Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Dentro de alguns dos temas por cá já tratados, sempre achei curiosa existência de um dado grafito em Roma. Aqui fica uma reprodução do mesmo, retirada deste link.

 

 

Além de um texto (cuja interpretação pode ser vista no endereço acima mencionado), o grafito mostra uma pessoa (presumivelmente o Alexamenos nomeado no texto) a venerar um deus com cabeça de animal, possivelmente de um burro. Será a cena aqui mostrada a da crucificação de Jesus Cristo, com algumas liberdades artísticas e religiosas? Não podemos ter uma total certeza para nenhum dos lados, mas sempre me pareceu curioso o facto de uma das figuras ter cabeça de burro, uma singular characterística mais frequente no Egipto, em que muitos dos deuses apresentavam cabeça de animal (apesar deste deus, em específico, estar ausente do panteão egípcio, numa altura em que a sua presença poderia aqui levar a outras questões).

 

Se este facto, dos cristãos venerarem um deus com cabeça de burro, é referido por muitos autores, nenhum deles parece esclarecer totalmente a questão, ou sequer referir a existência de um qualquer mito por detrás dessa aparência. Porém, Tertuliano parece levar-nos a algumas curiosidades, já que refere estes elementos por duas vezes no livro III de Às Nações:

 

- No capítulo XI refere que foi Tácito (veja-se Histórias, V.3-4) que inventou tal tolice, e reconta partes das palavras desse autor. Depois, diz que os seus pagãos é que veneram burros, não só em cabeça (ou seja, antropomórficos) mas com um corpo completo de burro, ou seja, que veneram toda a espécie de gado, juntamente com Epona (deusa protectora dos cavalos, burros e mulas) e os estábulos que lhes estão associados.

 

- No capítulo XIV, refere a história de um antigo judeu que apresentava uma caricatura dos cristãos a que dava o nome de Onocoetes. Sobre isto, Tertuliano diz que os seus opositores veneram deuses com cabeça de vaca, cabra, etc., pelo que têm vários Onocoetes entre eles.

 

Então, de onde viria toda esta história? Sendo que Tácito era um dos mais importantes historiadores latinos, é muito provável que pelas suas palavras esta figura inicialmente associada ao Judaísmo tenha então passado a ser associada aos cristãos, de que ainda se sabia menos nessa altura. Então, mais do que um mito, esta crença era fruto de um equívoco, seja somente da parte de Tácito ou até das representações sociais dos judeus (e, mais tarde, dos próprios cristãos) vigentes na altura. Assim, é muito provável que o Alexamenos do grafito fosse cristão (mais do judeu, já que se apresenta algo semelhante a uma cruz), e alguém se quisesse referir a ele de uma forma pejorativa, satirizando parte das suas crenças religiosas.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Se em "A Arte de Amar" o autor se dispunha a ajudar todos aqueles que sofrem por amor, esta já é uma obra escrita a pensar naqueles que sofrem por amor. Tem algum sentido, confesse-se, que quem escreve sobre um tema aborde depois o outro, mas a qualidade de ambos os textos é similar, e também este apresenta múltiplos conselhos que ainda são aplicáveis aos dias de hoje.

 

Aqui ficam algumas citações da obra, exactamente como foi feito para a anterior (a tradução usada pode ser encontrada neste link). Quem quiser saber mais já sabe, pode sempre ler a obra completa, até porque - e exactamente como a anterior - é uma obra relativamente fácil de ler, e em que a mitologia é usada essencialmente nos exemplos das múltiplas situações abordadas pelo autor.

 

- "Any man who suffers badly from the power of a worthless girl, shouldn’t die, if he understands the help that’s in my art."

 

- "when you’re ready for my medical arts, first ban idleness, on my advice."

 

- "You only need to journey far, though strong chains hold you back, and start to travel distant ways: you’ll cry, and your lost girl’s name will oppose it, and your feet will often stop you on the road: but the less you wish to go, the more you should go: endure it, and force unwilling feet to run. Don’t hope for rain, or a foreign Sabbath, to delay you, nor the River Allia noted for its losses. Don’t ask how many miles you’ve done, and how many there are left: nor feign delays so you can stay around: Don’t count the hours, or keep looking back at Rome, but fly."

 

- "To heal your mind, what would you not accept? So that part is worth more than the body."

 

- "The entrance to my art is very gloomy, and the greatest task’s to survive the first few hours."

 

- "Whoever you are who call for help from my art, put no faith in witchcraft and incantations."

 

- "Tell yourself often what your wicked girl has done, and before your eyes place every hurt you’ve had."

