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Poderia pensar-se, devido ao seu estatuto, que os deuses gregos eram, todos eles, omnipotentes, mas diversas menções nos mais distintos textos permitem-nos ver o contrário. Para dar pois pequenos exemplos, na Ilíada é dito que Zeus era mais forte (fisicamente) que todos os outros deuses juntos, enquanto que nas Metamorfoses Ovídio revela um estranho facto sobre o deus-rio Aqueloo - ele apenas se podia metamorfosear em três formas distintas (humana, cobra e touro), mas parece saber que outros deuses tinham capacidades de transformação muito maiores.

 

Se, então, lhes quisessemos aplicar uma ferramenta famosa do Cristianismo e perguntar "Poderão os deuses criar uma pedra tão grande que eles próprios não consigam levantar?", a resposta seria positiva. Os deuses gregos não eram omnipotentes nem omnipresentes, como os mais diversos mitos nos permitem notar.

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Este mito é econtado por Ovídio e Antonino Liberal, essencialmente mudando o nome das duas personagens principais. Segundo eles, um homem (de nome Ifis ou Arceofonte) apaixonou-se por uma mulher (Anaxarete ou Arsíone, mediante o autor), mas esta insistiu em rejeitá-lo repetidamente, muitas vezes de formas profundamente cruéis. Então, chegando ao seu maior desespero, o apaixonado enforcou-se na porta de entrada da sua amada. Ainda assim, esta mulher nunca se compadeceu, nunca verteu uma única lágrima pelo seu antigo apaixonado. Então, quando o cortejo fúnebre do falecido passava em frente de sua casa, a influência divina de Afrodite levou à transformação desta mulher numa estátua de pedra, dando a todo o seu corpo o mesmo material frio que antes habitava no seu coração.

 

Esta é, portanto, uma história que nos adverte do perigoso poder de Afrodite. Nada nos obriga a que amemos outro ser humano, mas nunca temos quaisquer razões para uma maior crueldade no amor.

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O mito de Ifis

01.09.17

São poucos os mitos gregos que abordam o tema de uma possível transexualidade, e o de Ifis é provavelmente o menos conhecido.

 

Conta-nos Ovídio que Ligdo não queria ter um filho, pelo que quando a sua esposa engravidou este lhe ordenou que caso desse à luz uma menina deveria matá-la. Como qualquer mulher Teletusa ficou em pleno desespero, mas alguns deuses egípcios surgiram-lhe num sonho e pediram-lhe que criasse a criança, já que eles fariam com que tudo corresse bem.É evidente que esta futura mãe seguiu as indicações divinas.

Vários anos mais tarde, quando a jovem Ifis [atente-se no nome masculino] se preparava para casar, também o seu estado de desespero a levou a dirigir-se aos deuses, num lamento curiosíssimo reproduzido pelo poeta latino. Foi Isis que a transformou num homem, permitindo o casamento, mas o mito pouco mais nos diz sobre a vida desta figura.

 

A presença de diversas divindades egípcias tornam este um mito curioso. É provável que o poeta só o conhecesse em segunda mão, até pelo facto de muitas perguntas ficarem por responder, dando uma sensação de se tratar de uma rescrita. Nenhum outro autor menciona este mito, nem sabemos se Ifis estava totalmente de acordo com esta metamorfose (amaria ela a sua futura esposa? Não é totalmente claro), mas existem várias outros mitos em que mulheres eram transformadas em homens, de que o caso de Ceneia/Ceneu é o mais famoso.

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Um dos elementos mais invulgares do mito que une Perseu a Medusa é o facto de nos ser dito, repetidamente, que apesar de esta figura feminina ter outras duas irmãs, apenas ela era mortal. A que se deverá essa distinção? Podíamos pensar que, como numa versão de Ovídio, esta figura foi originalmente uma mulher que em virtude do orgulho excessivo nos seus cabelos acabou transformada no monstro, mas isso não explicaria a existência de irmãs.

 

Esta é uma questão tudo menos fácil. As duas outras górgones, Esteno e Euríale, não são mencionadas em qualquer outro mito, e a sua relação com Perseu prende-se somente com o facto de terem perseguido o herói quando este atacou Medusa. Nunca mais são referidas, se tivermos em conta que já eram conhecidas nos tempos da poesia de Hesíodo, é possível que tivessem tido outros papéis em mitos/religiões mais antigos. Qual era esse papel já não fazemos qualquer ideia, e nenhuma prova nos chegou da Antiguidade que nos permita discortinar esta questão.

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O mito de Io

18.08.17

Originalmente uma sacerdotisa de Hera, Io acabou por se tornar uma das mais famosas amantes de Zeus. Se, inicialmente e como tantas outras mulheres, parece ter rejeitado os avanços amorosos do deus, acabou por sucumbir ao amor deste. Todas as versões do mito apresentam estes elementos basilares, mas depois a trama do mito complica-se um pouco.

 

Por uma qualquer razão (seja pela intenção de Zeus em ocultar Io, ou de Hera em puni-la), esta figura foi transformada numa vaca, sendo posta sob a guarda de Argos. Posteriormente, o rei dos deuses do Olimpo enviou Hermes para libertar Io - a versão mais famosa do episódio, constante na obra de Ovídio, diz-nos que este deus adormeceu Argos contando-lhe histórias, cortando-lhe o pescoço após ter adormecido os seus muitos olhos. Após este episódio Hera enviou um moscardo que, noite e dia, incomodava a bovina Io; tentando escapar dele, a heroína passou da Grécia para o Egipto (nessa passagem dando o nome ao Bósforo) e acabou por voltar à forma humana, tendo filhos de Zeus e casando com um rei do Egipto.

 

Este mito é um bom exemplo das atribuladas vidas que tiveram as mortais que se envolveram amorosamente com os deuses gregos.Casos como os de Alcmena e Europa são disso um igualmente bom exemplo. Dados os justificáveis cíumes de Hera e a diferença de estatutos entre os amantes, estas eram relações que nunca poderiam correr bem.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.



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