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Fornax

13.01.11

Esta era a deusa romana dos fornos e da cozedura, mas não tinha (tanto quanto pude averiguar) quaisquer mitos associados. Contudo, o seu festival (a Fornacalia) tinha lugar numa data variável do mês de Fevereiro.

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De entre as figuras de mitologia clássica, creio que poucas são tão singulares como Jano. Este deus, que não existia na mitologia grega e que surge com os romanos, apresenta em todas as imagens duas caras que apontam em direcções opostas.  Então, no primeiro livro de Fastos, Ovídio conta-nos a história desta divindade. Segue-se uma breve referência à mesma:

Os Antigos chamavam Caos a esta divindade que, originalmente, não tinha sequer forma. Aquando da criação dos elementos que hoje temos, esta bola de massa transformou-se então no corpo de um deus.

 

Mas porquê a sua forma singular? Também isso nos é contado por Ovídio:

Tal como as portas têm dois lados, e um porteiro fica por fora, também este deus era então o porteiro da corte divina, e com as suas duas faces podia então olhar para lugares opostos, tal como Hécate (com suas três faces) podia vigiar atentamente as intersecções das estradas.

 

Se entende, assim, que a singular forma de Jano tinha directamente a ver com a sua função. Contudo, as considerações de Ovídio levam-me a concluir algo muito mais curioso: contrariamente ao que se poderia pensar, a omnipresença (e, por conseguinte, também a omnipotência) não era uma características dos deuses gregos e romanos.

 

Em relação a este mesmo deus, é também clarificado um outro ponto. Na altura, existia em Roma um templo dedicado a este deus, cujas portas apenas fechavam em tempo de paz (algo que, segundo Tito Lívio, só sucedeu duas vezes em oito séculos). E porquê, esse mudança? Segundo Ovídio, que aqui continua a falar com a voz do deus, eram duas as razões: para que quando alguém vai para a guerra também encontrasse o caminho de volta aberto, e para que a paz não fugisse pelas portas abertas do templo.

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Esta obra pode ser dividida em dois momentos essenciais - primeiro, surge uma epístola de Porfírio para um tal Anebo, de origem egípcia; depois, num segundo tempo, surge Abamon, que tenta responder às muitas questões postas nessa mesma epístola. O tema de ambos os textos é óbvio - os mistérios - mas a que se refere precisamente a expressão que dá nome à obra?

 

Bem, "os mistérios" aqui abordados são os divinos. O autor fala de múltiplas questões com as quais os autores da altura se preocupavam, tais como a possibilidade de somente alguns deuses terem corpo físico (veja-se o Sol e a Lua), ou a forma como funcionavam as predições do futuro. São virtualmente incontáveis as muitas questões tratadas nesta obra, o que a torna bastante importante para quem pretenda compreender dados aspectos da existência, ou dos mistérios, divinos da Antiguidade.

 

Talvez deva referir que a mitologia está quase ausente da obra; existe uma ou outra referência a deuses específicos, aos daemones, até mesmo a uma hierarquia divina, mas esta é uma obra mais filosófica, onde as histórias (se é que podemos considerá-las como tal) parecem não ter lugar.

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Creio que nenhuma obra antiga contra o Cristianismo chegou completa aos dias de hoje. Ainda assim, são várias as que sobreviveram, de uma forma parcial, através de citações ou refutações por parte dos adeptos do Cristianismo.

 

Numa dessas obras, da autoria de Celso e citada profusamente por Orígenes em Contra Celso (trata-se de A Palavra Verdadeira, para quem estiver curioso), surgem as seguintes referências:

 

- Os Cristãos conduziam reuniões secretas (que, de acordo com a lei da altura, eram proíbidas). Presumo que o autor se esteja a referir a algo que, em Português, poderá ser traduzido como as "Ceias do Senhor", uma refeição ritualística semelhante à Última Ceia de Jesus.

 

- Os Cristãos assentam somente na fé, mais do que na razão.

 

- Jesus não nasceu de uma virgem. Em vez disso, Maria foi abandonada pelo marido, José, na sequência de uma infidelidade com um soldado chamado Pantera/Pandera. Esta foi então viver para o Egipto, onde Jesus eventualmente aprendeu as artes mágicas características dessa civilização. Este conhecimento fez com que, mais tarde, se considerasse um deus.

 

- Pense-se na falta de lógica na fuga de Jesus para o Egipto. Se este fosse realmente um deus, porque temeria a morte, porque necessitaria da intervenção dos anjos?

 

- Comparados com os actos admiráveis de Perseu, Minos, etc, Jesus nada de admirável fez quando lhe pediram para provar, no templo, que era mesmo filho de deus.

 

- Assumindo que Jesus realmente fez os milagres que lhe são atribuídos, como se poderia explicar que muitas outras pessoas com conhecimento das artes egípcias fizessem actos similares, desta vez nos mercados e a troco de algum dinheiro? Então e aqueles que usavam artifícios similares à ressureição? Seriam todos eles também filhos de um dado deus?

