Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Se numa qualquer conversa ouvirmos falar de sereias, o nosso imaginário tende a levar-nos para uns seres meio-mulher, meio-peixe, de voz encantadora. Mas... e se esta ideia estivesse incorrecta?

 

Inicialmente existiam duas criaturas muito similares. Ambas apresentavam elementos comuns - tinham uma voz encantadora e eram metade-mulher - mas, depois, havia algo que as distinguia - a parte inferior do seu corpo. Uma delas, aquela que para nós é a mais conhecida, era metade-peixe, mas havia uma outra figura que era metade-pássaro. As primeiras eram chamadas Sirenas, enquanto que as segundas tinham vulgarmente o nome de Sereias.

 

Até aqui tudo bem, mas à medida que se vão consultando bestiários de diferentes épocas nota-se um fenómeno interessante: apesar de começarem como figuras totalmente distintas, depois parece existir uma fusão de ambas e uma confusão dos seus nomes, algo que é seguido pelo desaparecimento de uma delas.

 

Isto poderá parecer estranho, mas pense-se então em mitos nos quais uma dessas figuras está presente. Um dos mais famosos é certamente o episódio da Odisseia em que a personagem principal é presa ao mastro do navio de forma a que consiga ouvir, sem sofrer qualquer dano, o canto destas criaturas. Assim, veja-se um vaso onde é mostrado o episódio em questão:

 

 

É demasiado fácil constatar que as figuras mitológicas aqui presentes são metade-mulher (identificadas pela ausência de barba) e metade-pássaro. Também, uma das personagens humanas está presa ao mastro do navio, algo que nos permite identificar a cena com uma ainda maior precisão. Então, que criaturas serão estas? De acordo com grande parte das traduções portuguesas (a título de exemplo, veja-se a disponível neste link), são sereias, apesar de não terem - como é fácil reparar - uma metade inferior semelhante à dos peixes.

 

Assim se compreende que, como já referi acima, ao longo dos tempos as sirenas se tenham transformado em sereias, enquanto que as sereias originais acabariam por desaparecer quase totalmente do nosso imaginário. Agora, falta explorar o porquê... não é possível concluir algo com uma total certeza, mas parece-me que esta alteração tem a ver com o contexto mitológico de ambas as figuras, provavelmente até ligado com o episódio mencionado acima. Neste contexto faz mais sentido tratarem-se de mulheres-peixe do que de mulheres-pássaro, e talvez seja por razões como essa que o nome transitou de umas para as outras. Veja-se que na arte medieval ambas as figuras se tendem a confundir, e só são distinguidas pelo seu contexto (como pode ser constatado nas múltiplas imagens disponíveis neste link), e esta é uma confusão que chegou aos dias de hoje, em que as sereias são vulgarmente mostradas como tendo uma metade inferior semelhante à dos peixes.

 

 

Voltando-se então à questão inicial, serão as "sereias" realmente seres meio-peixe, meio-mulher? Se originalmente essa era uma ideia incorrecta, foi tornada correcta pelo peso das anos; contudo, se quisermos ser mais precisos e correctos, uma sereia é um ser meio-pássaro, meio-mulher, enquanto que a sirena junta à sua parte feminina uma metade de peixe.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

É muito provável que o simples título desta obra assuste muitos leitores, já que o mundo de hoje tem a etimologia das palavras reservada para um conjunto muito selecto de estudiosos, mas existe uma boa razão para a sua menção por aqui. Mais do que se cingir a uma simples e crua compilação de palavras e suas etimologias, Isidoro de Sevilha compôs esta obra de uma forma que me parece muito ligeira, quase prazerosa de ler.

 

Em detrimento de algo semelhante a um dicionário, o leitor pode então aqui encontrar uma obra que mais se assemelha a uma enciclopédia, e em que a própria etimologia das muitas palavras parece tomar um lugar secundário. Dividida em 20 livros, a obra aborda toda uma plêiade de temas que, de uma e outra forma, acabam por ser muito interessantes, tais como a origem dos dias da semana, dos meses do ano, dos signos do zodíaco, de muitas obras de índole religiosa, etc. Nesse sentido, mais do que bafejar as pessoas com uma referência aos múltiplos livros da obra, ou de as incomodar com uma profusamente aborrecida análise da mesma, gostaria de deixar uma simples recomendação: a leitura desta obra fica para todos aqueles que quiserem descobrir a origem de muitas das palavras que ainda hoje usamos. Consultada, mais do que lida, esta é uma obra extremamente importante para todos aqueles que quiserem descobrir pequenas pérolas sobre a criação do nosso mundo e de muitas das suas palavras.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tal como uma obra que já cá foi abordada há uns tempos, também esta é de um autor desconhecido. Claramente não é um texto de Luciano, até porque contém referências a elementos que no tempo de Luciano ainda não tinham tomado lugar, mas também não é por isso que se torna menos interessante.

 

Quanto ao texto em si, o seu elemento essencial é um diálogo entre duas personagens, durante o qual acaba por surgir um juramento. Uma das personagens tenta fornecer à outra um conjunto de deuses pelos quais poderia fazer este seu juramento - Júpiter, Apolo, Neptuno, Mercúrio, Minerva, etc. - os quais são descartados, um após o outro, por várias razões, muitas das quais simplesmente hilariantes. Então, acaba por lhe ser sugerido um juramento pela Santíssima Trindade, o que também leva esse diálogo a algumas questões adicionais.

 

 

Se, por um lado, este é um diálogo com alguns aspectos filosóficos e da ordem teológica, também acaba por ser importante ter em conta a pautada ironia com que ambas as religiões são aqui vistas. Se existem múltiplas críticas aos deuses romanos, o mesmo acaba por se passar com o Deus do Cristianismo, também ele aqui mostrado como tão frágil e absurdo como alguns dos seus antecessores.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do ponto de vista da mitologia esta obra tem como principal interesse as referências, feitas até quase no início do texto, a vários mitos da criação do Homem. No geral, esses são mitos até bastante conhecidos - criação por Prometeu, criação através dos dentes de um dragão, etc. - aos quais o compilador faz simples alusões.

 

Porém, essa simplicidade temática, que se prolonga depois para o resto de toda a obra, demonstra-nos algo que o próprio autor admite: mais que um escritor, ele é um compilador de materiais de outros autores, que juntou nesta obra para oferecer ao seu patrono. As temáticas, como o próprio nome da obra indica, são maioritariamente relativas a aniversários, à vida humana, seu começo e algumas efemérides importantes. Existem, também, vários capítulos relativos à música, a elementos da filosofia, etc...

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog