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Segundo o mito, Astérion era esposo de Europa, a mesma mulher que fundou a civilização de Creta e que se tornaria a primeira monarca da ilha. Até aqui, a história é já conhecida e não apresenta qualquer surpresa.
Apesar de uma tal predibilidade, a continuação do mito apresenta-nos algumas dúvidas bastante curiosas. De acordo com alguns dos mitos, Astérion também era o nome dado ao Minotauro, uma das mais famosas criações que a ilha tinha para oferecer. Esta igualdade de nomes permite-nos teorizar uma relação entre ambos, de forma que ambas as figuras até se podem confundir e tornar uma só.
Deste modo é-nos possível pensar se Europa não terá casado com o hediondo Minotauro, que tendo em conta a mais famosa versão do mito os faria parentes de sangue, numa relação em que a famosa heroína seria avó adoptiva do monstro, bem como amante do mesmo.

Analisando esta teoria, há que ter em mente que os casamentos que efectuavam numa idade muito anterior à actual. Assim, vamos presumir que todos os intervenientes teriam 15 anos, na altura dos respectivos casamentos. Isto daria uma idade de 45 anos a Europa, que lhe permitiria casar com o Minotauro quando este tivesse uma idade de apenas 15 anos. Tal situação poderia obviamente ocorrer, mas devido à rigidez excessiva da regra assumida acima, é demasiado improvável.Deve-se ter em conta que a figura de Europa parece desaparecer por completo durante o reinado de Minos, um dos seus três filhos, ausência que dá a entender uma possível morte, invalidando esta teoria.
Vendo a questão de outro prisma, a atracção desta monarca pelos bovinos era já conhecida, como pode ser visto no mito que a liga a Zeus, o que possibilitaria uma relação entre a mesma e curiosa criatura que viria a habitar a ilha de Creta. Contudo, continua a existir a problemática de uma cronologia errónea, em que demasiado é assumido sem provas.

Um pormenor muitas vezes ignorado é a falta de informação sobre o próprio Astérion, que apesar de se ter casado com a famosa Europa é uma figura demasiado ausente, relativamente à qual pouco se sabe. Será talvez esta a maior falha da teoria que aqui se propõe, um problema que nos leva a uma provável solução: a existência de uma personagem que toma este nome  torna-se improvável, se a considerarmos como marido de Europa. Poderá ter sido uma adição tardia ao mito, sob a forma de um nome que se viria a confundir, mais tarde, com o do famoso Minotauro.
Assim sendo, é improvável a existência de uma relação, em termos amorosos e sexuais, entre esta besta e Europa, existindo apenas uma confusão nos nomes de dois personagens que, a meu ver, são totalmente distintos.
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Passada a altura da Páscoa, achei que seria interessante escrever um artigo sobre este tema.

Segundo se diz, há mais de 2000 anos Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, o que daria a toda a humanidade a certeza de uma vida após a morte. Esta improvável ressureição é-nos hoje apresentada como algo único, infalivelmente verdadeiro, capaz de nos apresentar provas que as religiões passadas, unicamente politeístas, nunca tinham dado.

Contudo, num estudo mais aprofundado, é possível verificar que tais presunções são falsas. Apesar da religião greco-romana e egípcia se apresentar como maioritariamente politeísta, era também assolada por diversos cultos regionais. Em Delfos, por exemplo, era dada uma maior ênfase a Apolo. Em determinadas partes do Egipto, o culto de Rá, deus do sol, tinha mais importância que todas as outras.

Seguindo estes padrões, é possível compreender que estas religiões viriam, mais tarde, a tomar uma carácter menos genérico, mais focado em determinados deuses e nos mitos que lhes eram atribuídos. Os Mistérios de Elêusis, um dos mais importantes cultos da Grécia Clássica, dava especial importância à constante morte e ressureição de Perséfone, esposa de Hades, cuja constante transferência entre o reino dos vivos e dos mortos era considerada como uma metáfora para a própria vida. O mesmo acontecia com Dioniso, que sob a forma de Zagreu nasceria por duas vezes.
Nas religiões do Egipto Antigo, também o reaparecimento diário de Rá, sob a forma de uma possível morte e renascimento, era considerado como uma certeza da vida após a morte.

É-nos assim permitido compreender que a ressureição, enquanto elemento principal de uma religião, já existia muito antes do Cristianismo, podendo ter sido adaptada para a inclusão nessa nova religião.
Quanto ao politeísmo, é interessante verificar que o problema greco-romano também se aplica nos dias de hoje. Apesar de o Cristianismo, enquanto religião, venerar uma única divindade, também apresenta um curioso interesse por divindades regionais, chamadas "Santos", cujo papel parece ser o mesmo, o de protector e representante de dons regionais. Tal como os touros eram venerados na Creta Clássica, em virtude dos mitos que os relacionavam com o próprio Zeus, também Santo António é venerado na Lisboa contemporrânea, sob a forma de patrono dos casamentos. Além deste simples exemplo, existem muitos outros...

Como é fácil verificar, as coisas não mudaram assim tanto, com as religiões modernas a se apresentarem como muito similares às antigas, uma verdade que tende hoje a ser ignorada.

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Hoje dei por mim a pensar nas infelicidades de que Édipo e Cassandra, duas figuras com pouca relação entre elas, vieram a sofrer.

Édipo, uma das mais famosas figuras da mitologia grega, teve o seu destino marcado, de forma involuntária, pelo facto de matar o pai e vir a casar com a própria mãe, actos que perpetrou sem qualquer conhecimento.
Cassandra, filha do rei Príamo de Tróia, era dotada do dom da profecia, se bem que as pessoas jamais acreditassem nos presságios que ela lançava, em virtude de uma maldição de Apolo.

Enquanto que Édipo estava ao corrente de que iria matar a pai e casar com a própria mãe, foi totalmente incapaz de evitar o destino, por mais que tentasse. Quanto a Cassandra, capaz de prever a conquista de Tróia e a sua própria morte, entre muitos outros eventos, sempre se apresentou como incapaz de evitar esses desfechos.

Durante a guerra de Tróia, Cassandra atingiu um ponto de quase loucura, incapaz de aceitar o seu destino. Também Édipo, na altura em que compreendeu que todo o seu destino se tinha cumprido, passou a deambular pela terra, seguido pelas Erínias, num estado em que preferiu optar pela cegueira, para não ver o triste destino que lhe estava reservado.

Enquanto que a famosa filha de Príamo originou, de certo modo, o seu triste fado, a vida de Édipo poderia ser resumida como a de um mero espectador, em que os eventos vão ocorrendo e o herói não tem qualquer poder sobre os mesmos.

Assim, apesar do final da profetisa de Tróia ser tremendamente triste, visto que ela sabia como, quando e onde iria morrer, grande parte da vida de Édipo é marcada pelo cumprimento inevitável de um destino cruel, demonstrando o seu sofrimento como inevitável e injustificado.
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