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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas. Juntem-se a nós numa imprevisível viagem por mitos, lendas, livros antigos e muitas outras curiosidades.
Se há alguns dias aqui falámos dos Centauros, achámos que podíamos igualmente contar um grande mito relativo a eles, o da "Centauromaquia", também conhecida como a "Batalha dos Centauros e dos Lápitas". Se este mito é pouco conhecido nos nossos dias, teve um relevo enorme na arte grega, possivelmente por representar o confronto da civilização (grega) com "o outro", o monstruoso (bárbaro). Por isso, reconte-se o que ainda sabemos sobre este episódio.
Piríto, o famoso amigo de Teseu, estava para casar com Hipodâmia e convidou para a boda os Lápitas e os Centauros, com quem - segundo algumas versões do mito - tinha um laço de sangue. Inicialmente tudo corria bem, mas quando os Centauros beberam vinho puro, ao qual não estavam habituados, a sua natureza monstruosa veio ao de cima e começaram a causar problemas - tentaram raptar e violar algumas mulheres, bateram nos homens, e outras coisas que tais.
Como parecerá natural os outros convidados tentaram defender-se, levando a uma enorme batalha entre os dois grupos. Infelizmente, as informações que nos chegaram não preservam muitos detalhes do combate, com a excepção notável de um determinado episódio - sabemos que Ceneu (anteriormente Ceneia, mas esse curioso mito terá de ficar para um outro dia), um herói que era completamente indestrutível, foi enterrado vivo - os Centauros bateram-lhe repetidamente com árvores e atiraram-lhe pedras, até que este seu opositor ficasse totalmente enterrado e, segundo uma versão do mito, caído no próprio reino de Hades ainda vivo!
Se leram estas linhas até aqui, fica agora um pequeno convite - voltem a olhar para a imagem reproduzida acima e poderão ver, do lado esquerdo, perto do local em que o vaso está partido, três centauros e uma figura parcialmente soterrada - não podemos ver-lhe a cara, mas uma legenda por perto identifica-o como o Ceneu do mito, próximo do momento em que deixou este mundo.
Como também pode ser visto nesta nova imagem, esse momento específico é preservado num número muito grande de vasos, atestando a já-referida fama desta batalha e, mais concretamente, do episódio que une estes monstruosos adversários a Ceneu. O que não pode deixar de nos levar a uma dúvida natural - sabemos de Ceneu, mas o que mais teve lugar neste confronto guerreiro? Essa é, infelizmente, uma informação que os autores da Antiguidade já não conseguiram fazer chegar até aos nossos dias, restando-nos a famosa ideia, que um dia até foi preservada nos frisos do Parténon, de que esta se tratava de uma batalha metafórica dos Gregos contra os Bárbaros.
Poucas criaturas dos mitos gregos são tão famosas como os centauros. Parte ser humano e parte equídeo, são diversas as sequências mitológicas em que vão aparecendo. Mas, afinal de contas, de onde nasceram estas estranhas criaturas?

De acordo com a versão mais famosa do mito, numa altura em que os deuses e os seres humanos ainda partilhavam os mesmos espaços, o rei Íxion apaixonou-se pela deusa Hera. Zeus, que tudo sabia, fez uma nuvem em forma da sua esposa. Quando o rei a viu, pensou tratar-se da sua amada e tentou violá-la; foi dessa união pouco natural e muito ilegítima que nasceram os centauros.
Porém, esta não é a única versão do mito. Numa outra, estas criaturas nasceram simplesmente da paixão de um homem chamado Centauro, filho de Íxion e Nefele (i.e. a nuvem do mito anterior), pelas éguas do monte em que vivia. Uma terceira versão, provinda de autores como Palaefato, diz que os centauros nunca existiram - em vez disso, a sua ideia surgiu somente porque tinha existido uma tribo de homens que conduzia os seus cavalos de uma forma tão perfeita que ambas as criaturas pareciam tratar-se de uma só.
Agora, se são vários os mitos que se referem a centauros do sexo masculino, somos levados a uma questão adicional - será que existiram "Centauras"? Apesar de terem pouca participação nos mitos, a resposta é positiva. Ovídio menciona o caso de uma centaura que se suicidou após o falecimento do marido na famosa batalha contra os Lápitas. Além disso, existem, aqui e ali, exemplos destas criaturas femininas na arte, que se prolongam até aos nossos dias.
Estas linhas de hoje não poderão começar sem se abordar um pequeno problema - será que o Buda realmente existiu? E, mesmo que a resposta a essa pergunta seja positiva, onde é que acaba a sua historicidade e começa a lenda?
Conta-nos esta história que o homem que viria a ficar conhecido como "Buda" foi príncipe de um reino muito rico, e os seus pais sempre tentaram que tivesse todas as melhores coisas, pois já lhes tinha sido profetizado o seu destino (que, diga-se, pareciam querer evitar). Um dia, enquanto a sua carruagem era conduzida por uma povoação, viu algo que nunca tinha visto até então - um idoso. Pouco depois, numa segunda viagem, viu um doente. Numa terceira, um homem morto, e a realidade dessas sucessivas descobertas levou-o à contemplação de um problema - de que lhe valiam todas as coisas que tinha, se acabaria por morrer mais cedo ou mais tarde?
Alguns dias depois viu um asceta, e essa nova ocorrência levou-o a decidir despojar-se de tudo o que tinha e ir para uma floresta meditar no seu problema. Uma e outra vez os seus pais, a esposa e o próprio filho, aqueles que conhecia, tentaram-no fazer desistir dessa ideia, muitas vezes até lhe apontando alternativas, mas não conseguiram demovê-lo. Procurou quem o pudesse ajudar a alcançar o seu objectivo, mas nenhum professor ou colega lhe pôde ensinar o que ele queria aprender. Então, numa determinada altura, decidiu sentar-se em baixo de uma árvore e não se mover do local até encontrar a resposta que procurava.

