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Que as obras "Lúcio, ou o Burro" (uma obra de Pseudo-Luciano) e "O Burro de Ouro" (ou "A Metamorfose", de Apuleio) são similares é relativamente fácil de ver, até porque não abundam obras em que a personagem principal é transformada em burro, mas numa leitura comparativa das duas podem ser notadas muitas outras semelhanças. São múltiplos os episódios extremamente parecidos, mas existe também um elemento que me pareceu significativamente diferente - o final.

 

Enquanto que na obra de Apuleio o burro é transformado de volta à sua forma original com algum auxílio divino, o burro de Pseudo-Luciano (e uso este nome por não se ter a certeza da autoria da obra) parece contar apenas consigo próprio. Depois, enquanto que o primeiro se torna sacerdote de Ísis, o segundo volta para os braços da mulher com quem, sob a forma de um burro, tinha tido relações sexuais, a qual acaba até por rejeitá-lo.

 

Sem querer revelar demasiado da trama de ambas as obras, as múltiplas semelhanças de episódios levam-me a pensar que poderá ter existido uma tradição comum em que ambas as obras se basearam, ou que uma delas se baseie na outra. Já que a história de Apuleio é bastante mais detalhada e desenvolvida, é possível que provenha da outra e a tente adaptar, melhorar, para um novo público. Contudo, se se tiver em conta que ambos os autores (ou, para ser correcto, os possíveis autores) são da mesma época, é muito mais provável que ambas se baseiem numa história popular.

 

Para terminar, caso um leitor queira conhecer a história em questão, importa dizer que pode optar por uma obra ou pela outra. Se a obra de Apuleio é muito mais famosa, isso prende-se com a riqueza e detalhe da mesma; por outro lado, "Lúcio, ou o Burro" apresenta uma trama mais sucinta, mais rápida, mais fácil de ler, que provavelmente agradará a quem procura uma obra mais simples.

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Na leitura desta obra deparei-me com alguns elementos que seriam interessantes mencionar por cá.

 

No livro I o autor refere vários autores gregos importantes, juntamente com algumas das suas ideias relativas ao divino e à criação do mundo. Assumo que esta temática poderia até continuar nos livros seguintes, mas infelizmente os livros II e III estão, à data de escrita destas linhas, perdidos; ainda assim, esta secção permite-nos saber, de forma extremamente sucinta e simples, as ideias de cada um desses autores sobre o tema em questão.

 

Depois, no livro IV o autor fala essencialmente sobre astrologia e magia. Essa parte da obra tem alguns momentos interessantes para quem queira compreender os fundamentos e evolução dessas duas áreas, bem como algumas das muitas críticas que lhes podem ser feitas.

 

Mais à frente, em VI.3, é contada a história de Apseto o Líbio, cujo resumo aqui incluo como simples curiosidade:

Apseto queria ser um deus. Incapaz de atingir esse propósito, decidiu então dar a aparência de que se tinha tornado um deus. Capturou vários papagaios e ensinou-os a dizerem "Apseto é um deus", antes de os libertar novamente. Estes espalharam-se por toda a Líbia, juntamente com a notícia, fazendo com que os nativos o vissem realmente como um deus, e o tratassem como tal.

Eventualmente, todo o esquema foi percebido por um grego, que ensinou aos mesmos pássaros uma nova expressão, fazendo-os revelar todo o esquema. Como punição pelo seu acto, Apseto foi queimado vivo.

 

Em VI.14, é-nos recontada a história que relaciona Simão Mago com a figura de Helena de Tróia. É curioso constatar que muitas ideias do Gnosticismo parecem vir da literatura grega, como claramente evidenciado não só pelas ideias desta figura mas também pelas de muitos outros autores mencionados nesta mesma obra.

 

Finalmente, no livro X é feito um resumo do conteúdo dos livros anteriores. Quem não desejar ler toda a obra, por apenas ter um interesse geral nesta ou naquela seita gnóstica (e importa referir que esta expressão é aqui usada sem qualquer intenção pejorativa), pode somente ler esse capítulo, acessível neste link.

