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"Canto do Cisne"

23.11.17

Dizem-nos as histórias que pouco antes de um cisne morrer ele canta da forma mais bela. No Críton, Sócrates até usa essa ideia como prova da existência de uma vida após a morte, dizendo-nos que o animal cantava assim porque sabia o que o esperava, tinha a certeza absoluta de que ia passar para uma existência muito melhor. São quase infindáveis os autores da Antiguidade, da Idade Média e até dos nossos dias que nos repetem esta mesma informação, mas... será ela verdade?

 

No mundo de agora, em que temos acesso a incontáveis fontes de informação ao simples clique de um botão, é muito fácil verificar essa história. Inesperadamente, não só o cisne não canta, como também não quebra (magicamente) esse jejum para cantar antes da morte. Por irónico que nos pareça, a certeza do sábio Sócrates estava errada, mas a expressão tornou-se tão famosa ao longo dos séculos que ainda hoje é usada para designar uma derradeira obra de arte antes da morte.

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Nos seus Adágios Erasmo apresenta uma expressão curiosa, ao revelar que de alguém com bastante conhecimento se podia dizer que até "Sabe como Júpiter desposou Juno". A própria ideia revela-nos de antemão que esta é uma história um pouco obscura, que somente um número muito restrito de pessoas conheceria. Se, nesse sentido, o casamento das duas figuras está intimamente ligado com os próprios mitos gregos e o casamento de Zeus e Hera, mesmo nessa cultura o mito em questão não é muito conhecido. Sabe-se que houve uma celebração, essa de grande fama, mas os eventos que levaram ao próprio desposo são pouco conhecidos.

Felizmente, Erasmo também conta essa história, atribuindo-a a um escólio na obra do poeta grego Teócrito. Seguindo as suas linhas basilares, podemos revelar que Zeus se transformou num cuco, lançou uma tempestade e se foi colocar perto do regaço de Hera. Naturalmente que a deusa recolheu o pequeno pássaro, tendo a intenção de o proteger do mau tempo. Porém, nesse momento o deus voltou à sua forma original e tentou ter relações sexuais com essa sua irmã. Inicialmente esta recusou-o, mas com a intervenção de outros deuses, a que se juntou depois um pedido de casamento do próprio Zeus, essa paixão física acabou por ser consumada.

 

Não podemos ter a certeza de que este mito nos preserva a versão original, mais antiga, do episódio que antecedia o casamento de Zeus com Hera, mas é uma história que, se for vista no contexto geral dos mitos gregos, faz todo o sentido. Permite-nos compreender que as múltiplas infidelidades do deus, em que este se transformava em diversas figuras não-humanas para seduzir as mulheres, tinha uma base no seu próprio casamento divino - seria, por essa razão, também possível que as mortais seduzidas pelo deus pensassem, conhecendo o caso particular de Hera, que a sedução do deus não fosse levar somente a uma relação casual. Por isso, esta parece-nos uma possibilidade credível para um potencial episódio, hoje perdido, que até possa ter antecedido o casamento de Zeus/Júpiter com Hera/Juno!

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Muitas são as formas deste provérbio que nos chegaram aos dias de hoje, desde a mencionada no título até expressões como "a sorte sorri aos audazes" ou "a sorte protege os audazes". Essa multiplicidade provém da própria tradução da expressão latina, "fortes fortuna adjuvat", que naturalmente pode ser traduzida das mais diversas formas, mas os pontos que aqui nos interessam são dois outros.

 

Primeiro, de onde vem essa expressão? Duas das fontes mais antigas que temos parecem ser Cícero e Virgílio, mas o primeiro deles dá-nos uma pista importante quando, ao citar a expressão, a atribui a Quinto Énio. Por isso, dadas as muitas referências aos Anais de Énio no poema épico de Virgílio, parece-nos provável que ambos os autores a tenham conhecido através da mesma fonte comum. Mas isso não implica que esse tenha sido o seu autor original, sendo possível que a expressão já viesse dos gregos. Uma pesquisa online revela que alguns a atribuem a Alexandro Magno, sem qualquer fonte, mas é muitíssimo provável que se trate mais de uma atribuição tardia, quase em termos de "wishful thinking", do que algo com uma base real.

E isto, como a própria referência a Alexandre, leva-nos ao uso e significado da expressão. Erasmo de Roterdão, quando a explica, dá-lhe uma metáfora particularmente curiosa, dizendo que não devemos ser como animais que se escondem no interior das suas carapaças. Isto porque as coisas boas, aquelas que a fortuna/sorte/destino nos possam vir a trazer, dependem frequentemente de nós próprios. Por isso, este adágio insta-nos a arriscar, a procurar aquilo que queremos, já que isso depende, primeiro e primordialmente, de nós próprios.

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O mito de Hilas (e Hércules) é indissociável da trama dos Argonautas. Conta-nos que quando estes heróis empreenderam a sua demanda, numa dada altura pararam numa ilha. Hilas afastou-se, acabando por ser raptado por umas ninfas de um curso de água próximo. Hércules, que o amava, recusou-se a partir sem o encontrar, abandonando a expedição principal para partir em busca do desaparecido. Enquanto caminhava, gritou repetidamente por Hilas, mas diz a história que nunca mais o encontrou, supondo-se que, eventualmente, tenha abandonado a busca.

 

Este mito é mencionado pelos mais diversos autores, sendo difícil saber qual a sua fonte mais antiga, mas é particularmente famoso do poema de Apolónio de Rodes. "Chamar Hilas" é portanto uma tarefa impossível, na qual qualquer espécie de progresso é impossível.

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Esta expressão, "uma mão lava a outra", poderá provir de Axíoco, um texto apócrifo atribuído a Platão no qual é dito que "uma mão esfrega a outra, dá e recebe". Porém, também está intimamente ligada a uma ideia dos provérbios gregos, que nos dizem que "A cidade preserva a cidade, o homem [preserva] o homem, a mão lava a mão, o dedo [lava] o dedo". Trata-se, portanto, de uma referência a uma espécie de troca de favores necessária à existência humana; não era tanto, como nos nossos dias, uma alusão à concessão ilegítima desses favores, mas sim uma admissão de que nenhum ser humano poderia viver sem os demais.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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