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Este soneto merece uma explicação um pouco maior, já que se refere, inicialmente, a um mito pouco conhecido. Antes de chegarem a Tróia os Gregos atacaram várias cidades. Uma delas foi aquela sobre a qual Télefo reinava; este rei defrontou em combate Aquiles, que o feriu com a sua famosa lança. Contudo, com o passar do tempo essa ferida não curava... em busca de uma resposta, o monarca foi a Delfos e o famoso oráculo revelou-lhe que esta só podia ser curada com a mesma lança com a causou. Seguindo essa indicação o herói é posteriormente curado, de uma forma que não é muito clara nas versões que nos chegaram; também o sujeito poético aqui esperava ser curado pela visão de sua amada, como o poema nos diz:

 

Ferido sem ter cura perecia
O forte e duro Télefo temido
Por aquele que na água foi metido,
E a quem ferro nenhum cortar podia.

Quando ao apolóneo oráculo pedia
Conselho para ser restituido,
Respondeu-lhe, [que] tornasse a ser ferido
Por quem o já ferira, e sararia.

Assim, Senhora, quer minha ventura;
Que ferido de ver-vos claramente,
Com tornar-vos a ver o Amor me cura.

Mas é tão doce vossa formosura,
Que fico como o hidrópico doente,
Que bebendo lhe cresce maior secura.

 

(Soneto LXIX)

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Constelações no céu

A obra Fenómenos de Arato conta-se provavelmente como uma das mais famosas que nos chegaram sobre os céus nocturnos - a sua popularidade pode até ser facilmente vista se tomarmos em conta que autores como Cícero ou Ovídio a traduziram para Latim! Porém, apesar de referir muitas figuras mitológicas que deram os nomes às diversas constelações, só muito raramente conta as respectivas histórias, limitando-se a aludir-lhes de uma forma que muito pouco nos informa. Ademais, o autor dá algumas informações incorrectas e trata de forma demasiado breve alguns pontos que nos poderão parecer importantes. Por isso, mais do que um livro com algum interesse real para o estudo dos mitos dos gregos e dos latinos, esta é uma obra cuja importância real se parece ter perdido ao longo dos séculos.

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A pergunta pode até parecer estranha, não é? Qualquer pessoa sabe, nos nossos dias de hoje, responder a ela, dizendo que as cegonhas (entre outros pássaros) emigram para sul nos meses frios. Mas isso também nos leva a uma questão mais complexa - como foi isso descoberto? Existiam várias teorias desde os tempos da Antiguidade, até nos textos de Aristóteles, mas... eram teorias, somente isso. Depois, perto do final do primeiro quarto do século XIX, algo de muito pouco vulgar foi encontrado na Alemanha.

Cegonha com lança

Perto da cidade de Klutz foi encontrada esta cegonha, que tinha uma lança parcialmente enfiada no seu pescoço. Dada a origem africana do instrumento guerreiro, foi então - finalmente! - possível perceber que estes animais emigravam para sul, para terras de África, assim evitando os nossos tempos frios europeus. Quanto à singular cegonha que levou a esta descoberta, ainda hoje está alojada na Universidade de Rostock, na Alemanha.

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Pelos raros extremos que mostrou
Em sábia Palas, Vénus em formosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Ásia as adorou.

Aquele saber grande que juntou
Espírito e corpo em liga generosa,
Esta mundana máquina lustrosa
De só quatro elementos fabricou.

Mas fez maior milagre a natureza
Em vós, senhoras, pondo em cada uma
O que por todas quatro repartiu.

A vós seu resplendor deu Sol e Lua:
A vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu.

 

(Soneto XLIV)

Um poema dá para pensar um pouco mais que os anteriores.

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Capa da obra

Também conhecida como Casamento de Filologia e Mercúrio, esta é uma daquelas obras que dá o proverbial "pano para mangas". É particularmente famosa por ter popularizado a ideia das sete artes liberais na Idade Média, ideia esta que já vinha de Marco Varrão, mas poucos parecem ser aqueles que nos nossos dias realmente a lêem. Contudo, essa ausência de leitura é aqui bem justificada... passamos a explicar!

 

Esta obra pode ser dividida em duas partes. A primeira delas, comportando os dois primeiros livros, apresenta o tema como se de um novo mito se tratasse; inspirado pelos casamentos de outros tantos deuses do Olimpo, Mercúrio decide também ele casar, pelo que parte em busca de uma companheira disponível para tal. Falha por três vezes, mas acaba por encontrá-la com a ajuda de Apolo, sendo essa busca, o subsequente casamento e a imortalização de Filologia então descritas, terminando com o momento em que Mercúrio oferece sete servas à sua esposa, i.e. as sete artes liberais. São essas mesmas sete artes as descritas de forma alongada nos restantes livros.

 

Como este breve resumo nos permite antever, existem incontáveis alegorias envolvidas nos nove livros da obra. Se isso não for suficientemente desencorajador para o leitor comum, cada um dos livros encontra-se igualmente repleto de sequências de enorme complexidade; na edição a que tivemos acesso cada um dos livros tem pelo menos uma centena de anotações, sem o auxílio das quais seriam de compreensão quase impossível. Para dar um breve exemplo, numa dada altura é dito que a soma de um dos nomes de Mercúrio tinha um dado valor simbólico; só Hugo Grócio, quase um milénio depois, soube dizer que se tratava de "Thoth" quando escrito em língua grega.

 

Se, por um lado, esta não deixa de ser uma obra importante no desenvolvimento do cânone das sete artes liberais, por outro é igualmente uma que só deve ser lida por aqueles que, por razões que temos dificuldade em compreender, queiram ter contacto com algo realmente desafiante. Não é uma leitura aprazível, mas uma que, frequentemente, fará o leitor sentir-se muito pouco culto, por mais que domine os temas da Antiguidade. Por isso, deve ser completamente evitada pelos leitores comuns, fica o nosso aviso!

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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