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Num episódio recente dos Simpsons, a trama introduziu um (ficcional) Santo Inácio Castellaneta. Supostamente vivendo em 250 d.C., recusou-se a abandonar a fé cristã e, como tal, os romanos cortaram-lhe a cabeça, os braços, as pernas e os dedos. Depois, atiraram-lhe flechas feitas de cobras congeladas e retiraram-lhe os olhos, cobrindo-lhe as respectivas cavidades com pistachios cobertos de chocolate - mas o santo continuou a recusar-se a abandonar a fé cristã. Então, finalmente, pareceram cozer os seus ossos em vinho de cereja. Depois, esse martírio levou a uma dada tradição na cidade de Springfield.

Um falso santo

A breve sequência pode ser vista carregando na imagem acima, mas o que ela tem de particularmente especial é o facto de representar um falso martírio com contornos que até poderiam ser verdadeiros. Tem lugar no século III d.C., apresenta uma figura cristã disposta a defender a sua fé pessoal contra todas as torturas, e mesmo após a sua morte a memória dos eventos pelos quais passou ainda perdura. Na verdade, se tivessemos lido este relato num livro, dificilmente duvidaríamos da sua veracidade. O que levanta uma questão - será que coisas como estas realmente aconteceram aos mártires cristãos?

 

Entre os muitos mártires dos primeiros séculos da nossa era contam-se algumas histórias absolutamente incríveis. Desde santas cujos seios foram cortados e cozinhados, até figuras religiosas cuja cabeça decepada quase nos faz sorrir face à constelação de tantas outras torturas por que passaram, não podemos deixar de pensar se não existiria um carácter muito sádico nos Romanos. Só isso permitira justificar as tamanhas torturas a que, supostamente, sujeitaram os Cristãos. Mas, repita-se, será que esses relatos são mesmo verdade? A história é frequentemente escrita pelos vencedores, e... por isso, não sabemos, nem temos forma de saber, até que ponto os Romanos infligiam mesmo nos Cristãos aquelas torturas de que muito ouvimos falar, até porque nada nos códigos legais de então previa tais abusos para com os criminosos. É, então, uma questão que tem mesmo de permanecer em aberto...

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Casa-Museu Ema Klabin

Esta é para os leitores que estiverem no Brasil, mais particularmente na zona de São Paulo. A Casa-Museu Ema Klabin está a promover um conjunto de visitas subordinadas ao tema "Mitologias na Coleção". Segundo informação do espaço:

A Casa-Museu Ema Klabin apresenta uma série de visitas com o tema “Mitologias na Coleção” , com a educadora Tatiane Golinelli. Os encontros gratuitos acontecem aos sábados nos meses de outubro e novembro.

As visitas apresentam histórias das mitologias grega, asiática, africana e que, ainda hoje, podem nos contar aspectos simbólicos sobre quem somos nós.

De acordo com a coordenadora do setor educativo da Casa-Museu Ema Klabin, Cristiane Alves, as visitas são um convite para descobrir as peças da Coleção e as narrativas que elas carregam em seus ornamentos e detalhes.

“Em cada peça podemos desvendar narrativas que contam histórias de diversas culturas, países e sociedades”, explica.

A iniciativa faz parte do programa de visitas “De Olho na Coleção”, que propõe recortes temáticos sobre o acervo da Casa-Museu Ema Klabin.

Relógio de Parede Estilo Régence; França; séc. VXIII

Na colecção deste museu podem ser encontradas algumas peças dignas de nota, como o relógio mostrado acima. Fica, como tal, o convite a que se visite este museu, seja para estas visitas ou para a colecção de mais de 1500 obras. Mais informação sobre estas visitas pode ser obtida carregando na primeira imagem acima, e um vídeo sobre esta Casa-Museu também pode ser visto aqui.

 

(Um agradecimento a Cristina Aguilera pela informação e imagens disponibilizadas acima. As fotografias são da autoria de Henrique Luz)

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Quais foram as sete maravilhas do mundo antigo? É famoso o epigrama de Antípatro de Sídon, que provavelmente foi escrito no século II a.C. e refere sete maravilhas do mundo, tendo em grande conta a última delas, o Templo de Artemisa em Éfeso (ver a triste imagem abaixo), mas essa não era a única listagem de famosos monumentos da Antiguidade. Por isso, hoje trazemos uma outra, a de um Fílon de Bizâncio, mais conhecido como "o Paradoxógrafo", que provavelmente terá vivido nos primeiros séculos da nossa era.

