Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Em diversos países europeus os nomes dos dias da semana remetem directamente para divindades pagãs locais. Isso não acontece em Portugal ("segunda-feira", ..., "sexta-feira", "sábado","domingo"), pelo que achámos que poderíamos explicar sucintamente o porquê.

 

No século VI da nossa era S. Martinho de Dume (também conhecido por Martinho de Braga) escreveu uma epístola Da Correcção dos Rústicos, em que instava os leitores a abandonarem os erros da cultura pagã. Segundo ele, se eram muitas as pessoas que já se tinham convertido ao Cristianismo, estas também continuavam ainda a aderir a diversos costumes pagãos, como celebrar os dias da semana associados aos vários deuses ou depositar pequenas pedras em altares a Mercúrio. O título da epístola vem, naturalmente, da necessidade cada vez maior em "corrigir" esses antigos costumes, que o autor insere num contexto religioso e descreve de forma breve.

 

Não sabemos que efeito real terão tido as palavras de S. Martinho, mas há que frisar que ele não propõe qualquer solução real para o problema, apenas dizendo que os dias deveriam ser dedicados a Deus. No entanto, certamente que poderá ter influenciado a busca por essa solução, já que menos de 100 anos após a escrita das suas linhas surge-nos a primeira referência a uma "segunda-feira", que ainda hoje pode ser vista na Igreja de S. Vicente, em Braga - a mesma cidade associada ao santo. Estaria essa nova designação já em uso no seu tempo? Até é possível que sim, mas não temos provas directas que o atestem com uma total certeza.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todos aqueles que já tenham visto o filme "Quo Vadis" de 1951 terão visto uma cena em que Nero canta uma breve música:

 

 

Se esta música nada parece ter de notável, a sua melodia provém do Epitáfio de Sícilo, uma das mais antigas músicas que nos chegou preservada de forma completa. Pode ser ouvida abaixo:

 

 

É claro que a letra original nada tem a ver com a cantada por Nero na primeira sequência, mas não deixa de ser curioso que tenham reaproveitado a melodia para o filme, mostrando que quem o produziu sabia bem o que estava a fazer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em quatro livros e como o seu próprio título indica, esta obra de Opiano aborda o tema da caça. O primeiro é uma introdução à caça, os dois seguintes são sobre os animais, enquanto que o quarto explica como caçar algumas dessas espécies. Não o faz para todas - por exemplo, o autor nunca explica como capturar uma girafa ou uma avestruz - mas somente para as mais previsíveis, que ele próprio já parecia ter visto com os próprios olhos, como o leão ou a raposa. Mas, de um ponto de vista mitológico, esta mesma obra tem dois elementos interessantes:

 

- Conta algumas histórias que não conhecemos de outras fontes. Uma delas, por exemplo, é a de um príncipe que perdeu todos os seus cavalos, com excepção de uma égua e seu descendente. Com vista a recuperar a sua manada, decidiu mascarar ambos os animais, untá-los com outro cheiro e tentar que se unissem no acto sexual. Conseguiu fazê-lo, mas mal os animais se aperceberam do que tinham feito, dirigiram-se para uma pedra e bateram com a caça repetidamente, até morrerem. O autor equipara-a à história de Édipo.

 

- Tratando-se de uma obra sobre animais, é curiosa que aqui exista uma inversão de algumas convenções dos poemas épicos. Quando, por exemplo, dois touros se preparam para o combate e arrastam um pouco de chão com as patas dianteiras, o autor equipara-os a dois lutadores que se preparam com areia.

 

Apesar destas características é uma obra um tanto ou quanto singular, que apenas apelará a uma audiência muito específica.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estácio, nesta sua obra de poesia épica, recorda o mito dos sete contra Tebas, em que os dois filhos de Édipo disputam o trono do próprio pai. Se o autor cumpre o seu papel, também não é uma obra muito interessante, em que as sequências de batalha são muito simples e pouco nos recordam do encanto das obras de Homero. É, ainda assim, uma obra de alguma importância, por ser a única que nos reconta, de uma forma completa, a história desta guerra em particular, o que a levaria a ter alguma impacto na produção da Idade Média sobre o mesmo tema, sendo até o Roman de Thèbes nela baseado de uma forma indirecta.

 

Em termos da trama, este poema começa com a maldição lançada por Édipo a ambos os filhos, terminando com a morte dos dois irmãos e os eventos que se lhe seguem, bem mais famosos da Antígona de Sófocles. Pelo caminho retrata a forma como os sete heróis tentam conquistar Tebas e reaver o trono legítimo de um dos filhos de Édipo. Esse não é, contudo, um mito simples, que possamos recordar num punhado de linhas, pelo que voltaremos a ele, de forma mais concreta e detalhada, no futuro, só então recordando alguns dos seus episódios principais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esta Carta a Aristeias, também conhecida por Carta a Filócrates, foi escrita por volta do século II a.C. , e vários são os aspectos que a tornam importante. É, por exemplo, nela que é feita a mais antiga das referências à Biblioteca de Alexandria, em relação à qual nos é dito que um tal Demétrio de Faleros foi incumbido da compilação de documentos para o espaço. Entre muitas outras obras ele necessitava dos textos sagrados judaicos, e é essa imprescindibilidade que tem o papel principal nesta epístola.

São aqui feitas algumas descrições de alguma importância, e é depois descrito o processo como 72 tradutores (seis elementos de cada uma das 12 tribos judaicas) são incumbidos de fazer a primeira tradução dos textos hebraicos para o grego, originando a edição a que, em memória dos seus tradutores, ainda hoje chamamos Septuaginta.

 

Se estas informação basilares são relativamente conhecidas, a segunda parte do mesmo texto nem tanto o é. O rei do Egipto, tendo então todos esses 72 sábios judaicos na sua corte, decide fazer-lhes algumas perguntas, às quais todos eles respondem demonstrando a sua sabedoria de Deus e do mundo. A um deles é perguntado o que é melhor na vida, ao que ele responde:

Saber que Deus é o Senhor do Universo, e que no melhor que fazemos não somos nós que atingimos o sucesso mas Deus, que pelo seu poder realiza todas as coisas e nos leva ao nosso objectivo.

 

A outro é perguntado qual a verdadeira marca da piedade:

Perceber que Deus trabalha constantemente no Universo e conhece todas as coisas, e que nenhum homem que aja injustamente e com maldade pode escapar à Sua atenção. Como Deus é o benfeitor de todo o mundo, também tu deves imitá-Lo e não cometer ofensas.

 

A um terceiro é perguntado em que circunstâncias devemos sentir mágoa:

Nos infortúnios que se abatem sobre os nossos amigos, quando vemos que são prolongados e irremediáveis. A razão não nos permite sentir mágoa por aqueles que estão mortos e livres do mal, mas todos os homens sentem mágoa em relação a eles porque pensam apenas em si próprios e no seu próprio proveito. É apenas pelo poder de Deus que podemos escapar a todo o mal.

 

Muitas outras questões desta natureza são postas neste texto, algumas mais interessantes que outras, mas certamente que nos levam a pensar na ideia de que, mesmo passados todos estes séculos, as preocupações da humanidade ainda se parecem manter muito semelhantes, com estas respostas judaicas a serem muito semelhantes às dos teólogos cristãos modernos. É, mais do que a breve história da criação da Septuaginta, talvez essa a grande lição a retirar deste texto.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
Licença Creative Commons



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog