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"O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?" - quem nunca se fez essa pergunta? É, de um ponto de vista filosófico, uma das questões que até hoje mais parece ter assolado a humanidade, mas um dos tratados de Censorino, referindo-se às opiniões de alguns filósofos, dá uma possível solução - diz-nos então que as coisas que existem nunca tiveram um princípio e jamais terão um término. Não nos é explicado, directamente, como isso iria influenciar a questão, mas é provável que estivessem a referir que nunca existiu um ovo de onde tenha nascido a primeira galinha, ou uma galinha que tenha posto um primeiro de todos os ovos.

 

Portanto, permanece a questão - quem nasceu primeiro, afinal de contas? Fica, como sempre, o convite para que partilhem as vossas opiniões nos comentários!

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Muitas das histórias de fantasia dos nossos dias tomam partido das figuras das "fadas". E de facto, quando ouvimos essa palavras ficamos, automaticamente, com um conjunto muito específico de características em mente - criaturas pequenas, com asas, mágicas, que vivem nos bosques, etc. Mas de onde vem essa ideia?

 

Por estranho que nos pareça, as fadas não têm uma origem na literatura da Antiguidade. De facto, de todas as obras que nos chegaram, apenas as Núpcias de Mercúrio e Filologia parecem fazer uma breve referência a elas, quando identificam como "longaevi" (i.e. "com muita idade") os seres que viviam nas florestas, entre os quais se contavam os faunos, ninfas, e outras criaturas semelhantes. Mas o autor nunca diz que aí existiam, especificamente, seres que se chamassem "fadas", e recordando que Marciano Capela foi um autor do século V da nossa era - um dos últimos da grande Roma - o seu silêncio em relação ao tema é muito esclarecedor.

 

Nos séculos seguintes as figuras das fadas parecem nascer e crescer progressivamente, mas sem que se saiba especificamente o que aconteceu. As suas características específicas vão sendo apresentadas e assimiladas por diversos autores - o facto destas criaturas serem "longaevi", de terem uma estatura indefinida mas indisputavelmente mais pequena que a dos humanos, etc - mas sem que alguma vez possamos apontar um momento totalmente preciso para a primeira referência concreta a uma fada composta pelas mesmas características que lhes damos hoje.

 

Quererá isto dizer que as fadas simplesmente apareceram na literatura da Idade Média "porque sim", sem que saibamos realmente como isso aconteceu? Mais ou menos... existem algumas teorias interessantes sobre o tema. Apenas para dar um breve exemplo, C. S. Lewis, na sua obra The Discarded Image, refere quatro possibilidades:

 

- As fadas são uma espécie racional de um terceiro tipo, diferente dos anjos e dos homens;

- As fadas são "anjos caídos", mas pertencentes a um grupo diferente do comandado por Lúcifer;

- As fadas são uma classe muito particular de mortos;

- As fadas são demónios.

 

Cada uma destas teorias tem muito que se lhe diga, mas todas elas assentam na ideia de que as fadas não apareceram, pura e simplesmente, na nossa cultura como brotantes de um vazio. A sua ideia-base, bem como a forma como as suas características se foram desenvolvendo, assenta num conjunto de crenças que até podemos associar a outras figuras anteriores, desde os deuses gregos e romanos até a figuras místicas e eventos mais associadas ao Cristianismo.

 

Em termos de conclusão, não temos a certeza absoluta de como a ideia das "fadas" surgiu na mente popular. Sabemos, porém, é que essas figuras nasceram algures na Idade Média e foram tendo as suas características apuradas ao longo dos séculos, até chegarem aos nossos dias numa forma que nem sempre tem a ver com as suas características originais.

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Qualquer pessoa que conheça as histórias do Antigo Testamento estará bem familiarizado com a sequência de eventos que liga um faraó do Egipto a Moisés, e a forma como através da influência do profecta o povo judaico foi libertado da sua grande escravidão (depois deambulando no deserto por 40 anos, mas isso já é aqui secundário). Porém, poucos parecem interrogar-se sobre a identidade do monarca, quase como se o considerassem uma figura puramente mítica. Mas será que o é?

 

Não existem provas indisputáveis seja para o afirmar ou negar, mas sabe-se que o Egipto teve, famosamente, um monarca monoteísta, Akhenaten. Sobre ele existem diversas opiniões na literatura - alguns afirmam que ele teria sido o próprio Moisés; outros, que a figura cristã podia ter sido o seu irmão Tutmose (o texto afirma que as duas figuras foram criadas "como irmãos"), que desapareceu dos registos; e até existem aquele que afirmam que Moisés poderá ter sido um sacerdote desse mesmo culto monoteísta que, posteriormente, foi expulso do Egipto. Não temos forma de saber se estas teorias vão além disso, de meras hipóteses, mas não deixa de ser curioso que o Antigo Egipto tenha tido um único faraó monoteísta, cujo culto quase que nasceu e morreu com ele. É invulgar, demasiado invulgar para se poder acreditar que isso aconteceu apenas "porque sim". Por isso, se a história de Moisés tem um fundo de verdade, faz todo o sentido que ela seja ligada ao culto (solar, relembre-se!) originado por Akhenaten.

 

Que opiniões têm sobre o tema?

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Este vídeo, apesar de interessante para aqueles que percebam menos sobre os deuses romanos, também nos leva a um grande problema com as divindades desse povo. De uma forma geral, as pessoas pensam neles como meras transposições dos deuses gregos, aos quais foram feitas uma ou outra alteração, mas... a religião romana era muito mais que isso! Marco Varrão, por exemplo, dizia que os romanos tinham mais de mil deuses, "do nascimento até à cova", e somente para o primeiro acto da vida humana, o de nascer, colocava no mesmo quarto com a mãe um conjunto de divinidades, cada qual com a sua função muito particular.

Então, porque pouco se fala sobre estes outros deuses, remetendo as referências à religião romana para - como o vídeo nos mostra - um conjunto muito limitado de figuras análogas às gregas? Infelizmente, isso tem lugar porque muitas das divindades puramente romanas - por exemplo, o deus do primeiro vagido da criança, ou o deus dos primeiros passos desta - são, para nós, meros nomes. Não lhes conhecemos quaisquer mitos, tornando-os de pouco interesse mesmo para os poucos leitores que com eles ainda se cruzem.

Fica então o aviso - se os deuses romanos também tinham algumas características derivadas dos gregos, não são exclusivamente deuses gregos com novos novos. São-lhes também dadas novas características e novas funções, além de pertencerem a um panteão muito mais alargado, em relação ao qual hoje pouco sabemos de uma forma completa.

 

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Uma das mais interessantes discussões a que já assistimos passa pela criação literária dos deuses gregos. Como será que alguém, um dado dia, pensou que existia no Olimpo um Zeus, uma Atena nascida da cabeça deste, um deus disforme que trabalhava no fogo, ou uma figura que usava um tridente para causar terramotos? Esse é, infelizmente, um debate que raramente dá frutos palpáveis, mas em tempos de "Pokémon Go" podemos mostrar como se cria uma mitologia. Vejam este fantástico exemplo, fruto da imaginação de algum anónimo:

Criação do Pokémon

fonte

 

Se alguém estiver curioso, devemos acrescentar que algumas destas figuras já são capturáveis no "Pokémon Go", mas seria o escritor desta história um novo Homero? Dificilmente, mas por uma qualquer razão tentou sintetizar um conjunto de mitos numa história contínua, como a que se atribui, famosamente, a Hesíodo.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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