Ruínas do Templo de Artémis em Éfeso

O que esta obra de Fílon de Bizâncio (ou Filão, se estiverem meio malucos) tem de especial é o facto de nos descrever alguns detalhes das sete maravilhas do seu mundo, em vez de apenas dizer os seus nomes. Infelizmente, seria difícil deixarmos por cá todas as descrições, mas podemos fazer uma brevíssima alusão ao seu conteúdo. Assim, o autor fala-nos das seguintes:

  1. Os Jardins Suspensos da Babilónia, "que suspendem as suas plantas no ar".
  2. As Pirâmides [de Mêmfis], de que diz "por construções como estas os homens sobem até ao patamar dos deuses, ou os deuses descem até ao homem".
  3. A Estátua de Zeus [em Élide], cujo autor elogia dizendo que "honramos as outras maravilhas com a nossa admiração, mas esta é a única que veneramos".
  4. O Colosso de Rodes, que pela construção "no mundo um segundo sol ficou face-a-face com o primeiro".
  5. As Muralhas da Babilónia, "criadas com a majestade e esplendor da imensa riqueza da Rainha Semiramis".
  6. O Templo de Artemisa em Éfeso, "a morada dos deuses", curiosamente descrito em linhas semelhantes às de Antípatro, mas que estão aqui incompletas.

E onde está a sétima? O prefácio do autor permite saber-nos que seria o Mausoléu de Halicarnasso, mas a totalidade da sua descrição está perdida.

 

Para quem estiver curioso, como contrasta esta lista com a de Antípatro de Sídon, bem mais conhecida? Essencialmente, apenas troca o Farol de Alexandria pelas Muralhas da Babilónia, mantendo todas as restantes. Por isso, em conclusão, o que dizer deste texto? Apesar de curiosa, não sabemos qual terão sido as fontes do seu autor - o que sabemos, isso sim, é que não terá visto todas estas maravilhas com os seus próprios olhos, o que empobrece significativamente a sua intenção de as descrever para todos nós. E, por isso, não sabemos até que ponto podemos confiar na informação que nos dá, por muito interessante que possa parecer.

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Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras

Aqui está uma oportunidade que nos pareceu interessante. A 20 de Outubro terá lugar, em Oeiras, uma visita subordinada ao tema "Mistérios da Mitologia Clássica no Palácio do Marquês de Pombal". A respectiva página, visível aqui, define o evento da seguinte forma:

 

"O Palácio Marques de Pombal e Jardins, constituem um dos conjuntos patrimoniais mais notáveis do concelho de Oeiras, classificado como monumento nacional. Este conjunto encontra-se impregnado de imponentes esculturas, de notáveis estuques, de belos painéis de azulejo com muitas estórias da deuses e seres fantásticos do universo da da Mitologia Clássica. Sabia por exemplo que temos uma divindade campestre a guardar o Palácio? Que divindade é que está representada na bela cascata do jardim? Que episódios mitológicos estão representados nos estuques de João Grossi? Que heróis nos revelam os painéis de azulejo da segunda metade do século XVIII? Está curioso? Então inscreva-se na visita comentada Os Mistérios da Mitologia Clássica nos Jardins e no Palácio do Marques de Pombal e descubra a odisseia de mistérios que povoam num dos conjuntos da antiga Quinta de Recreio da família de Sebastião José de Carvalho, Marquês de Pombal."

 

Para quem tiver interesse em participar bastará clicar no link já disponibilizado acima.

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Com aproximadamente 4500 anos, As Instruções de Xurupaque é um pequeno texto em que esta figura tentou deixar ao seu filho, Ziusudra, um conjunto de lições que pensava ser importante deixar-lhe. De um ponto de vista mitológico esta atribuição tem algum interesse porque Xurupaque teria sido o último rei local antes do dilúvio universal, enquanto que Ziusudra teve um papel importante nesse evento, construíndo uma arca (semelhante à da história do "nosso" Noé) e, por isso, tratando-se de uma figura privilegiada na preservação do conhecimento. Mas que conselhos, afinal de contas, decidiu ele deixar ao seu filho? Aqui ficam alguns dos exemplos mais curiosos e relevantes para os nossos dias:

 