Na imagem acima pode ser visto esse momento, de algum relevo na arte budista, em que Mara, a personificação da morte, e os seus demónios tentam perturbar aquele que meditava. Tentaram assustá-lo, seduzi-lo pelos prazeres da carne, e outras coisas semelhantes, mas durante toda a sua meditação mostrou-se imperturbável. E depois, passadas sete semanas, encontrou a resposta que procurava, tornando-se Buda, i.e. "O Iluminado".
As crenças atribuídas ao Budismo nascem depois deste episódio, e tentam, de uma certa forma, que o crente consiga compreender as realidades que o Buda defrontou por si mesmo. Ele nunca é visto como uma divindade, nem as suas palavras como cânone religioso, mas convida é que as suas mensagens e ensinamentos sejam contemplados por quem o quiser fazer. E isso leva a uma questão - na ausência de uma divindade tuteral, será o Budismo uma religião ou um sistema de crenças? Essa é uma resposta que já caberá ao leitor...

De entre as muitas lendas de Portugal poucas já foram tão famosas como a do Galo de Barcelos. Mas, estranhamente, parecem ser cada vez menos os Portugueses que conhecem a lenda por detrás de este artefacto. Por isso, nada como recordá-la.
Num ano hoje desconhecido tiveram lugar em Barcelos diversos crimes. Acabou por ser acusado um peregrino que se deslocava para Santiago de Compostela. Por muito que insistisse na sua inocência ninguém quis acreditar nele. Então, numa derradeira tentativa de se salvar da forca, pediu para ser levado a um juíz.
Tratando-se possivelmente de um domingo, o peregrino foi levado a casa do juíz, onde o encontrou a tomar um faustoso almoço. Apontando para o galo que estava numa das travessas, disse-lhe: "É tão certo eu estar inocente como esse galo ir cantar quando eu for enforcado". Obviamente que todos os presentes se riram - quem não o faria, nessas circunstâncias? - mas, prudentemente, decidiram esperar.
Quando o peregrino estava prestes a ser enforcado, o galo cantou miraculosamente. O juíz e os seus companheiros ainda tentaram impedir a punição planeada, mas... não teriam chegado a tempo ao local não tivesse tomado lugar um segundo milagre - São Tiago amparou a queda do acusado, impedindo-o de morrer na forca. O peregrino foi libertado e prosseguiu viagem até ao santuário do seu salvador. Uns anos depois voltou a Barcelos para mandar erigir um cruzeiro a celebrar o que lhe tinha acontecido.

Este cruzeiro ainda pode ser visto em Barcelos, próximo da Rua Fernando Magalhães, mas já não ocupa o seu local original (que, naturalmente, era próximo do local da forca). Como visto na imagem acima, o topo do monumento tem a figura de Cristo crucificado; abaixo dele pode ser visto o miraculoso galo, o peregrino prestes a ser enforcado, e até São Tiago (ou, se preferirem, "Santiago") a amparar a queda.
A existência deste monumento é crucial para compreender uma potencial versão antiga da lenda. Se muitas outras são conhecidas nos nossos dias - bastará fazer uma pesquisa no Google por "Lenda do Galo de Barcelos" - elas tendem, quase sempre, a apresentar um único milagre, o do cantar de um galo que já há muito tinha morrido. Mas, como este monumento prova, também um santo interviu na mesma trama, e ele não merece o esquecimento a que parece estar muito votado nos nossos dias.

