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O gerador universal é a mónade; as formas e os números da mónade constituem os elementos; e os elementos explicam-se da seguinte maneira. Junção de 24 triângulos rectângulos, o fogo ficará contido entre quatro lados iguais. Cada um desses lados consiste em seis triângulos; e daí a forma piramidal da chama. 48 triângulos rectângulos, limitados por oito lados iguais, aí está o ar: a sua imagem é um octaedro determinado por oito triângulos equiláteros, em que cada um se divide em seis triângulos rectângulos: no total, 48. Para a água, ela é composta por 120 triângulos: pensem na figura de um icosaedro, formado por seis vezes 20 triângulos com ângulos e lados iguais. Finalmente, entram 48 triângulos na composição da terra; seis quadrados desenham-nos: é um cubo. Dividam em oito triângulos cada superfície quadrangular de um corpo cúbico, para aí encontrar 48 no total.

 

Este extracto, retirado de uma obra de Hérmias (algo como "Escárnio dos filósofos pagãos"), permite-nos ver a formação dos quatros elementos segundo Pitágoras. Alguém poderia vir argumentar, e bem, que a obra é uma sátira da filosofia e portanto não nos permite ter uma visão real de qualquer opinião lá patente, mas o extracto aqui reproduzido não deixa de ser bastante curioso...

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De uma forma sucinta, eu poderia apenas dizer que esta é mais uma daquelas obras em que o título diz precisamente o tema, mas aqui isto também seria uma visão demasiado redutora do interesse do livro de Materno. Dedicado aos imperadores Constâncio II e Constante, que menciona por diversas vezes durante o texto, Materno pretendia com esta obra levar a que esses imperadores tomassem medidas adicionais contra as religiões pagãs (ou, como ele o indica, profanas). 

 

A minha pequena dissertação sobre a obra poderia ficar por aí, como já sucedeu no passado, mas o interessante, neste caso específico, passa por alguns dos argumentos do autor, que algumas vezes comparam elementos do próprio Cristianismo com o das antigas religiões, não só da Grega e da Latina, mas também de outras civilizações. Vejamos alguns exemplos de "erros" que este autor alega:

 

- Os deuses como mortais divinizados - são dadas, como é frequente neste tipo de obras, o relato de várias divindades que seriam pouco mais que mortais divinizados. Se isso sucede no caso de Baco, Perséfone, e outras divindades usuais, aqui o autor chega até a aplicar esse critério às figuras de Osíris e Átis.

 

- As fábulas pagãs como imorais - outra crítica frequente nos apologistas cristãos passa pela forma como as "fábulas" do Paganismo ensinavam a imoralidade às pessoas, como no caso das violações de Zeus, dos roubos de gado de Hércules, e assim por diante.

 

- Multiplicidade de Palas, e o Paládio - quem já tenha lido a "Ilíada" certamente já ouviu falar do Paládio. Porém, a que Palas, em específico, se refere esse importante ícone? O autor refere pelo menos cinco Palas diferentes, antes de argumentar qual delas (provavelmente) era a do ícone que protegeu Tróia e Roma.

 

- Explicação dos nomes dos deuses - o autor empreende uma análise etimológica dos nomes de vários deuses, de forma a provar que alguns deles nada têm de divino.

 

- Serpente - existe, neste ponto específico, um contraste interessante entre as antigas religiões, algumas das quais veneravam serpentes, e o Cristianismo, onde ela pode ser vista como uma das principais antagonistas. Parece-me, então, que o autor usa essa coincidência para denegrir a primeira a das religiões face à segunda.

 

- Diabo, enquanto "copiador" dos mistérios cristãos - Este argumento, também muito conhecido de outros autores, mostra que existe alguma coincidência entre os rituais pagãos e aqueles do Cristianismo, mas que essa coincidência não é tanto uma razão por detrás da igualdade salvífica de ambas, mas um artifício do Diabo para afastar as pessoas da verdadeira religião e mantê-las no erro que tanto o beneficiava. Entre outros exemplos destas similaridades, Materno menciona a crucificação de Jesus Cristo  como levando à salvação (por oposição à crucificação na "árvore do diabo", que levaria ao seu fogo) e a celebração da Páscoa com o sacrifício de um cordeiro (por oposição ao sacrifícios pagãos, que não teriam qualquer finalidade positiva), entre outros.

 

 

Agora, se são muitos os autores cristãos que fizeram obras similares a esta, o que tem a obra de Júlio Materno de especial? Acima de tudo, parece-me que o seu interesse reside no carácter sintético dos argumentos, já que diz em poucas páginas o que muitos outros disseram em vários livros. Claro que existem, como nas outras obras, várias apologias do Deus cristão, mas aqui são mais breves, podendo o leitor perder menos tempo com elas e, portanto, mais tempo a ler (e tentar perceber) os argumentos que este autor faz sobre os erros das outras religiões da sua época. 

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