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Esta expressão parece ser utilizada tanto no masculino como no feminino, referindo-se igualmente a uma "bicha de sete cabeça". Mas, seja uma bicha ou um bicho, tanto o seu significado como a sua origem parecem ser as mesmas.

A Hidra de Lerna e Hércules

A expressão tem a sua origem no difícil confronto de Hércules com a Hidra de Lerna, de que já falámos, por exemplo, aqui. Essa interrelação entre a expressão dos nossos dias e o antigo mito é fácil de notar se tivermos em conta que ela admite um certo grau de cepticismo, significando não só a uma situação complicada, mas uma também com um fundo mais imaginário do que real.

Assim, dizer a alguém algo como "Essa situação não é um bicho de sete cabeças" equivale a dizer-lhe que se encontra numa posição que não é tão difícil de superar como lhe poderá estar a parecer.

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Há pouco mais de um mês que a Polícia Judiciária Militar passou a ter o seguinte emblema:

Emblema da PJM

Uma questão que os mais curiosos poderão ter passa pela simbologia por detrás de cada um destes elementos. O Diário da República explica-a da seguinte forma:

O dragão com a vara de meirinho, que alude à fidelidade da PJM à missão que lhe está legalmente confiada na persecução da administração da justiça; a estrela de seis pontas é um elemento associado às forças e serviços de segurança, considerada guia para a ação e repositório de nobreza, cujo número e disposição estabelece a ligação com as cinco quinas que constituem o símbolo do MDN, lembrando, por conseguinte, a dependência orgânica da PJM e, além de símbolo eminentemente militar, as quatro espadas abatidas também representam a virtude, a bravura e o poder, assim como a separação entre o bem e o mal, na persecução da justiça, consubstanciando, desta forma, o contributo firme da PJM na preservação do caráter imparcial da justiça nos três ramos das Forças Armadas e na Guarda Nacional Republicana. As cores predominantes são o ouro, representado pela cor amarela, simbolizando a nobreza, o poder, a generosidade, luz e elevação da mente, e o azul, associada ao zelo, lealdade, caridade, justiça e verdade.

No listel sotoposto, inscreveu-se o lema da PJM - «JUSTUM ET TENACEM» - locução latina cujo significado é «justo e tenaz». Trata-se do fragmento de um verso das Odes, de Quinto Horácio Flaco (65 a. C.-8 a. C.), famoso poeta da Roma antiga, comummente conhecido como Horácio.

Curiosa, a referência às Odes de Horácio, mas é igualmente interessante constatar que cada um dos elementos do emblema foi aí incluído graças a uma simbologia muito específica. É mesmo isso que estuda a Heráldica, "ciência dos brasões", e atente-se ao facto de alguns elementos - como o dragão, ou as espadas - terem um significado já tão conhecido que, como pode ser lido acima, pouco se questionam.

 

Essencialmente, e como pôde ser lido no exemplo acima, desenhar um emblema passa por ir associando diversos elementos simbólicos, bem conhecidos da Heráldica, com um determinado objectivo. Até seria uma actividade gira para os mais novos, ensinar-lhes alguns elementos básicos dessa ciência e pô-los a criar os seus próprios brasões... fica a sugestão!

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Vista do Palácio da Pena durante a noite

Será que a famosa vila de Portugal deve ser chamada Sintra ou Cintra? Hoje é usada a primeira dessas formas, mas a outra também já foi bastante utilizada. E porquê? A explicação de hoje provém de uma nota sublime nas Religiões da Lusitânia, de Leite de Vasconcelos, com algumas ligeiras adaptações:

 

No séc. XVI, em virtude da confusão que na pronúncia do sul se estabelecia entre S e Ç, a palavra Sintra começou a pronunciar-se Cintra. Por isso os eruditos e poetas, que sabiam que aí tinha existido em épocas remotas o culto da Lua, mas que não sabiam que as explicações filológicas devem basear-se em documentos mais sólidos que os que provêm de mera fantasia, admitiram relações fonéticas entre Cintra e Cynthia, um dos epítetos latinos de Diana, deusa lunar [romana]. É assim que numa carta dirigida por el-rei D. Sebastião ao Pontífice, em 1570, se lê "Sintiae" (...), forma que tem da antiga o S, e da latina a terminação. Fr. Amador Arraiz (...) escreve Syntra e, falando de Scynthia, forma em que concorre o S e o C, diz «isto é, da Lua».