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Numa das obras a que tive acesso é mencionada Teogonia, de Antífanes. Tanto a obra como o autor são relativamente desconhecidos nos dias de hoje, mas a sua versão da criação do mundo é deveras curiosa. Vejamos:

 

O Caos foi produzido através da Noite e do Silêncio. Depois, o Amor nasceu do Caos e da Noite, seguido pela Luz. Seguiu-se todo o resto da primeira geração dos deuses, uma segunda geração e a criação do próprio mundo. O Homem seria, então, criado pela segunda geração de deuses.

 

Infelizmente, pouco mais se sabe sobre esta versão da criação do mundo, mas Ireneu refere que se parecia bastante com o mito da criação do  Valentianismo (que, segundo esse autor, "mudou somente os nomes das coisas").

 

Esta é uma versão do mito da criação que, como muitas outras, parece fazer total sentido, mas há um outro detalhe que se deve ter em conta: contrariamente ao que sucede nos dias de hoje, em que a maior parte das religiões tem um cânone definido - irrefutável, indiscutível e totalmente fixo - o mesmo não sucedeu até aos primeiros séculos da nossa era. Assim, são múltiplos os autores gregos e latinos que, uma e outra vez, nos mostram diferentes versões da criação do mundo. Não existem versões certas e erradas, mas essencialmente versões concorrentes, algumas mais populares que outras. Se Teogonia, de Hesíodo, é provavelmente uma das mais populares e famosas, importa realmente lembrar que também existem muitas outras.

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Quanto confrontado com o nome de Apuleio, qualquer bom estudante (ou amante) das Clássicas se lembrará da obra mais famosa deste autor - "A Metamorfose", também conhecida como "O Burro de Ouro". Contudo, sobreviveram até aos dias de hoje mais algumas obras deste autor; neste caso específico falarei a propósito de Sobre o deus de Sócrates, uma pequena obra na qual nos é falado sobre os daemones, figuras relativamente obscuras (e bastante ausentes) da mitologia grega e romana.

 

Nesta obra, o autor começa por recordar algumas das ideias de Sócrates, chegando eventualmente ao ponto de referir os daemones como sendo as figuras que faziam a ligação entre os seres humanos e os deuses. Em seguida, distingue vários tipos de daemones:

- Eudaemones - espíritos que acompanhavam as pessoas na sua vida;

- Lemures - espíritos dos mortos;

- Lares - espíritos que protegem uma família (e/ou habitação);

- Larvae - espíritos que foram condenados a vaguearem pela terra, por causa das más acções cometidas em vida;

- Manes - espíritos cuja condição é desconhecida.

(Note-se que existem muitas mais designações, mas aqui só falei das mencionadas nesta obra)

 

Se bem tratados, estes espíritos poderiam influenciar a vida de uma pessoa, aparecendo-lhe em sonhos, dando-lhe conselhos e, no geral, cuidando dela. Nesse sentido, é dado não só o exemplo do próprio Sócrates como o de Ulisses, a quem a Sabedoria aparecia sob a forma poética de Minerva. Até certo ponto, creio que seria correcto ver estes daemones como uns antigos "anjos da guarda", mas de onde poderá ter vindo a sua evolução para uma palavra de sentido tão negativo como "demónio"?

 

Usando-se um dicionário, poderão ver-se duas definições de "demónio" com significados quase opostos. Por um lado tem-se a referência a "cada um dos anjos maus que estão às ordens de Satanás", mas por outro uma mais antiga alusão a "divindade, génio (bom ou mau)". Somos assim levados a uma oposição essencialmente cultural; se, anteriormente, os daemones poderiam ser vistos como bons ou maus, no Cristianismo tornam-se imperativamente maus (para um outro exemplo de um fenómeno similar veja-se este post), apesar de alguns dos seus aspectos e funções terem sido adaptados para servirem a nova religião.

 

Será então correcto equiparar um santo padroeiro a uma forma específica de daemon? Parece-me que sim, já que ambos têm funções muito similares - não só estabelecem a ligação entre o reino físico e o dos deuses como também fornecem protecção aos devotos - apesar de surgirem hoje como símbolos de ideais quase opostos.

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