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Baldur, também conhecido como Baldr ou Balder, poderá até ser um dos deuses mais famosos do panteão nórdico, na medida que a sua morte acabou, de alguma forma que não é muito explícita, por levar ao Ragnarök. Mas como morreu o deus?

 

A história começa com Baldur a ter um conjunto de sonhos alusivos à sua própria morte. Assustado com essa possibilidade, confrontou os outros deuses com o que se passava e estes fizeram com que (quase) tudo o que existia prometesse não magoar este deus. Depois, de uma forma que devemos considerar hoje um pouco absurda, juntaram-se todos e, numa espécie de brincadeira festiva, decidiram atirar coisas a Baldur, já que este não poderia vir a sofrer qualquer mal.

 

Entretanto, o traiçoeiro Loki investigou tudo isto e acabou por descobrir uma pequena falha nas promessas dos seres vivos - uma pequeníssima planta, o visco [mais conhecida entre nós pelo seu nome inglês, "mistletoe"], nada tinha prometido, por parecer demasiado inofensiva. De uma forma dificil de perceber, este deus fez então uma lança com essa planta e entregou-a a Hoder, o cego irmão de Baldur, para que este a atirasse, tal como os outros deuses estavam a fazer. Quando o fez, matou, acidentalmente, o próprio irmão.

Mas a história não termina por aqui. Dirigindo-se à deusa dos mortos, Hel, Odin pediu que Baldur fosse trazido de volta ao mundo dos vivos. Esta aceitou o pedido, pondo apenas uma pequena condição - todos os seres vivos teriam de chorar pelo deus. E (quase) todos o fizeram, salvo uma única excepção, a de uma velhota que pareceu preferir afastar-se de todo o assunto (mas que até poderá ter sido Loki disfarçado). Por isso, Baldur iria continuar morto.

 

Este mito nórdico apresenta-nos algo de muito invulgar, a morte de um deus, episódio sem paralelo nos mitos dos gregos e romanos. De facto, a trama até nos permite compreender um conjunto de características dos deuses nórdicos, entre elas a sua mortalidade, o facto de não serem omnipotentes nem omniscientes, mas, talvez mais que tudo o resto, o facto de serem tão falíveis e imperfeitos como os próprios mortais. Posteriormente, até acabarão por se vingar de Loki, mas esse é uma espécie de sequela deste mito que ficará para outro dia.

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Ultimamente vários visitantes têm procurado por cá informações sobre a aparência física de Aquiles. A questão provavelmente virá de uma série da BBC, "Troy: Fall of a City", em que o herói é representado com pele escura. Mas será que ele tinha mesmo essa ascendência africana, ou era branco e loiro, como no filme "Troy"?

João Tzetzes, no século XII, incluiu nos seus trabalhos [dos quais já aqui publicámos uma tradução] a descrição de algumas das figuras mais importantes dos épicos homéricos. Entre eles encontra-se, naturalmente, Aquiles, em relação a quem é dito que era alto, branco e de cabelos loiros. Momentos depois, sobre Pátroclo é dito que este também tinha cabelos loiros, mas pele avermelhada (provavelmente por passar menos tempo abrigado do sol), dificultando que algum dos dois fosse africano.

 

Mas estava João Tzetzes correcto? Que fontes utilizou para obter essa informação? Nem sempre é fácil sabê-lo, até pela existência de discrepâncias em várias das suas fontes, mas é inegável que o primeiro livro da Ilíada define o cabelo do herói como "ξανθή / xanthē", que pode ser traduzido como loiro. Mas se também essa prova não fosse suficiente, o herói é frequentemente representado em mosaicos com uma tez inegavelmente branca; em relação a vasos, no entanto, o caso não é tão simples, já que até a pele do etíope Mémnon por vezes se confunde com a de todas as figuras europeias.

 

Assim se poderá concluir que o Aquiles homérico tinha cabelos loiros, sendo também quase certamente branco. Por essa razão, o herói, tal como é representado na série da BBC, não corresponde à figura imaginada por Homero, mas devemos relembrar que não tem de o fazer. A cor da pele do herói, seja ela qual tenha sido, é muito menos importante do que as suas aventuras.

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Este é uma daqueles mitos que indubitavelmente tem um fundo de verdade. Sabemos que um tal Aristeas, nativo da ilha de Proconeso, existiu e escreveu um poema chamado Arimaspea, brevemente citado tanto por Longino como por João Tzetzes. Porém, pela sua natureza é improvável que a história contada por Heródoto seja igualmente verdade.

Heródoto conta-nos então que este Aristeas entrou numa loja, caiu para o lado e morreu. O dono da loja provavelmente ficou em pânico e foi contar aos familiares do (potencial?) defunto o que se tinha passado, mas.. quando voltaram ao local, o corpo de Aristeas não estava lá. Dias depois, um viajante disse que Aristeas não podia estar morto, já que o tinha visto num outro local e até falou com ele.

