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Na Apologia de Aristides de Atenas pode ser encontrada esta interessante sequência, que nos permite ver a forma como os cristãos viam alguns deuses gregos, e seus mitos:


Before everything else the Greeks introduce as a god Kronos, which is interpreted Chiun; and the worshippers of this deity sacrifice to him their children: and some of them they burn while yet living. Concerning him they say that he took him Rhea to wife; and from her he begat many sons; from whom he begat also Dios, who is called Zeus; and at the last he went mad and, for fear of an oracle which was told him, began to eat his children. And from him Zeus was stolen away, and he did not perceive it: and at the last Zeus bound him and cut off his genitals and cast them in the sea: whence, as they say in the fable, was born Aphrodite, who is called Astera: and he cast Kronos bound into darkness. Great then is the error and scorn which the Greeks have introduced concerning the head of their gods, in that they have said all these things about him, O king. It is not possible that God should be bound or amputated; otherwise it is a great misfortune.

And after Kronos they introduce another god, Zeus; and they say concerning this one, that he received the headship and became king of all the gods; and they say concerning him that he was changed into cattle and everything else, in order that he might commit adultery with mortal women, and might raise up to himself children from them. Since at one time they say he was changed into a bull on account of his passion for Europa and for Pasiphae; and again he was changed into the likeness of gold on account of his passion for Danae: and into a swan, through his passion for Lcda; and into a man through his passion for Antiope; and into lightning on account of his passion for the Moon: so that from these he begat many children: for they say that from Antiope he begat Zethus and Amphion; and from the Moon, Dionysus; from Alkmena, Herakles; and from Leto, Apollo and Artemis; and from Danae, Perseus; and from Leda, Castor and Polydeuces and Helene; and from Mnemosyne he begat nine daughters, those whom he called the Muses; and from Europa, Minos and Rhadamanthus and Sarpedon. But last of all he was changed into the likeness of an eagle on account of his passion for Ganymede the shepherd.

Because of these stories, O king, much evil has befallen the race of men who are at this present day, since they imitate their gods, and commit adultery, and are defiled with their mothers and sisters, and in sleeping with males: and some of them have dared to kill even their fathers. For if he, who is said to be the head and king of their gods, has done these things, how much more shall his worshippers imitate him!

fonte: link

 

Esta sequência é depois continuada críticas individuais a cada um dos deuses; quem quiser ler essa parte, bem mais extensa, poderá consultá-la no link acima...

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Sobre a fundação de Roma, são de certeza muitos os que conhecem as histórias - falsas, como o próprio autor dá a entender - de Vergílio, mas a obra Origem das Gentes Romanas (de autoria desconhecida) menciona algumas curiosidades que, do ponto de vista mítico, me parecem interessantes deixar por cá:

 

- Ion (o mesmo da peça de Eurípides) teria aí fundado a cidade de Ianiculus, perto da qual se viria a estabelecer Saturno. Porém, não é fácil compreender em que altura da história romana se situa este evento em particular;

 

- Os aborígenes desse país provinham do tempo das grandes cheias (referem-se, creio eu, às cheias das histórias de Noé, Deucalião, Gilgamesh, etc.), mas a etimologia do nome era, já na altura do compilador da obra, discutível. Teriam então sido bem recebidos por Pico, que reinou antes de Fauno (também identificado com Silvano, entre outras divindades);

 

- No reinado de Fauno teria chegado a Itália Evandro (filho de Mercúrio e Carmenta), que se estabeleceria no monte Palatino, e que foi o primeiro a ensinar os italianos a ler e escrever, entre outras artes. Mais tarde, viria então a ter lugar o famoso reinado de Latino, e a fundação de uma cidade pelo troiano Antenor ("Patavium", a moderna Pádua), antes até da chegada de Eneias, que veio a fundar Lavinium, em honra da filha do rei.

 

Parece-me, assim, que Eneias foi tão fundador de Roma como o foram Jano, Pico, Fauno, Latino, ou até os gémeos Rómulo e Remo, mas cada um da sua maneira e a seu tempo...

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Esta obra de Filóstrato, mais conhecido como autor da Vida de Apolónio de Tiana (já aqui falada), tem um apelo muito invulgar. Trata-se de um diálogo entre um céptico e alguém que venerava Protesilau, o primeiro dos Aqueus a morrer em Tróia, sobre o tema que dá título à obra. Ao longo do diálogo o céptico vai sofrendo uma transformação, tornando-se depois num adepto convicto dos encantos semi-divinos de Protesilau.

