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Qualquer pessoa que conheça as histórias do Antigo Testamento estará bem familiarizado com a sequência de eventos que liga um faraó do Egipto a Moisés, e a forma como através da influência do profecta o povo judaico foi libertado da sua grande escravidão (depois deambulando no deserto por 40 anos, mas isso já é aqui secundário). Porém, poucos parecem interrogar-se sobre a identidade do monarca, quase como se o considerassem uma figura puramente mítica. Mas será que o é?

 

Não existem provas indisputáveis seja para o afirmar ou negar, mas sabe-se que o Egipto teve, famosamente, um monarca monoteísta, Akhenaten. Sobre ele existem diversas opiniões na literatura - alguns afirmam que ele teria sido o próprio Moisés; outros, que a figura cristã podia ter sido o seu irmão Tutmose (o texto afirma que as duas figuras foram criadas "como irmãos"), que desapareceu dos registos; e até existem aquele que afirmam que Moisés poderá ter sido um sacerdote desse mesmo culto monoteísta que, posteriormente, foi expulso do Egipto. Não temos forma de saber se estas teorias vão além disso, de meras hipóteses, mas não deixa de ser curioso que o Antigo Egipto tenha tido um único faraó monoteísta, cujo culto quase que nasceu e morreu com ele. É invulgar, demasiado invulgar para se poder acreditar que isso aconteceu apenas "porque sim". Por isso, se a história de Moisés tem um fundo de verdade, faz todo o sentido que ela seja ligada ao culto (solar, relembre-se!) originado por Akhenaten.

 

Que opiniões têm sobre o tema?

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No segundo livro da sua obra Contra as Heresias, Santo Ireneu diz que Jesus só morreu após ter passado os 50 anos. É uma sequência um pouco invulgar, mas essencialmente o autor argumenta contra a ideia de que Jesus foi baptizado aos 30 anos e só pregou durante um máximo de 12 meses. Depois, diz o seguinte, aqui adaptado para português:

 

Jesus passou por todas as idades, sendo um bebé para os bebés, assim os santificando; uma criança para as crianças, assim santificando os que são dessa idade (...), um jovem para os jovens, tornando-se um exemplo para eles (...); um velho para para os velhos, para que Ele pudesse ser um Mestre perfeito para todos, não apenas ao apresentar a verdade, mas também em relação à idade, santificando ao mesmo tempo os idosos e sendo também para eles um exemplo.

(...) Agora, o primeiro estádio da vida é de trinta anos, e prolonga-se até ao quadragésimo ano, como todos admitem; mas do quadragésimo e do quinquagésimo ano um homem começa a declinar até à velhice, que o nosso Senhor possuía quando ainda ensinava, como o Evangelho e os mais velhos testemunham; aqueles que falaram na Ásia com João, o discípulo do Senhor, afirmaram que ele lhes deu essa informação. E ele ficou entre eles até aos tempos de Trajano. Além disso, alguns deles viram não só João mas também outros apóstolos, e ouviram a mesma história deles, e testemunham em relação a esta informação.

 

O que fazer destas linhas? Estaria Santo Ireneu enganado neste ponto particular, mas correcto em relação a muitos outros? Fica, como muitas outras vezes, a questão.

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No passado já cá foram discutidas diversas seitas gnósticas. Algumas parecem mais interessantes que outras, mas também parece ter existido no seio do Gnosticismo algumas ideias muito estranhas. Epifânio de Salamina, por exemplo, conta-nos de uma seita que tinha vários escritos alusivos a Maria Madelena. Em si, isto nada teria de inapropriado, mas um dos seus livros continha uma ideia que nos poderá parecer chocante - as linhas seguintes devem ser lidas com alguma cautela:

 

Segundo Epifânio (e frise-se que não temos qualquer outra fonte que ateste a veracidade destas informações), nesse texto era dito que Jesus criou uma nova mulher da sua própria costela. Depois, fez sexo com ela, recolhendo parte do seu próprio sémen. Engolindo-o, disse então a Maria Madalena algo como "É isto que temos de fazer para viver". Maria desmaiou, e Jesus parece ter criticado a sua pouca fé.

 

Este não é, deixe-se muito bem claro, um relato que ocorra em qualquer fonte primária que nos tenha chegado, sendo provável que se tenha tratado de uma aberração de um grupo gnóstico obscuro. E esse é um dos grandes problemas de considerar o "Gnosticismo", em si, como uma corrente contínua - implicaria admitir que ideias como estas poderiam ser de tanto valor e aceitação como as ideias "ortodoxas", ou as de Marcião, quando, no entanto, são chocantes até para as audiências dos dias de hoje.

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Um dos elementos da religião cristã que ainda hoje tem muita discussão é a impossibilidade de os padres casarem. Podem ser dadas muitas justificações em favor e contra essa ideia, mas aqui interessam-nos especialmente as razões históricas para tal.

 

Essencialmente, a ideia parece dever-se ao facto de, tradicionalmente, se considerar que os apóstolos (com excepção de Pedro) não casaram nem tiveram filhos. Eles dedicavam-se somente a espalhar a mensagem de Cristo. De igual forma, também se dizia que o próprio Jesus nunca casou nem teve filhos (nenhuma fonte da Antiguidade argumenta o contrário). "[A necessidade de castidade] foi ensinada pelos apóstolos e a antiguidade [assim o] preservou", é dito no Sínodo de Cartago.