Um dos grandes mistérios de Bíblia, tal como a temos nos nossos dias, é a forma como Maria, mãe de Jesus, engravidou e deu à luz mantendo-se virgem. Claro que existem, ao longo dos séculos (e até nos nossos dias), outros exemplos de mulheres que engravidaram ainda virgens, mas se a cesariana já existia nos inícios da nossa era (Solino diz-nos que o nome foi popularizado por César ter nascido através dessa técnica), nada no texto bíblico nos diz que foi assim que o filho nasceu. O que nos leva, por isso, a uma questão intrigante - como foi Jesus concebido, e como foi possível que ele nascesse sendo mantida a virgindade de Maria?
A resposta que um padre vulgarmente nos dará é que "foi milagre". Sim, a um deus omnipotente tudo seria possível, até a manutenção da virgindade de uma mulher após um nascimento, mas essa pseudo-resposta é também muito pouco satisfatória, até porque se abriria a caricata possibilidade de se poder dar igual resposta a toda e qualquer questão bíblica.
Em alternativa, ao longo dos séculos foram sugeridas alternativas. A mais interessante delas, e aquela que trazemos aqui hoje, diz que Maria engravidou pela orelha, e que o próprio filho nasceu, também ele, pela mesma orelha da mãe. Não fazemos qualquer ideia dos potenciais fundamentos biológicos necessários para tal, mas a ideia desta estranha concepção já aparecia em autores como Efrém da Síria (século IV), numa dada altura até apareceu representada na arte, e o nascimento de Jesus de forma semelhante ocorre, pelo menos, num texto cátaro (i.e. da Idade Média).
Claro que esta é uma resposta muito estranha, mas parte do cumprimento de uma pseudo-profecia presente no Antigo Testamento. É, por isso, uma possibilidade como qualquer outra, rementendo-nos, como é muito frequente nestes casos, para o reino exclusivo da fé...

Preparados para o primeiro mito deste mês temático? Falar de este mito tem até algum significado extra para nós, pelo facto de ser um dos mais antigos que já passou por este espaço. A versão a que tivemos acesso, apesar de fragmentária, tem cerca de 4100 anos e permite-nos conhecer parte da história de uma figura suméria chamada Lugalbanda. Vamos a isso?
Lugalbanda era um soldado do Rei Enmerkar. Adoecendo durante uma guerra, foi levado por alguns companheiros para uma caverna numa montanha, onde se esperava que vivesse ou morresse. Após rezar a três deuses recuperou a sua saúde. Alguns dias depois capturou três animais e, num sonho, foi-lhe comunicado que os sacrificasse aos deuses. O que acontecia em seguida está parcialmente perdido, mas a história do herói ainda não acabou para nós.
Algum tempo depois Lugalbanda ainda estava a viver nas montanhas. Num dado dia encontrou uma cria do Pássaro Anzu [uma criatura famosa dos mitos suméricos, uma grande águia com cabeça de leão, que pode ser vista na imagem anterior], que alimentou e de quem cuidou durante algum tempo. Quando o respectivo Pássaro Anzu voltou, ficou tão feliz com os actos do herói que decidiu recompensá-lo com um dom semelhante à super-velocidade, mas que ele não deveria divulgar a ninguém.
Voltando então à civilização, Lugalbanda reencontrou os seus companheiros do exército, que ainda estavam a tentar atacar a mesma cidade. Face à lentidão do confronto, o Rei Enmerkar decidiu procurar o auxílio da deusa Inana [i.e. Ishtar], enviando o herói em busca dela. A deusa respondeu-lhe com uma parábola, mas o resto da história está perdido.
Pouco mais sabemos sobre este Lugalbanda, com excepção de uma informação um tanto ou quanto curiosa - no Épico de Gilgamesh, o famoso herói refere-se a si mesmo como "filho de Lugalbanda" (e de uma deusa). É provável que esse matrimónio tomasse lugar depois dos episódios que nos chegaram nas fontes da Suméria, mas é pouco mais do que uma suposição. Mas, pelo menos, este mito não foi totalmente perdido nas areias dos tempos...
Estamos a considerar conduzir alguns períodos temáticos neste espaço. Como experiência, Setembro de 2019 será um mês dedicado a um único tema - durante as próximas semanas iremos falar de alguns dos mais curiosos mitos, lendas e histórias que chegaram aos nossos dias. Preparados?
Enquanto ajeitamos a proverbial toga, aqui fica um pequeno desenho animado de 1960, que conta, de uma forma adaptada para crianças e muito breve, a história dos últimos dias da Guerra de Tróia. Como um comentador online disse, "naturalmente que deixaram de lado as incontáveis mortes e a violação de Cassandra", o que nos parece bem justificável.
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