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Esta é uma obra de Filóstrato que acaba por ser, para todos os efeitos, difícil de analisar (algo que, portanto, não pretendo fazer aqui). Digo-o não tanto pelo estilo literário mas pelo seu próprio conteúdo, já que apresenta sequência filosóficas e descrições de viagens com algum interesse, mas também outro tipo de momentos bastante menos importantes, talvez até enfadonhos para os leitores modernos. Não me atrevo a dizer que todos os elementos constantes na obra sejam efectivamente verdade, mas a filosofia pregada por Apolónio acaba por ser bem mais simples do que (e, ainda assim, talvez tão interessante como) a de autores anteriores.

 

Para mencionar um exemplo, quando confrontado com um vulcão, Apolónio descarta a antiga possibilidade de que exista um enorme monstro debaixo do mesmo, dizendo algo como "com tantos vulcões que existem, como poderemos associar uma criatura a cada um deles?". Este é um certo cepticismo perante a mitologia que é apresentado ao longo da obra, mas que nem sempre tem o mesmo resultado; se, numa visita à Índia, é dito a Apolónio que criaturas como a Manticora não existiam por lá, uma posição contrária é dada à existência dos Pigmeus e da Fénix, entre outros. Também, acaba por ser este próprio filósofo a referir que falou com um fantasma de Aquiles, apenas para mais tarde descartar outros episódios mitológicos como meras fantasias. Existe, então, aqui uma visão quase bipolar da mitologia (e da própria religião da época), já que alguns elementos são vistos como reais mas outros como invenções humanas; sobre Hércules e Dionísio, por exemplo, é dito que existiam vários, sendo a história que conhecemos, de uma ou de outra forma, fruto de fusões entre os relatos dos eventos passados com essas figuras.

 

Ainda assim, se ao longo da obra são declarados alguns milagres à figura de Apolónio, também importa dizer que esses têm sempre um carácter muito secundário. Para dar um exemplo, algures num dos livros o herói ressuscita uma noiva que estava para casar, mas esse evento parece ser considerado como menor, já que pouca ênfase lhe é dada. Porém, algumas deambulações filosóficas prolongam-se por várias páginas, e são muito correctamente inseridas no contexto da história.

 

Atenção, como já referido, não me atreveria a dizer algo sobre a verdade (ou falta dela) dos eventos que são referidos nesta obra, e nem sei até que ponto podem ser considerados como fiéis ao que realmente sucedeu, mas tenho de confessar que esta obra tem alguns momentos extremamente interessantes, mais focados para uma leitura por episódios específicos do que para uma leitura integral. Vale a pena ler pelo menos pelos episódios filosóficos, se por nada mais...

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Giges da Lídia

23.04.11

Aqui fica um curioso mito que nós é contado por diversos autores, entre eles Platão e Cícero:

 

Giges era inicialmente pastor na região da Lídia. Um dia, e na sequência de um terramoto, encontrou uma caverna, no interior da qual estava um anel de ouro, o qual tinha a capacidade de tornar o seu possuidor invisível. Com a ajuda desta capacidade mágica, Giges acabou por seduzir a rainha local, matar o rei e até tomar o lugar deste.

 

Tanto na República como em Os Ofícios (dos autores respectivamente mencionados acima), este pequeno mito tem um objectivo similar, o de demonstrar que os homens, sejam eles essencialmente bons ou maus, apenas reagem de forma correcta por estarem agrilhoados pela lei e pelo medo de punição. Assumindo, como na obra de Cícero, a existência real deste anel, a pessoa que o usasse ganharia um poder quase divino; ao não poder ser descoberta e, portanto, penalizada pelos seus actos, poderia fazer o que muito bem entendesse. Se Giges, um simples pastor, chegou até rei através deste desrespeito pela lei instituída, pela lei dos homens, quem ousaria defrontá-lo?

 

O mito parece-me, então, ilustrar uma situação em que é demasiado simples dizer "eu não faria o mesmo"; ainda assim, será que algum possuidor desse anel teria a capacidade moral para fazer o correcto? A resposta, essa, cabe a cada um dos leitores, mas o debate constante na obra de Platão leva-me a crer que não, que "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente", fazendo minhas as palavras de um dado autor do século XIX. Se, por intervenção divina, também a cada um de nós fosse revelado tal poder, é muito provável que não tivéssemos a fibra moral necessária para não o usar, fosse para o bem ou para o mal, já que este nos elevaria bem acima das leis dos homens...

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Normalmente, quando alguém procura provas sobre a existência história de Jesus Cristo depara-se, uma e outra vez, com uma menção às palavras de Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas. Apesar de existirem várias menções a figuras de nome "Jesus", aquela que para nós é mais relevante acaba por ser mencionada somente duas vezes. Veja-se, então, uma tradução em inglês dessas passagens:

 

 

Now there was about this time Jesus, a wise man, if it be lawful to call him a man; for he was a doer of wonderful works, a teacher of such men as receive the truth with pleasure. He drew over to him both many of the Jews and many of the Gentiles. He was [the] Christ. And when Pilate, at the suggestion of the principal men amongst us, had condemned him to the cross, [in April 3, A.D. 33] those that loved him at the first did not forsake him; for he appeared to them alive again the third day; [April 5, A.D. 33] as the divine prophets had foretold these and ten thousand other wonderful things concerning him. And the tribe of Christians, so named from him, are not extinct at this day.

Antiguidades Judaicas, livro XVIII, 3.3

 

 

(...) Festus was now dead, and Albinus was but upon the road; so he assembled the sanhedrim of judges, and brought before them the brother of Jesus, who was called Christ, whose name was James, and some others, [or, some of his companions]; and when he had formed an accusation against them as breakers of the law, he delivered them to be stoned (...)

Antiguidades Judaicas, livro XX, 9.1

 

 

A primeira passagem, a mais conhecida das duas, já foi profusamente comentada ao longo dos séculos. Pessoalmente, acho que a referência a "Ele era o Cristo" é uma interpolação mais recente, até pela forma como uma expressão semelhante é usada na segunda passagem. De um ponto de vista muito básico, pense-se até no seguinte: se esse Jesus era efectivamente "o Cristo", na acepção judaica da expressão, porque lhe dedicaria o autor tão pouca informação, ainda para mais quando dedica dezenas de parágrafos a outras figuras?

 

Quanto à segunda passagem, bem menos conhecida, tem interesse pela menção ao facto de Jesus, "que era chamado Cristo", ter um irmão. Compara-se a referência a este Jesus com a anterior e chega-se a uma ligeira alteração de palavras que diz muito mais do que poderíamos esperar.

 

Quanto ao resto desta obra - Antiguidades Judaicas - pareceu-me ter algum interesse pelo facto de apresentar uma história do povo judaico um pouco diferente daquela que aparece no Antigo Testamento. Do ponto de vista da Mitologia Clássica esta obra talvez não tenha muito interesse, mas a referência a alguns costumes e tradições judaicas são certamente muito importantes para quem estiver estudar a história do Judaísmo.

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