 

Além disso, um passo especialmente importante pode ter sido dado no Primeiro Concílio de Niceia, em que foi decretado que nenhum clérigo poderia ter uma mulher a viver em sua casa, excepto se se tratasse de alguém acima de qualquer tipo de suspeita (como uma mãe ou uma irmã). As razões para tal? "Com essas armas o diabo mata religiosos (...) e incita neles os fogos do desejo". Se, nessa altura, alguns religiosos (em função da sua baixa posição na hierarquia, i.e. se fossem subdiáconos, diáconos ou presbíteros) até podiam ser casados, tinham de o fazer antes de seguir a vida religiosa, já então se pondo a questão do que, posteriormente, deveria acontecer ás respectivas esposas. Pelo menos um tal Pafnúcio de Tebas parece ter argumentado que apenas deviam continuar o celibato aqueles que já o tinham antes de seguirem a via religiosa, e nesses primeiros tempos a sua opinião foi crucial...
 

Mas será esta uma proibição que faz sentido? De um ponto de vista teórico cremos que sim - se um clérigo se deve dedicar à Igreja e a toda a humanidade, seria um pouco difícil que o conseguisse fazer de uma forma justa e imparcial se também tivesse uma família de quem cuidar. Mas trata-se - deixe-se muito claro - de uma mera questão de opinião pessoal, bastante discutível e fixa em séculos de história e tradição religiosa.

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Independentemente da versão do Cristianismo que se conheça, uma das orações mais famosas é certamente a do Credo. É recitada na missa, como se de uma verdadeira ladainha se tratasse, mas muito poucos são aqueles que se interrogam sobre o seu conteúdo. Portanto, este artigo começa com um pequeno convite à reflexão - caro leitor, se conhece esta oração, pense nela. Pense, em particular, no que é dito nas suas linhas.

 

O que queremos dizer quando dizemos que "[Jesus foi] gerado do Pai antes de todos os séculos"? "Luz da luz"? "Gerado, não criado"? "Consubstancial"? Ou que a igreja é "una, santa, católica e apóstolica"? Explicar cada matiz não é simples (fazê-lo implicaria, muito provavelmente, levar a maior parte dos leitores a uma sonolência evitável), mas podemos explicar de onde vêm essas diversas ideias, no seu modo geral.

 

O essencial do Credo nasceu de um conjunto de tradições orais que, alegadamente, vinham ainda do tempo dos apóstolos, e que principiavam por "Creio em Deus, o Pai omnipotente, e em Cristo Jesus o seu único filho, nosso Senhor". Uma versão provavelmente posterior, conhecida como Credo dos Apóstolos, começava por "Creio em Deus, o Pai omnipotente, criador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo, o único filho de Deus, nosso Senhor". São semelhantes, mas não iguais. Estas eram as orações basilares da época, que se destinavam a dizer algo como "eu acredito em X".

 

O grande problema começou quando dizer "eu acredito em X" deixou de ser suficiente. Algumas pessoas começaram a interrogar-se, por exemplo, se Jesus teria sido criado antes ou depois do primeiro dia da criação bíblica - se Deus é eterno, será que este seu filho também o era? E o Espírito Santo, precede-o? São, hoje e para nós, questões bastante secundárias, mas existiu um período de tempo em que eram de uma suma importância, já que a fé cristã ainda se estava desenvolver.

 

Então, voltando às duas linhas citadas acima, tenha-se em conta que nunca é dito que só existe um deus - as pessoas acreditavam em Deus, mas segundo aquelas linhas nada implicava que não venerassem outras figuras divinas. Quando Valentino, no segundo século da nossa era, propôs que os deuses do Antigo e Novo Testamentos não eram o mesmo, nada existia explicitamente no Cristianismo que o impedisse de afirmar isso. Portanto, mais tarde foram adicionadas sequências como "[Creio] em um só deus" e "criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis", para formalizar que o verdadeiro cristão só podia acreditar em Deus (o que afasta ideias basilares do politeísmo, mas também a infinidade de divindades da religião de Valentino), e que essa figura divina tinha criado tudo o que existe - mesmo coisas que não conseguimos ver, como as figuras dos anjos.

 

Mais tarde surgiram ideias de que Jesus podia ter sido a primeira de todas as criaturas. Novamente, nada de muito explícito contra isso existia na doutrina da altura, e então foi adicionada a ideia de que ele teria sido "gerado, não criado", sendo por isso "consubstancial" a Deus, por oposição à matéria (fosse ela qual fosse...) que revestia a criação de todos os outros seres.

 

Em suma, podemos dizer que às orações originais, atribuídas aos apóstolos, foram sendo adicionadas novas cláusulas para proceder à defesa de uma ideia muito particular do Cristianismo. Quando, na liturgia cristã, se recorre ao Credo, é essencialmente para afirmar um conjunto de fórmulas que deveriam dizer "enquanto cristão, hoje e agora eu acredito em X", mas cada vez menos pessoas parecem pensar nessas afirmações que fazem, tornando-se as fórmulas originais em pouco menos do que palavras vazias.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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