  • Não construas a tua casa próxima da praça pública - existe sempre muita gente por lá;
  • Não deverás roubar nada;
  • Um ladrão é um leão, mas depois de ter sido apanhado será um escravo;
  • Não deverás divertir-te com uma jovem casada; as calúnias poderão ser sérias. [E por isso] Não deverás sentar-te sozinho num quarto com uma mulher casada;
  • Não deverás falar de forma imprópria, poderá ser perigoso para ti mais tarde;
  • Não deverás violar a filha de ninguém, porque os tribunais irão saber disso;
  • Quando se trata de dar o pão de outra pessoa, é muito fácil dizer "sim, vou dar-to", mas o tempo que este toma a realmente ser dado pode estar tão distante como o céu; Se seguires o homem que te disse isto [i.e. "vou dar-to"], ele irá dizer-te "Agora não te posso dar, já acabou";
  • Não deverás tomar decisões quando bebes muita cerveja;
  • O Destino é como a margem de um rio, pode fazer-nos escorregar;
  • O irmão mais velho é como um pai; a irmã mais velha é como uma mãe. Por isso, ouve o teu irmão mais velho, e sê tão obediente à tua irmã mais velha como se ela fosse a tua mãe;
  • Não irás multiplicar as tuas posses usando apenas a tua boca;
  • Um coração com amor mantém uma família; um coração com ódio destrói-a.

 

Como é fácil ver, muitos dos conselhos presentes na obra ainda se aplicam aos nossos dias, mas resta é saber se os leitores de hoje estão realmente dispostos a ouvir a sabedoria de outros tempos...

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O Mármore Pário

Na imagem acima pode ser vista uma reprodução do texto da Crónica de Paros, um mármore que foi reencontrado no século XVII e que apresenta uma cronologia dos tempos gregos, aproximadamente desde o ano 1581 a.C., em que Cécrops se tornou o primeiro rei de Atenas, até ao ano 299 a.C., em que Euctemón foi arconte em Atenas. É uma crónica curiosíssima, na medida que funde eventos míticos (o dilúvio de Deucalião, o reinado de Teseu, a vida de Héracles, etc.), com aqueles que tendemos a considerar como históricos, como as conquistas de Alexandre Magno. Essa necessidade de contar o tempo, a altura em que tiveram lugar alguns dos eventos do passado, levanta uma questão - afinal, como era a contagem do tempo feita na Antiguidade?

 

Partindo do exemplo da Crónica de Paros, as entradas mais antigas mencionam quem foi rei em Atenas na altura em que um dado acontecimento teve lugar. Depois, por volta da entrada relativa ao ano de 683 a.C., é dito que começou a ser praticado um arcontado, e então as datas seguintes vão sendo associadas à pessoa que num dado ano era arconte em Atenas. O que distingue os dois períodos? Os eventos anteriores a esse ano de 683 a.C. podem ser considerados míticos, enquanto que os mais recentes já têm um fundamento histórico.

 

Poderá parecer simples, mas esta não era a única opção. No tempo dos Gregos também era feita uma contagem do tempo associando eventos aos Jogos Olímpicos, algo como "no terceiro ano da vigésima-segunda olimpíada..." E, de facto, nas fontes que temos a contagem é feita recorrendo-se tanto aos arcontes como aos períodos dos Jogos Olímpicos.

 

Salte-se algum tempo e considere-se, agora, um segundo exemplo, o dos Romanos. Como é que eles contavam os seus períodos de tempo? Essencialmente, tendiam a recorrer a um contagem ad urbe condita, ou seja, algo como "passados X anos da fundação da cidade [de Roma]", com esse evento crucial a tomar lugar por volta de 753 a.C. Mas, tal como no caso dos Gregos, esta não era a única opção - muitas vezes a datação também era feita recorrendo-se aos cônsules, de que a obra de Júlio Obsequente é um bom exemplo, ou até aos Imperadores.

 

Depois do tempo dos Romanos começou, essencialmente, a ser usada uma cronologia cristã, que apesar de ter sido alterada ao longo dos tempos já ultrapassa o nosso tema de hoje. Resta, no entanto, uma questão problemática - como é que os Gregos contavam o tempo antes dos reis de Atenas e dos Jogos Olímpicos? Ou, se preferirmos os Romanos, como é que eles o faziam antes da datação AUC? Não sabemos, mas se alguém tiver alguma ideia por favor deixe-a nos comentários.

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Ara Votiva

No próximo dia 12 de Outubro terá lugar no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, uma conferência pelo Professor José d'Encarnação subordinada ao tema "Água Divindade". Mais informação pode ser obtida carregando na imagem acima, na qual pode ser vista uma ara votiva nacional, dedicada a Fontanus, particularmente relevante para o tema em questão.

 

No entanto, para quem estiver curioso sobre a identidade de Fontanus, trata-se muito provavelmente de uma divindade romana associada às nascentes de água, mas sem que se conheça qualquer mito associado a ela, como é comum entre as divindades tutelares dos Romanos.

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