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Nos seus Adágios Erasmo apresenta uma expressão curiosa, ao revelar que de alguém com bastante conhecimento se podia dizer que até "Sabe como Júpiter desposou Juno". A própria ideia revela-nos de antemão que esta é uma história um pouco obscura, que somente um número muito restrito de pessoas conheceria. Se, nesse sentido, o casamento das duas figuras está intimamente ligado com os próprios mitos gregos e o casamento de Zeus e Hera, mesmo nessa cultura o mito em questão não é muito conhecido. Sabe-se que houve uma celebração, essa de grande fama, mas os eventos que levaram ao próprio desposo são pouco conhecidos.

Felizmente, Erasmo também conta essa história, atribuindo-a a um escólio na obra do poeta grego Teócrito. Seguindo as suas linhas basilares, podemos revelar que Zeus se transformou num cuco, lançou uma tempestade e se foi colocar perto do regaço de Hera. Naturalmente que a deusa recolheu o pequeno pássaro, tendo a intenção de o proteger do mau tempo. Porém, nesse momento o deus voltou à sua forma original e tentou ter relações sexuais com essa sua irmã. Inicialmente esta recusou-o, mas com a intervenção de outros deuses, a que se juntou depois um pedido de casamento do próprio Zeus, essa paixão física acabou por ser consumada.

 

Não podemos ter a certeza de que este mito nos preserva a versão original, mais antiga, do episódio que antecedia o casamento de Zeus com Hera, mas é uma história que, se for vista no contexto geral dos mitos gregos, faz todo o sentido. Permite-nos compreender que as múltiplas infidelidades do deus, em que este se transformava em diversas figuras não-humanas para seduzir as mulheres, tinha uma base no seu próprio casamento divino - seria, por essa razão, também possível que as mortais seduzidas pelo deus pensassem, conhecendo o caso particular de Hera, que a sedução do deus não fosse levar somente a uma relação casual. Por isso, esta parece-nos uma possibilidade credível para um potencial episódio, hoje perdido, que até possa ter antecedido o casamento de Zeus/Júpiter com Hera/Juno!

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O mito de Hilas (e Hércules) é indissociável da trama dos Argonautas. Conta-nos que quando estes heróis empreenderam a sua demanda, numa dada altura pararam numa ilha. Hilas afastou-se, acabando por ser raptado por umas ninfas de um curso de água próximo. Hércules, que o amava, recusou-se a partir sem o encontrar, abandonando a expedição principal para partir em busca do desaparecido. Enquanto caminhava, gritou repetidamente por Hilas, mas diz a história que nunca mais o encontrou, supondo-se que, eventualmente, tenha abandonado a busca.

 

Este mito é mencionado pelos mais diversos autores, sendo difícil saber qual a sua fonte mais antiga, mas é particularmente famoso do poema de Apolónio de Rodes. "Chamar Hilas" é portanto uma tarefa impossível, na qual qualquer espécie de progresso é impossível.

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Começa aqui um período de algumas semanas em que irão ser abordados, mais consistentemente, alguns provérbios da Antiguidade que, em grande parte, ainda são usados em Portugal nos nossos dias (se alguém souber do uso destes provérbios no Brasil, por favor deixe algum comentário a indicá-lo). Se a "Vingança de Neoptólemo" nem é um deles - de facto, pensamos que poucos ainda saberão a história desse herói - pareceu-nos que nada melhor do que um mito e um provérbio a ele associado para iniciar toda a sequência.

Na imagem acima pode ser vista uma das versões da morte de Príamo, segundo a qual este rei teria sido agredido até à morte com o corpo do próprio neto. Como se esta cena não fosse suficientemente horrenda (de facto, não ocorre tão cruelmente em nenhuma das fontes literárias que nos chegaram), Neoptólemo ignora todos os pedidos de clemência do rei e mata-o sobre o altar de um deus (frequentemente Zeus, mas varia). Tal abominação não poderia ficar sem uma qualquer espécie de punição divina. Por essa razão, quando mais tarde o mesmo herói foi a Delfos, acabou por ser morto da mesma forma que tinha morto Príamo, no altar do deus Apolo - a identidade do seu assassino já parece divergir, sendo um dos mais famosos provavelmente Orestes.

 

A "vingança de Neoptólemo" remete-nos então para uma ideia central do mito - que o culpado de um crime grave possa vir a sofrer na pele esse mesmo crime.

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No seu Livro das Maravilhas Flégon de Trales conta-nos o seguinte:

 

Um hipocentauro foi encontrado na cidade de Saune, na Arábia (...). Foi capturado vivo pelo rei, que o enviou para o Egipto juntamente com outras prendas para o imperador. A sua subsistência era carne. Mas não tolerou a mudança de ares e morreu, pelo que o prefeito do Egipto o embalsamou e enviou-o para Roma.

Primeiro foi exibido no palácio. A sua face era mais feroz que uma humana, os seus braços e dedos eram peludos e as suas costelas estavam ligadas às suas pernas da frente e ao seu estômago. Tinha os cascos firmes de um cavalo e uma crina fulva, mas como resultado do processo de embalsamação a sua crina bem como a sua pele estavam a tornar-se escuras. Em tamanho não parecia as representações usuais, mas também não era pequeno.

Dizia-se que também existiam outros hipocentauros nessa cidade de Saune.

Em relação ao que foi enviado para Roma, qualquer céptico o pode ver por si mesmo, já que foi embalsamado e está guardado na tesouraria do imperador.

 

Seria este o último dos centauros? Também Plínio o Velho, melhor familiarizado com a história natural, menciona este mesmo centauro presente na cidade de Roma durante o reinado de Cláudio. Estariam ambos os autores enganados? Tratar-se-ia de um embuste? Ou, pelo contrário, os centauros realmente existiram? As provas que temos tornam essa possibilidade muito improvável, mas não deixa de ser uma história potencialmente real para quem nela quiser acreditar.

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Poderia pensar-se, devido ao seu estatuto, que os deuses gregos eram, todos eles, omnipotentes, mas diversas menções nos mais distintos textos permitem-nos ver o contrário. Para dar pois pequenos exemplos, na Ilíada é dito que Zeus era mais forte (fisicamente) que todos os outros deuses juntos, enquanto que nas Metamorfoses Ovídio revela um estranho facto sobre o deus-rio Aqueloo - ele apenas se podia metamorfosear em três formas distintas (humana, cobra e touro), mas parece saber que outros deuses tinham capacidades de transformação muito maiores.

 

Se, então, lhes quisessemos aplicar uma ferramenta famosa do Cristianismo e perguntar "Poderão os deuses criar uma pedra tão grande que eles próprios não consigam levantar?", a resposta seria positiva. Os deuses gregos não eram omnipotentes nem omnipresentes, como os mais diversos mitos nos permitem notar.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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