 

- "As much as you can, disparage your girl’s attractions, and let your judgement fall a little short. Let her be called ‘plump’ if she’s full-figured, ‘black’ if she’s dark: in slenderness there’s the charge of being ‘lean’. And she can be called ‘pert’, who’s not naive, and she can be called ‘naive’, if she’s too honest. Then too, whatever talents your woman lacks, promote those, with flattering words and prayers. Demand the use of song, if the girl’s bereft of voice: make her dance if she doesn’t know how to move her hands. Her speech is barbarous? Make her talk with you a lot: she hasn’t learnt to sweep the chords? Ask for the lyre. She walks awkwardly? Make her walk up and down: Her chest’s all breasts? Let no bindings hide the fault. If her teeth are bad, relate what she’ll laugh at: Her eyes are sensitive? Report what makes her cry."

 

- "Make love too in a position that you think makes love least likely, and becoming. It’s not hard to do: few truthful girls confess even to themselves that there’s nothing they think unbecoming to them. Then too order all the windows to be opened, and note her worst features in broad daylight."

 

- "I also urge you to have two girls at once (You’re very brave if you could consider more): When the heart’s divided it goes in both directions, and one love saps the power of the other."

 

- "If you’re grieving deeply, look happy, lest she see it, and laugh, when tears come to you. Not that I order you to break off in mid-sorrow: my commands aren’t as cruel as that. Pretend to what is not, and that the passion’s over, so you’ll become, in truth, what you are studying to be."

 

- "He who can imagine he’s well, will be well."

 

- "If you’re alone, you’ll be sad, and the form of the girl you’ve left will be there before your eyes, so like herself. Because of that, night’s sadder than the daylight: your crowd of friends missing, who might ease the gloom."

 

- "Say goodbye to mother, sister, and the nurse who’s in the know, and whoever plays any part in your girl’s life."

 

- "And if you want to know what she’s doing, still, don’t ask: endure! It will profit you to hold your tongue."

 

- "But it’s wrong to hate the girl you loved, in any way: that conclusion suits uncivilised natures. It’s enough not to care: who ends his love by hating, is either still in love, or finds it hard to leave off being sorry."

 

- "Shame for a man and woman, once joined, now to be enemies"

 

- "Tell her to keep the gifts you gave her, without any ruling: small losses are usually a major gain."

 

- "Don’t let the cause be known why you prefer divorce: don’t say what grieves you: just grieve silently the while. Don’t recall her sins, lest she dilutes them: favour yourself, so that your own cause is better than hers."

 

- "Don’t re-read the letters you’ve kept from your sweet girl: re-reading letters shakes the steadfast heart. Put them all in the fierce flames (you’ll hate to do it), and say: ‘Let this be the funeral pyre for my passion.’"

 

- "Unless Apollo, the patron of our work, deceives the poet, rivalry’s the greatest cause that troubles us: so don’t let yourself imagine any rival, and best believe she lies in bed alone."

 

- "Wine prepares your heart for love, unless you take enough, and your wits are stupefied, overcome by the neat juice."

 

 

Sobre todos estes conselhos importa, desta vez, fazer um comentário adicional... se é muito fácil notar que alguns deles são antagónicos, devo explicar que isso se deve não só ao facto de estarem retirados do contexto original mas também devido ao facto do título da obra poder induzir muitos leitores em erro. Como explicado nos versos iniciais, o objectivo da obra é não tanto o de acabar com o amor, enquanto sentimento, mas o de fazer com que ninguém sofra por amor, ou seja, o de prevenir o sofrimento em relações em que só existe amor de uma das partes. Então, os conselhos dirigem-se às duas situações possíveis nesse caso - aqueles que já não amam, e aqueles que não são amados como queriam - e daí alguma confusão que estas citações poderão suscitar.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Disponíveis aqui .

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Secções:

São relativamente poucas as obras da literatura clássica que eu recomendo a todo o tipo de leitores, mas "A Arte de Amar", de Ovídio, é uma delas. Não só pela sua relativa simplicidade, ou pela forma como o autor inclui a própria mitologia nos muitos exemplos da obra, mas essencialmente pelo carácter prático da mesma, que ainda se aplica, com uma ou outra alteração, aos dias de hoje. Como já cá foi mencionado anteriormente, esta é uma obra "sobre a arte da sedução", em que Ovídio ensina todos os seus leitores a conquistar (e manter) o amor de uma outra pessoa, e é nesse campo que a obra ainda pode ser vista como útil nos dias de hoje. Se existem momentos até um pouco irónicos, são também muitos aqueles em que os conselhos fornecidos pelo autor fazem todo o sentido, e poderão ajudar os amantes. Os que sofrem por amor, esses, são deixados para a obra seguinte, "A Cura do Amor", que será por cá falada mais tarde.

