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Raposa e cão

São, cremos, 42 as fábulas que se apresentam na colectânea de Aviano, quase todas elas com morais já directamente associadas. Entre elas contam-se algumas bastante famosas, como a da cigarra e da formiga, e outras que, apesar de menos conhecidas, são igualmente belas. Parafraseamos uma das que nos pareceram mais interessantes:

 

Dois grandes amigos decidiram empreender uma grande viagem. Enquanto caminhavam por uma floresta, viram uma ursa a aproximar-se. Um deles rapidamente subiu a uma árvore, enquanto que o segundo, incapaz de o fazer, se deitou no chão e fingiu-se de morto. Aproximando-se, a ursa pareceu passar muito tempo perto dele, segredando-lhe até aos ouvidos. Depois, afastou-se. O primeiro amigo desceu da árvore e perguntou-lhe, de forma curiosa, o que a ursa lhe tinha dito. Nada de muito complicado, apenas "cuidado com aqueles que se afastam quando mais precisas deles".

 

Fica então essa fábula, e esse conselho, primeiro preservado nas linhas de Aviano.

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Tirant lo Blanc

Quando, na trama do Don Quixote, os familiares do herói queimam a sua colecção literária, entre eles encontra-se um Tirant lo Blanc, um romance medieval que pareciam ter em muito boa conta. É, contrariamente a alguns outros mencionados nessa mesma altura, uma obra real e um bom romance de cavalaria, mas a sua referência aqui deve-se, mais que tudo, a um momento que é particularmente digno de menção.

 

Pouco depois de encontrar o amor, Tirant passa por um quarto em que se encontram representadas as mais famosas histórias de amor da sua época - "Flóris e Brancaflor, Tisbe e Píramo, Eneias e Dido, Tristão e Isolda, Rainha Guinevere e Lancelot". A segunda e a terceira delas provêm da Antiguidade, nomeadamente de Ovídio e Virgílio, enquanto que as restantes três são, essencialmente, histórias puramente medievais, de que a de Lancelot e Guinevere é, muito provavelmente, a mais famosa nos nossos dias.

 

E assim, neste Dia de São Valentim, que também os leitores inscrevam as suas próprias histórias entre as das figuras acima - que homem não gostaria de ser Lancelot? Que mulher não desejaria ser amada como Isolda?

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Como já dito quando escrevemos sobre o "Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo", de Galileu Galilei, existem bastantes livros sobre os quais já ouvimos falar bastante, mas que também raramente lemos. Entre eles conta-se Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Alice a tomar chá

O que dizer deste texto? Se a sua relação com os mitos da Antiguidade é bastante ténue (por exemplo, uma das personagens é um Grifo, existe um momento em Alice recorda o livro de Latim do irmão, e o facto dos animais falarem até nos poderá levar a pensar nas fábulas atribuídas a Esopo), devemos admitir que é um livro delicioso para as crianças, em muitos momentos até escrito de uma forma que recorda o próprio pensamento dos petizes. Está tão repleto de loucuras como de momentos, uns mais conhecidos que outros, que não podem deixar de nos fazer rir. E, num tempo tão (infelizmente) pautado por smartphones e computadores, porque não ler este livro para, ou com, alguém mais novo? Fica esse convite!

 

A sua sequela, bem como uma edição criada a pensar em crianças mais novas, também têm algum interesse, mas não ultrapassam o charme desta aventura original.

O Gato de Cheshire

E, para terminar, uma curiosidade - conhecem o Gato de Cheshire, que desaparece e aparece quase totalmente? Segundo alguns, a sua loucura poderá dever-se ao facto de quando ele desaparece, cessar totalmente de existir. As implicações filosóficas dessa informação dariam, por si só, para enloquecer qualquer um...

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Há alguns anos atrás uma leitora deste espaço deixou-nos um comentário sobre a relação entre os deuses pagãos e o próprio Deus cristão. Dizia ela, nessa altura, que lhe fazia alguma confusão ir à igreja e pensar que ao venerar Deus estava, de alguma forma, a prestar culto ao Sol. Se o tema não é assim tão simples, se Deus e o Sol (já) não são um só e o mesmo, não nos seria fácil conseguir reduzir a riqueza desse grande tema a um singelo punhado de linhas.

 

Então, porque voltamos agora a esse mesmo assunto? Há algumas semanas passou-nos pelas mãos um livro atribuído a P. Saintyves de título Les saints successeurs des dieux. Parece somente existir em língua francesa, o que poderá dificultar a leitura, mas é uma obra fascinante, provavelmente entre as mais interessantes que já nos passaram pelas mãos. Nela, o autor demonstra que os santos cristãos são, de alguma forma, uma espécie de herdeiros dos múltiplos deuses das religiões ditas pagãs; isto pouco teria de muito inovador, não fosse o facto de também apresentar múltiplos casos em que, estranhamente, os santos têm muito mais de figuras pagãs do que poderíamos sequer sonhar.

 

Claro que ninguém duvida da existência de um Santo António, ou de um São Francisco Xavier, mas como explicar os casos de figuras santificadas em relação às quais sabemos pouco mais do que um mero nome? Ou como explicar que a história de São Josafá seja demasiado semelhante à de Buda? E o que dizer de São Zeus, São Mercúrio e Santa Ninfa, entre outras figuras cujos nomes nos remetem para a antiga religião? São questões como essas, entre muitas outras, que o autor explora nesta interessantíssima obra, que merece evidentemente ser lida por todos aqueles que tenham interesse na influência que as religiões pagãs tiveram no Cristianismo.

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De autoria desconhecida, mas muito provavelmente dos séculos VII ou VIII da nossa era, este não é, como o seu nome poderia dar a entender, somente um livro sobre "monstros". Em vez disso, pode até ser dividido em três secções diferentes:

 

  • Na primeira delas surgem os "monstros", no sentido de criaturas quase humanas mas pouco vulgares. Entre elas contariam-se, por exemplo, os Panotiis (um dos quais é visto na imagem acima);
  • Na segunda, surgem animais pouco vulgares. Curioso é o facto de nesta secção o autor "conseguir", de alguma forma, identificar criaturas mitológicas, como os touros que cuspiam fogo que aparecem no mito de Jasão e Medeia;
  • Finalmente, a terceira secção contém relatos de criaturas serpentinas, cada uma delas com suas características. Entre elas estão, por exemplo, as serpentes que saíram do mar e mataram Laocoonte e os respectivos filhos.

 

A apresentação desta obra é feita assim por uma razão muito especifica - o mais interessante em relação a este Liber Monstrorum, ou "Livro dos Monstros" é o facto de conjugar alguns relatos mitológicos com informação real. É um livro que num momento nos refere o hipopótamo tal como o conhecemos e, no instante seguinte, acrescenta que este animal é muito tímido e foge de quem o persegue até ao ponto de começar a suar sangue. Num instante está a falar de serpentes, no seguinte quase que consegue identificar - não fazemos ideia como - o animal de onde provinham os miraculosos dentes que geravam seres humanos, famosos dos mitos de Tebas e de Medeia. É, por isso, uma inesperada obra que funde mitos e realidade, de uma forma um tanto ou quanto complexa.

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Este espaço é da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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