Esta falsa teoria continuou a vigorar nos séculos seguintes, até hoje. Na nota 110 da Henriqueida, poema de D. Francisco Xavier de Meneses, lê-se : «Cintra deve escrever-se com C, e não com S, porque lhe deu o nome Cinthia, que é a Lua, a quem este monte era dedicado». (...) E mais citações podiam ainda fazer-se. Do que fica dito nesta nota resulta:

1.°, Que a antiga ortografia, e portanto a preferível, é Sintra;

2.°, Que a ortografia Cintra é moderna, e devida a falsas ideias históricas de eruditos e poetas.

 

Interessante, não é? Mas, para mais curiosidades sobre a bela Sintra, pode sempre ser visitada ali a página do Caminheiro de Sintra.

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Face de Endovélico

A grande maioria dos mitos que vão sendo contados por cá provêm da Grécia Antiga ou do tempo dos Romanos. Temos acesso a esse conhecimento porque os autores da altura decidiram deixar-nos, por escrito, algumas das histórias que envolviam cada uma dessas divindades e heróis. Contudo, o caso de Endovélico é significativamente diferente.

 

Endovélico é conhecido como o mais popular dos deuses (ou heróis divinizados?) da Península Ibérica. Mas, mesmo se tratando de uma importante divindade nativa, nenhum autor grego ou romano nos fala dele, nem nenhum autor ibérico a ele se refere com informação credível. E, na verdade, nada saberíamos hoje sobre ele não fosse o facto de terem sido encontrados diversos ex-votos com o seu nome, como aquele que pode ser visto na imagem acima, juntamente com uma cabeça que se supõe ser de Endovélico. A pouca informação que temos (ver, por exemplo, aqui um interessante artigo de José D'Encarnação que a resume) permite-nos perceber alguns dos seus contornos e poderes, mas nada nos diz sobre alguma possível história real que possamos associar a esta figura ou ao seu santuário de São Miguel da Mota.

 

Nesse sentido, se Endovélico até é uma divindade de uma importância inegável na cultura ibérica, procurar um mito associado a ele é uma tarefa impossível. Nenhum autor nos parece ter deixado a sua história real, sendo ele, para nós, pouco mais que um mero nome de um passado há muito esquecido.

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Este mês de Dezembro de 2019 será dedicado exclusivamente aos temas de Portugal. Enquanto nos preparamos - a primeira publicação virá já no dia 5 - fica igualmente aqui uma pequena sugestão para visita.

 

No dia 4 de Dezembro começará, no Palácio Nacional de Mafra, a exposição "Magia, um olhar sobre um tesouro oculto". A informação que nos foi prestada pelo local da exposição diz o seguinte:

O Palácio Nacional de Mafra – património da Humanidade – entre dezembro de 2019 e maio de 2020, desvela alguns dos seus tesouros bibliográficos relacionados com as várias temáticas que um Mago tem de dominar se quer ser tratado como tal. Livros de alquimia, astrologia, cabala, criptografia, esteganografia, filosofia, quiromancia – livros que todos eles se podem reunir numa palavra: Magia – escolhidos de entre muitos outros que a sua Biblioteca guarda.
São livros que foram lidos e consultados pelos frades que viveram em Mafra, embora a leitura de muitos desses livros fosse proibida pela Igreja, e muitos estivessem arrolados no Index da própria Inquisição e, alguns, até, tenham sido escritos por membros do clero.
Esses livros, porque proibidos e guardados pelas chaves secretas dos responsáveis da biblioteca no tempo em que ela servia os monges, são de difícil consulta e encontram-se arredados do público.
Livros de Magia. Quem não se deixou um dia encantar pela palavra, mesmo só lhe adivinhando um pouco do muito que se esconde por detrás desse nome: magia diabólica; magia lícita; magia mecânica; magia natural; magia oculta; magia recreativa; e tantas outras que podem provocar ilusões.

