latino de Homero, até por ser o primeiro a usar o hexâmetro dáctilo em língua latina; seria demasiado fácil ver essa figura parcial em Virgílio, ao se insistir em equiparar a sua maior obra aos dois textos de Homero, mas este poema de Énio permitiria compreender que a ideia não era nova, e que Virgílio não era o único a focar-se numa imitação dos poemas homéricos, seja a nível da temática ou da forma poética.

 

Então, se a obra de Virgílio, a Eneida, é hoje vista como o grande épico latino, não nos podemos esquecer que existe um antes dessa obra, e um depois. O "depois" é sobejamente conhecido, mas o "antes", esse, era ocupado por este importante épico de Énio, hoje, infelizmente, tão esquecido.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e dois anónimos interessados nestes temas.


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