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Esta é uma história tão interessante que me pareceria absurdo não a deixar por cá. Um qualquer jogo, ao ser criado, é-o com um conjunto de regras, que estipulam o que pode, ou não, ser feito no decurso mesmo. São regras, é esse o objectivo, e creio que poucos se interrogarão sobre o porquê de cada uma delas, da mesma forma que poucos se interrogarão sobre o porquê de cada uma das regras de trânsito dos automóveis.

 

Porém, nesse sentido, o Libro de los juegos, escrito na Idade Média através da voz de Afonso X, diz-nos algo que poucas vezes pensaríamos. Entre os muitos jogos explicados pelo autor contam-se um curioso jogo astronómico, um xadrez que só se jogava na Índia e em que as principais peças eram animais (um deles o sempre-presente unicórnio), e aquele a que ainda hoje damos o nome de xadrez. Agora, se nessa altura as peças em jogo ainda não eram totalmente coincidentes com as modernas, aquilo que me parece mais importante frisar é mesmo o facto de o autor dar explicações para o movimento de cada uma das peças, bem como de várias características do jogo.

 

Em relação ao cavalo, por exemplo, o autor justifica o seu movimento equiparando-o ao de um cavalo no campo de batalha, que vai correndo em frente, mas pontualmente se desvia para a esquerda e para a direita. Do elefante, a peça que ocupava a posição do moderno bispo, é dito que o seu movimento era como o dessa criatura nos campos de batalha, atacando pelos flancos. O rei, esse, tem o seu ténue movimento justificado pela prudência de um monarca em batalha, que deveria pensar bem cada um dos seus movimentos antes de os realizar.

A peça que ocupava o lugar da rainha, que me parece correcto identificar como sendo um porta-estandarte, tinha a capacidade de longos movimentos para assim melhor anunciar a presença do seu rei. E, quando os peões, aqui identificados com simples combatentes, atingiam o lado oposto do tabuleiro, tinham a possibilidade de se transformar num novo porta-estandarte, como até poderia acontecer, na vida real, a todos aqueles combatentes anónimos que se distinguissem nas artes da guerra.

 

Parece-me fantástica, esta analogia estabelecida por Afonso X entre o campo de batalha e o campo do jogo, fazendo do xadrez um jogo tanto intelectual como uma virtual experiência das artes da guerra. Esta é, infelizmente, uma analogia que se parece ter perdido na versão moderna do jogo (pense-se nisso, o que faria uma singela rainha no campo de batalha?), mas que muito poderia ser ainda mencionada em conjunção com a base teórica do mesmo, até porque torna muito mais simples a aprendizagem das funções de cada uma das peças.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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