 

- Quando Jesus foi crucificado, os seus apóstolos fugiram e negaram que o conheciam. Com isso em mente, porque deveriam os Cristãos então morrer com o seu mestre? Porque acreditariam as pessoas nele agora que estava morto, se não acreditaram quando ele estava vivo?

 

- As crenças dos Cristãos e dos Judeus diferem somente na identidade do seu Salvador - os primeiros diziam que este já tinha vindo, enquanto que os segundos referiam que ele ainda estava para vir. Além disso, tal como os Judeus desprezavam a religião dos seus antecessores (os Egípcios), também os Cristãos desprezavam agora a dos Judeus.

 

- Grande parte das componentes filosóficas (se é realmente correcto dar-lhes esse nome) de Jesus parecem já vir de Sócrates e Platão.

 

 

Já em Contra os Cristãos, de Porfírio (outra obra que não sobrevive, mas que é citada por vários autores da altura), aparecem as seguintes referências:

 

- Jesus é acusado de inconstância, já que muitas vezes dizia algo e fazia algo diferente.

 

- Alguns dos milagres mencionados nos Evangelhos são vistos como sendo para ignorantes, já que um dado lago é até confundido com um mar.

 

 

Vai para além do conteúdo deste blog a crítica destas referências (além disso, qualquer pessoa com o mínimo de conhecimentos de Teologia conseguirá certamente fazê-lo), mas a alusão a estes elementos por cá serve, acima de tudo o resto, para demonstrar um interessante confronto de ideologias:

- De um lado temos os opositores do Cristianismo, que se servem da razão para criticar, com argumentos discutíveis e como já faziam há séculos, uma nova visão do mundo e do próprio divino;

- Do outro temos os Cristãos, que mais do que recorrem à lógica parecem assentar os seus argumentos na fé, no invisível, numa crença - por vezes até absurda - de que aquilo que escrevem é que está correcto, e que a sua interpretação é a verdadeira, a única, a aprovada por uma nova entidade divina que tanto veneram.

 

Pessoalmente, acho este confronto de ideias, de diferentes visões, extraordinário. De um lado temos a razão, do outro a fé, e é com bastante pena que constato que hoje temos pouco acesso a esse debate de ideias. Sim, ainda existem fragmentos de múltiplas obras representativas deste confronto, primeiro com os Pagãos e depois com os Gnósticos, mas seria extremamente interessante ter-se um maior acesso aos argumentos esgrimidos por um dos lados do confronto, juntamente com a resposta que lhe é dada pelo outro lado.

 

Vamos a um exemplo bastante simples. Se, numa qualquer conversa de café, se ouvir dizer "a minha ex-namorada nunca teve relações sexuais, mas engravidou", o que se pensará? Provavelmente que existiu uma traição da parte dessa ex-namorada. Contudo, se a frase for alterada para "Santa Maria nunca teve relações sexuais, mas engravidou", parece tornar-se aceitável, lógica, vera. Então, qual é a diferença entre ambas as afirmações? Bem, no segundo caso temos acesso a um dado contexto, no qual um evento impossível se torna até bastante possível. É mesmo aqui que a fé entra em jogo - se os argumentos lógicos, apoiados em provas reais, não nos podem levar a nenhum lado, a crítica é feita com base em algo mais, seja fé, mera opinião pessoal, ou algo mais. Fé e lógica são então incompatíveis, como se pode entender através de alguns dos exemplos de Celso e Porfírio acima referidos. No seu âmago, parece-me que são esses os verdadeiros confrontos entre os Pagãos e os Cristãos, o da lógica contra a fé, a oposição do debate ao cânone...

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Com autoria atribuída a Aristóteles, esta é mais uma obra de paradoxografia. Tal como as outras de que já falei por cá anteriormente, trata-se então de uma colecção de materiais sobre vários temas (animais, plantas, minerais e geografia, entre outros). Se, de um ponto de vista da mitologia, esta obra parece não ter muito interesse, ocasionalmente o autor refere tradições tradições religiosas importantes, como a existência de um templo para celebrar um acto de um dado deus, ou um monumento consagrado a uma dada figura.

 

Além disso, esta obra parece até ter uma expressão chave - "dizem que". Repetida em grande parte dos parágrafos, é uma expressão que dá a entender que, mais do que relatos na primeira pessoa, o autor está somente a repetir coisas que ouviu dizer, o que é normal numa cultura que assente bastante na tradição oral, contrária ao que temos nos dias de hoje.

 

Para terminar, talvez eu deva referir que alguns dos relatos de outras obras de paradoxografia se repetem por aqui, com algumas alterações mínimas; por exemplo, em relação aos pássaros da Diomedeia é dito que se mantém calados perante os gregos e atacam os bárbaros, enquanto que em outras obras parecem prestar homenagem ao primeiro povo, ignorando todos os outros. Seria interessante ver a evolução dessas histórias, mas sem se ter a certeza da autoria da obra, ou quaisquer outros dados mais seguros, acaba por ser impossível fazer um estudo sobre como cada uma dessas histórias evoluiu, algo que certamente enriqueceria esta obra, bem como as outras de que já por cá falei.

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