Estranhamente, Aristeas voltou à sua cidade-natal passado sete anos (a história não nos relata se os familiares lhe deram uma tareia pela sua repentina ausência...), altura em que supostamente escreveu a Arimaspea (provavelmente um relato das suas aventuras), antes de tornar a desaparecer. Posteriormente, é-nos dito que ele reapareceu mais de duas centenas de anos depois, mas se se tratava do mesmo Aristeas... ninguém sabe, tendo "ele" supostamente revelado que andava a viajar sob a forma de um corvo com o deus Apolo.

 

Onde termina então a verdade e começa a ficção neste mito? Não pode ser totalmente falsa, esta história, porque a Arimaspea existia e até Longino a elogia. Mas terá ele mesmo desaparecido por sete anos? Quem era a misteriosa figura que foi vista passado dois séculos? A perguntas como estas provavelmente nunca teremos uma resposta...

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Este filme passou recentemente na televisão portuguesa, no canal "Cinemundo", sob o nome "Odisseu e a Ilha da Neblina". A sua trama é relativamente simples, apresentando o herói titular nessa misteriosa ilha aquando do seu regresso a casa. São recordados alguns dos episódios da Ilíada e algumas das viagens da Odisseia, mas a história é totalmente nova, apresentando dois elementos dignos de referência.

 

Homero surge aqui não só como um narrador, mas também como um personagem que, na sua juventude, participou nas próprias viagens de Odisseu, que tentou documentar. Se ele não tem qualquer acção crucial no desenvolvimento da aventura, limitando-se repetidamente a referências como "tenho de documentar isto", a ideia desta figura como personagem nas aventuras dos poemas homéricos não é nova - já várias autores da Antiguidade diziam que Homero era familiar de Odisseu, razão pela qual o tinha elogiado tanto nos seus poemas.

 

Ademais, sem querermos contar demasiado da história, ela explica a origem dos vampiros, justificando, por exemplo, o facto de estas criaturas não gostarem da luz solar ou temerem a cruz. Estranhamente, se a trama também faz muitas outras alusões ao Cristianismo - uma personagem chamada "Cristus" parece temer a crucificação; num dado momento podem ouvir-se vagas entoações do cântico "Agnus Dei"; etc. - estas nunca levam a nenhum lado significativo.

 

Este não é, indiscutivelmente, um bom filme, mas poderá agradar àqueles que tiverem 90 minutos livres e quiserem conhecer mais uma história miticamente inesperada.

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Em Lisboa, o Padrão dos Descobrimento tem patente até ao próximo dia 3 de Junho de 2018 uma exposição consagrada ao tema "A espantosa variedade do Mundo". Mais informação sobre a mesma pode ser lida clicando na imagem abaixo.

O panfleto a ela relativo dá-nos a seguinte introdução:

 

O mundo, natural e social, é uma fonte permanente de espanto, seja pela regularidade da sua ordem, seja pela irrupção do insólito. Estes dois lados vão a par: o insólito rompe a paisagem habitual do mundo e, simultaneamente, confirma-a. Na história cultural da Europa, os “monstros” são a mais notável figura de espanto. Tal como a etimologia revela (do latim monitum que significa advertência), o “monstro” tem a função de chamar a atenção, mostrar. A sua significação não se esgota no insólito da sua forma, valendo igualmente como sinal de algo desconhecido, porventura um acontecimento futuro. A sua fisionomia peculiar resulta de uma profunda alteração operada numa espécie animal ou na combinação de elementos pertencentes a espécies distintas. Enquanto figura de alteridade (o outro enquanto diferente), o “monstro” surge particularmente na literatura de viagens, como em a Odisseia ou nos relatos de viajantes, como Marco Polo, que se aventuraram por terras longínquas, principalmente no Oriente asiático. Os casos emblemáticos, que preencheram o imaginário desde os tempos mais remotos até à Idade Média, são constituídos por indivíduos ou povos fantásticos, que se julgava habitarem as margens do mundo, muito em especial na orla marítima da terra firme. Com a emergência da ciência moderna, no século XVI, e graças ao conhecimento trazido pelos navegadores e exploradores, a ideia de “monstro” vai-se desmistificando, o olhar vira-se para a geração destes seres prodigiosos, indagando se se tratam de meras anomalias ou formas curiosas de uma natureza multifacetada. 

 

Fica a convite para que os leitores visitem esta exposição repleta de Blémias, Ciclopes e outras tantas criaturas, que popularam o mundo desde tempos da Antiguidade quase até aos nossos dias, e que ainda hoje continuam a habitar o nosso imaginário.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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