 

Em relação a esta obra, resolvi então publicar alguns momentos que considerei curiosos. Os aqui reproduzidos são da tradução gratuita de A.S.Kline, mas a edição bilingue (latim-inglês) da Loeb Classical Library é bastante boa, além de também incluir o livro seguinte. Quanto a edições em português, uma busca pelo Google torna fácil encontrá-las; convém, ainda assim, mencionar que as que encontrei nas lojas são absurdas ao ponto de surgirem versos onde não os há e desaparecerem outros quando bem entendem, certamente obra de alguém licenciado a um domingo. Aqui ficam, então, algumas citações; quem quiser apreciar toda a beleza e interesse da obra completa pode sempre consultar as traduções mencionadas acima.

 

Livro I, sobre a conquista do amor

 

- "While you’re still free, and can roam on a loose rein, pick one to whom you could say: ‘You alone please me.’ She won’t come falling for you out of thin air: the right girl has to be searched for: use your eyes."

 

- "Let anything be a reason for you to serve her."

 

- "Wine rouses courage and is fit for passion"

 

- "Faults are hidden at night: every blemish is forgiven, and the hour makes whichever girl you like beautiful."

 

- "Birds will sooner be silent in the Spring, cicadas in summer, an Arcadian hound turn his back on a hare, than a woman refuse a young man’s flattering words: Even she you might think dislikes it, will like it."

 

- "Whether they give or not, they’re delighted to be asked: And even if you fail, you’ll escape unharmed."

 

- "But to get to know your desired-one’s maid is your first care: she’ll smooth your way. See if she’s close to her mistress’s thoughts, and has plenty of true knowledge of her secret jests. Corrupt her with promises, and with prayers: you’ll easily get what you want, if she wishes."

 

- "Let your mistress’s birthday be one of great terror to you: that’s a black day when anything has to be given. However much you avoid it, she’ll still win: it’s a woman’s skill, to strip wealth from an ardent lover."

 

- "She’ll ask you to look, because you know what to look for: then kiss you: then ask you to buy her something there. She swears that she’ll be happy with it, for years, but she needs it now, now the price is right."

 

- "Make promises: what harm can a promise do? Anyone can be rich in promises."

 

- "She reads and won’t reply? Don’t press her: just let her keep on reading your flattery."

 

- "It’s alright here to speak many secret things, with hidden words she’ll feel were spoken for her alone: and write sweet nothings in the film of wine, so your girl can read them herself on the table"

 

- "And though drunkenness is harmful, it’s useful to pretend: make your sly tongue stammer with lisping sounds, then, whatever you say or do that seems too forward, it will be thought excessive wine’s to blame."

 

- "Don’t be shy of promising: promises entice girls: add any gods you like as witness to what you swear. Jupiter on high laughs at lovers’ perjuries, and orders Aeolus’s winds to carry them into the void."

 

- "As liars by liars are rightfully deceived, wounded by their own example, let women grieve."

 

- "And tears help: tears will move a stone: let her see your damp cheeks if you can."

 

- "The youth has too much faith in his own beauty, if he waits until she asks him first. The man must approach first: speak the words of entreaty: she courteously receives his flattering prayers. To win her, ask her: she only wants to be asked"

 

- "What shuns them, they desire the more: they hate what’s there: remove her loathing by pursuing less. The hoped-for love should not always be declared: introduce desire hidden in the name of friendship. I’ve seen the most severe of women fooled this way: he who once was a worshipper, became a lover."

 

- "It’s not safe to praise your love to a friend: if he believes your praise, he’ll steal her himself."

 

 

Livro II, sobre como manter uma relação

 

- "To be loved be lovable: something face and form alone won’t give you."

 

- "Whoever you are, fear to rely on treacherous beauty or own to something more than just the flesh."

 

- "Gentleness especially impresses minds favourably: harshness creates hatred and fierce wars."

 

- "I’m the poor man’s poet, who was poor when I loved: when I could give no gifts, I gave them words."

 

- "Only play the part she commands you to. Condemn what she condemns: what she approves, approve: say what she says: deny what she denies. She laughs, you laugh: remember to cry, if she cries: she’ll set the rules according to your expression."

 

- "I don’t tell you to give your mistress expensive gifts: give little but of that little, skilfully, give what’s fitting."

 

- "Then what you’re about to do, and think is useful, always get your lover to ask you to do it."

 

- "But whoever you are, who want to keep your girl, she must think that you’re inspired by her beauty."

 

- "Admire her limbs as she dances, her voice when she sings, and when it finishes, grieve that it’s finished in words."

