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Jesus no Corão

07.02.18

Como é provável que muitos já saibam, o Corão (e a própria religião islâmica) surge como uma espécie de continuação do Cristianismo, como esta religião era, também ela, uma espécie de continuação do Judaísmo. Por isso, Jesus Cristo (como, acrescente-se, algumas das principais figuras do Antigo Testamento) também aparece no Corão, mas com algumas divergências face à sua visão cristã. De forma breve, aqui ficam as principais diferenças:

 

  • Jesus não é filho de uma entidade divina. É um profeta (como o foi anteriormente Moisés, e como voltará a sê-lo Maomé), e nasceu do ventre virgem de Maria, mas é repetidamente mencionado que Deus/Alá nunca teve nenhum filho;
  • Jesus não foi crucificado. Não é explicado concretamente o que lhe terá acontecido, mas é dito que ele apenas pareceu ter sido crucificado;
  • A ideia da Trindade é completamente negada (até porque, como já referimos acima, Jesus era um profeta mas não era filho de Deus/Alá);
  • Se a sequência do nascimento de Jesus até começa com o próprio nascimento de Maria, em relação a este primeiro é dito que nasceu numa manjedoura e ao pé de uma palmeira. Pouco depois, Jesus - ainda recém-nascido! - fala miraculosamente, revelando parte da sua missão futura;
  • Jesus, enquanto criança, criou alguns pássaros de barro e deu-lhes vida. Esse milagre não aparece no Novo Testamento, mas já ocorria, pelo menos, num dos evangelhos (apócrifos) da infância de Jesus;
  • Para alimentar uma multidão (talvez a mesma para quem multiplicou os pães e peixes nos quatro evangelhos?), Jesus fez com que uma mesa com comida descesse dos céus.

 

Se este Jesus tem certamente um fundamento bíblico, também parece ter sido influenciado por algumas ideias apócrifas e gnósticas. Não é, contudo, muito diferente da figura do Cristianismo, salvo a excepção de existir uma recorrente (mas necessária, no contexto islâmico) negação da sua divindade.

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Já foram várias as histórias mencionadas por cá, em particular no contexto do Gnosticismo, mas um pequeno artigo em inglês encontrado aqui mostra-nos mais algumas histórias dessa mesma religião. Provêm quase sempre de algumas obras gnósticas, mas é particularmente curiosa a existência de algumas histórias que, apesar de estarem na nossa versão da Bíblia, poucos conhecem. Veja-se, por exemplo, o facto de existirem duas criações distintas no Livro do Génesis, da figura divina ter nomes distintos, das referências à luta de Jacó contra Deus, ou até a existência de histórias (medievais) que nos dão os antecedentes familiares de Maria - quase tão miraculosos como o da própria concepção de Jesus.

Iremos voltar a essas histórias no futuro, fica o convite para que, como é costume, nos acompanhem.

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Esta não é uma história bíblica, até porque nada sabemos da vida de Judas Iscariotes antes da sua associação com Jesus Cristo. A fonte é um poema, creio que de finais do século XIV, chamado Tito e Vespasiano:

 

Conta esta história que antes de Judas nascer a sua mãe teve um sonho em que lhe foi revelado que o futuro filho seria a ruína de toda a humanidade. Acabou por abandoná-lo. Judas foi posteriormente adoptado por uma rainha da (imaginária) ilha de Sicária; quando um irmão lhe contou a verdade desta adopção, matou-o e fugiu para Jerusalém. Juntando-se à corte de Pilatos, foi-lhe pedido que obtivesse umas maçãs; para atingir esse objectivo matou um homem que era o seu verdadeiro pai; e, curiosamente, Pilatos casa-o também com a verdadeira mãe. É esta que lhe revela que abandonou o filho, ou seja, o próprio Judas... levando-o a arrepender-se das suas acções e juntando-se ao séquito de Jesus.

Segue-se uma informação curiosa: foi Judas que avaliou o unguento usado por Maria Madalena em 300 moedas; e quando não foi possível vendê-lo, traiu Jesus por 30 moedas. A história prossegue como bem sabemos.

 

Esta é uma quase-repetição do mito de Édipo, mas mesmo na sua versão original (que pode ser lida parcialmente aqui) tem uma trama que faz muito pouco sentido. Apresenta-nos uma justificação para o comportamento de Judas, uma quase tentativa de lhe dar o pior passado possível, mas nada mais que isso. É uma história estranha, aqui mencionada devido exclusivamente ao quão invulgar é.

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Qualquer pessoa que conheça as histórias do Antigo Testamento estará bem familiarizado com a sequência de eventos que liga um faraó do Egipto a Moisés, e a forma como através da influência do profecta o povo judaico foi libertado da sua grande escravidão (depois deambulando no deserto por 40 anos, mas isso já é aqui secundário). Porém, poucos parecem interrogar-se sobre a identidade do monarca, quase como se o considerassem uma figura puramente mítica. Mas será que o é?

 

Não existem provas indisputáveis seja para o afirmar ou negar, mas sabe-se que o Egipto teve, famosamente, um monarca monoteísta, Akhenaten. Sobre ele existem diversas opiniões na literatura - alguns afirmam que ele teria sido o próprio Moisés; outros, que a figura cristã podia ter sido o seu irmão Tutmose (o texto afirma que as duas figuras foram criadas "como irmãos"), que desapareceu dos registos; e até existem aquele que afirmam que Moisés poderá ter sido um sacerdote desse mesmo culto monoteísta que, posteriormente, foi expulso do Egipto. Não temos forma de saber se estas teorias vão além disso, de meras hipóteses, mas não deixa de ser curioso que o Antigo Egipto tenha tido um único faraó monoteísta, cujo culto quase que nasceu e morreu com ele. É invulgar, demasiado invulgar para se poder acreditar que isso aconteceu apenas "porque sim". Por isso, se a história de Moisés tem um fundo de verdade, faz todo o sentido que ela seja ligada ao culto (solar, relembre-se!) originado por Akhenaten.

 

Que opiniões têm sobre o tema?

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No segundo livro da sua obra Contra as Heresias, Santo Ireneu diz que Jesus só morreu após ter passado os 50 anos. É uma sequência um pouco invulgar, mas essencialmente o autor argumenta contra a ideia de que Jesus foi baptizado aos 30 anos e só pregou durante um máximo de 12 meses. Depois, diz o seguinte, aqui adaptado para português:

 

Jesus passou por todas as idades, sendo um bebé para os bebés, assim os santificando; uma criança para as crianças, assim santificando os que são dessa idade (...), um jovem para os jovens, tornando-se um exemplo para eles (...); um velho para para os velhos, para que Ele pudesse ser um Mestre perfeito para todos, não apenas ao apresentar a verdade, mas também em relação à idade, santificando ao mesmo tempo os idosos e sendo também para eles um exemplo.

(...) Agora, o primeiro estádio da vida é de trinta anos, e prolonga-se até ao quadragésimo ano, como todos admitem; mas do quadragésimo e do quinquagésimo ano um homem começa a declinar até à velhice, que o nosso Senhor possuía quando ainda ensinava, como o Evangelho e os mais velhos testemunham; aqueles que falaram na Ásia com João, o discípulo do Senhor, afirmaram que ele lhes deu essa informação. E ele ficou entre eles até aos tempos de Trajano. Além disso, alguns deles viram não só João mas também outros apóstolos, e ouviram a mesma história deles, e testemunham em relação a esta informação.

 

O que fazer destas linhas? Estaria Santo Ireneu enganado neste ponto particular, mas correcto em relação a muitos outros? Fica, como muitas outras vezes, a questão.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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