 

Parece uma exposição muito interessante, à qual certamente também iremos, mas quem ainda quiser saber um pouco mais sobre a mesma poderá sempre carregar na imagem abaixo.

Convite para a exposição

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Enomau de Gadara podia ser só mais um autor, ou um Cínico, como tantos outros que já passaram por aqui. Podia-se apontar que a Suda lhe atribui pelo menos quatro livros, todos eles hoje perdidos, e que Eusébio de Cesareia cita algumas sequências de um quinto na sua Preparação para o Evangelho, mas a história de Enomau é tão curiosa que merece mais do que essa breve referência.

Templo

Nas linhas citadas por Eusébio de Cesareia, Enomau conta-nos que num dado dia da sua vida sentiu alguns problemas e decidiu consultar um oráculo. O deus local, que pensamos ter sido Apolo, deu-lhe uma resposta que o satisfez bastante e o fez sonhar com o bom futuro que o aguardava. Tudo estaria bem, não fosse o facto de alguém ter ouvido a resposta oracular e lhe ter revelado que o deus já tinha dado essa mesmíssima resposta a outra pessoa!

Enomau, enfurecido com a situação e com a inesperada aldrabice, decidiu escrever um livro com um título como Detecção dos Enganadores, em que critica satiricamente a ideia do Destino e das previsões oraculares. Se infelizmente, já não nos chegou de uma forma mais completa, o quinto e sexto livros da Preparação para o Evangelho apresentam algumas citações bastante prolongadas da obra original, em que se consegue perceber bem o carácter muito jocoso das linhas de Enomau, e que não poderão deixar de fazer sorrir todos aqueles que têm interesse na religião e mitos da Antiguidade - fica o convite!

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A ponte em Cruz Quebrada

Muitos são os topónimos portugueses cuja verdadeira origem se encontra envolta em mistérios. Hoje iremos falar de outro local problemático, a Cruz Quebrada. De onde vem esse nome? Existem pelo menos duas lendas associadas a ele:

 

Numa delas, um moleiro local sofreu várias desilusões de amores. Procurando uma solução para os seus males do coração, aproximou-se de um herético que lhe disse que deveria fazer um dado ritual, no qual um dos passos passava por mutilar uma cruz que estava exposta em público. Imprudentemente, fê-lo mas foi apanhado; em seguida foi julgado e queimado numa fogueira, mas o acto que tinha cometido pareceu tão horrendo entre os fiéis que acabou por dar nome à povoação em que teve lugar.

 

Uma outra lenda diz algo significativamente diferente. Conta-nos que no tempo das invasões francesas alguns soldados estrangeiros decidiram derreter símbolos religiosos para reaproveitarem os materiais. Com vista a esse objectivo, numa dada altura foram a uma ponte em que existiam duas cruzes e removeram uma delas. Por milagre, a sua companheira começou a gritar, a pedir socorro, e só se calou quando a outra foi reposta no seu local. Tal milagre levou ao nome da "Cruz Que Brada" (i.e. que solta gritos), que mais tarde se tornou "Quebrada".

 

Porque tem, então, a povoação de Cruz Quebrada esse nome? O elemento miraculoso da segunda lenda é potencialmente problemático, mas não sabemos até que ponto a primeira será digna de maior crédito. Poderá, realmente, preservar a origem do nome da povoação, mas... terá sido verdade, a história que nos conta?

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