 

- "Though she’s more violent than fierce Medusa, she’ll be ‘kind and gentle’ to her lover. But make sure of this: don’t let your expression give your speech the lie, lest you seem a deceiver with words. Art works when its hidden: discovery brings shame, and time destroys faith in everything of merit."

 

- "When you’ve more confidence that you’ll be missed, when your absence far away will cause her worry, give her a rest"

 

- "Don’t give gifts another girl could spot, or have set times for your assignations. And lest a girl catch you out in your favourite haunts don’t meet all of them in one place. And always look closely at your wax tablets, whenever you write: lest much more is read there than you sent."

 

- "They’ll say she’s gone out: very likely she’s to be seen inside: think that she has gone out, and your vision lied."

 

- "Above all beware of reproaching girls for their faults, it’s useful to ignore so many things."

 

- "Don’t ask how old she is"

 

- "That’s the fullness of pleasure, when man and woman lie there equally spent."

 

 

Livro III, para as mulheres

 

- "Beauty’s a gift of the gods: how many can boast it?"

 

- "We’re captivated by elegance: don’t ignore your hair"

 

- "No rankness of the wild goat under your armpits, no legs bristling with harsh hair"

 

- "Don’t let your lover find cosmetic bottles on your dressing table: art delights in its hidden face."

 

- "There are many things it’s right men shouldn’t know: most things offend if you don’t keep them secret."

 

- "Hornless cows are ugly, fields are ugly without grass, and bushes without leaves, and a head without its hair."

 

- "Conceal your faults, and hide your body’s defects as best you may."

 

- "If you’re teeth are blackened, large, or not in line from birth, laughing would be a fatal error."

 

- "There’s a thousand games to be had: it’s shameful for a girl not to know how to play: playing often brings on love."

 

- "Lovely girls, the crowd is useful to you. (...) So too a lovely woman must let the people see her: and perhaps there’ll be one among them she attracts."

 

- "Often a lover’s found at a husband’s funeral"

 

- "Avoid those men who profess to looks and culture, who keep their hair carefully in place. What they tell you they’ve told a thousand girls"

 

- "And wait a little while before you answer: waiting always arouses love, if it’s only for a short time."

 

- "Ah! How often a doubting lover’s been set on fire by letters, and good looks have been harmed by barbarous words!"

 

- "Bright peace suits human beings, anger the wild beast."

 

- "If you looked in the mirror in your anger, that girl would scarcely know her own face."

 

- "Also when the lover you’ve just caught falls into the net, let him think that only he has access to your room. Later let him sense a rival"

 

- "Make us believe (it’s so easy) that we’re loved"

 

- "Add tears, and feigned grief over a rival, and tear at his cheeks with her nails: he’ll straight away be convinced: and she’ll be pitied, and he’ll say: ‘She’s seized by love of me.’"

 

- "Even if you’re plain, with drink you’ll seem beautiful, and night itself grants concealment to your failings."

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

A morte de Zeus

15.06.11

Existem muitas menções obscuras na literatura clássica mas poucas me parecem tão interessantes como a existência de um túmulo de Zeus em Creta, mais precisamente na cidade de Cnossos. Este monumento, hoje perdido, é frequentemente aludido por autores cristãos - que assim tentam provar que Zeus não era um deus mas simplesmente um mero mortal - e referido por alguns autores mais antigos - que apelidam os habitantes da ilha de mentirosos, devido a esta absurda existência.  Sobre a sua inscrição - "Zan Kronou", i.e. Zeus filho de Crono - devo dizer que me parece igualmente críptica, já que nos leva a pensar directamente no mito.

 

Infelizmente nunca encontrei qualquer mito relativo a este túmulo, mas Lactâncio, no livro I das suas Instituições Divinas, oferece uma possível explicação: este Zeus seria não o deus dos gregos mas um mortal que, após as suas muitas conquistas entre os seres humanos, se mudou para Creta, onde morreu e começou a ser visto como um deus, com o qual acabou por se confundir.

 

Esta é uma tese partilhada por outros autores, que falavam de vários Zeus (tal como de vários Hermes ou Héracles, demonstrando-se então que este caso não era único), e que tende sempre a assentar num ponto essencial: a existência de vários mortais cujo nome é perpetuado após a morte, e cujos feitos são eventualmente atribuídos a uma única figura. Se, por um lado, isto não nos revela a totalidade do mito por detrás do singular túmulo, pelo menos permite-nos compreender a confusão de mitos associados a dadas figuras, que quase impossibilita a criação de uma cronologia por detrás da vida de cada figura mitológica.

 

A verdade por detrás do túmulo de Zeus, essa, fica por agora adiada. Talvez um dia saibamos a que se devia o tão-notável sepulcro; até lá, as palavras de Lactâncio terão de nos chegar.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog