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Sir Orfeu é um texto medieval que nos faz chegar uma versão do mito de Orfeu e Eurídice um pouco diferente da habitual. O mito, na sua versão mais conhecida, já aqui foi falado,

 

Em linhas muito gerais (a trama da obra não se esgota nestes elementos essenciais, mas são os suficientes para frisar a relação da mesma com o famoso mito grego), posso dizer que nesta versão Orfeu é rei, e casa com uma bela Eurídice, fazendo dela sua rainha. Depois, ela é raptada por seres mágicos. Após uma longa e mística viagem, é com o poder da sua música que Orfeu recupera a amada, e trá-la de volta ao reino.

 

Um primeiro aspecto a aqui ter em conta é a identidade do(s) raptor(es) de Eurídice. Existe, na obra, uma alusão a esses raptores, e ao local de onde vêm, que pode tanto ser uma referência aos mitos celtas (como ocorre em muitas lais de Marie de France), como uma referência dissimulada aos antigos deuses. Esse é um elemento que, talvez propositadamente, não está claro. Um outro aspecto relevante é o facto de Orfeu aqui ficar com Eurídice, algo que não acontecia no original. Em último lugar, nesta versão do mito a música do herói tem tanto relevo como no original, já que é com ela que recupera a amada, mas que, num último instante da trama, Orfeu também acaba por recuperar o seu reino.

 

Este é, portanto, um texto que nos permite constatar a prevalência de alguns mitos gregos na cultura medieval, se bem que de uma forma que vai sendo adaptada. Os deuses, e muitas das figuras míticas, vão sendo substituídas por figuras sobrenaturais, "fadas" e seus semelhantes, à medida que existe uma dessacralização das suas funções originais. Também, Orfeu torna-se rei, um cavaleiro errante em busca da amada, e é filho de descendentes de Plutão e Juno (figuras de quem é dito que, nessa altura, eram consideradas divindades), mas ainda retém o poder da sua música, ainda hoje um dos seus mais famosos elementos. Os deuses do submundo, contudo, tornam-se meros rei e rainha, e nem um nome agora têm. Até o local onde grande parte da trama toma lugar é adaptado - é a Trácia, mas uma Trácia aqui considerada como um antigo nome de Winchester. Muitas outras adaptações são feitas à trama original, e dada a parca extensão da obra, fica o convite para a exploração desses elementos, aqui adaptados como em muitas outras obras da altura; seria a famosa história do Rei Artur mais uma delas, baseando-se num qualquer mito hoje perdido? Fica, como muitas vezes, também essa questão final...

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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