 

Existe, assim, uma gradação interessante neste diálogo. Se começa com uma introdução em que é provada a real existência dos heróis e semideuses, até com algumas provas físicas à mistura, eventualmente transforma-se numa dissertação sobre a guerra de Tróia, em que, através da figura de um viticultor que costumava ver Protesilau, é estabelecida uma comparação entre a Tróia de Homero e uma outra, por vezes até muito diferente mas mais realista, que Protesilau teria testemunhado após a sua morte física.

 

Esta é, a meu ver, uma obra surpreendente, já que apresenta não só alguns detalhes secundários curiosos (recordo-me, por exemplo, que é feita uma referência à descoberta de esqueletos de heróis, gigantescos e com cabeça de cobra - quem pensar um pouco, entenderá o que isto significa), como também compara versões e episódios da guerra de Tróia, complementados com um catálogo de informações sobre cada um dos heróis, desde os maiores (como Aquiles ou Odisseu) até alguns dos quase desconhecidos. São também contados diversos milagres realizados pelos intervenientes dessa guerra, e múltiplos prodígios, entre muitas outras coisas, das quais Protesilau é, na maior parte das vezes, um informador in absentia (sim, que usar palavras em Latim soa sempre bem a certas elites), que interage com o viajante exclusivamente através dos relatos do viticultor.

 

Posso ainda mencionar um aspecto misterioso desta mesma obra - apesar de serem feitas múltiplas menções ao conceito da reencarnação, seja relativamente às de Protesilau ou às de Pitágoras (que, segundo se conta, acreditava ter vivido outras vidas, uma das quais enquanto Euforbo, herói troiano), o tema nunca é muito desenvolvido, ficando a pairar como um conhecimento secreto que apenas seria acessível a um nível mais elevado do culto de Protesilau, ao qual nenhuma das duas personagens tinha ainda acesso. Em relação a esses repetidos regressos do mundo dos mortos, ambas as personagens do diálogo mostram-se tão curiosas como qualquer leitor moderno, mas a resposta permanece secreta até ao anoitecer do final da obra.

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Neste link, que me foi enviado por uma amiga, pode ser encontrado um bom diagrama das relações de Zeus. Apesar de não funcionar correctamente em todos os browsers, permite obter mais informação sobre cada uma das relações (basta clicar no nome de cada figura), e ainda filtrá-las por fonte (clicar nos autores, do lado esquerdo).

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Creio que qualquer pessoa que venha a ler estas linhas já terá pelo menos ouvido falar da Guerra de Tróia, normalmente nos relatos de Homero ou de Virgílio. Existem também outros relatos parciais, como os de Ovídio, mas aqui eu gostaria era de falar de dois relatos menos conhecidos, o de Dares Frígio e o de Díctis de Creta.

 

A versão de Dares Frígio, alegadamente mais antiga que a de Homero mas composta por um único livro, começa por cobrir eventos muito anteriores à própria guerra, e relaciona eventos que nos podem parecer desconexos (como a expedição dos Argonautas) com esta. Apresenta simples descrições de quase todas as personagens (por exemplo, em relação a Cassandra é dito que tinha estatura moderada, boca redonda, cabelo castanho-avermelhado, olhos que piscavam, e que sabia o futuro), mas um dos aspectos que me pareceu mais interessante é o facto do autor descartar por completo as divindades, e tentar mascarar alguns dos elementos lendários, como o tão conhecido Cavalo de Tróia. Por exemplo, o "Julgamento de Páris" toma lugar num sonho do herói, que é posteriormente interpretado, e o cavalo é somente um símbolo associado à porta por onde a cidade é invadida.

 

Na versão de Díctis de Creta, que diz ter assistido a todos os eventos narrados (ao longo da história entende-se que isso não pode ser verdade), existem também alguns elementos interessantes. Nem todos os episódios coincidem com os de Homero - por exemplo, Palamedes aparece neste texto (está totalmente ausente no de Homero), os heróis gregos disputam o Paládio (na Ilíada, lutam pela armadura de Aquiles), Filoctetes tem um papel mais activo, etc. - mas uma das características mais interessantes advém do livro VI, o último, em que é contado o regresso dos heróis gregos. Mais do que repetir a Odisseia ou a Eneida, o autor faz um verdadeiro epilógo da guerra, contando o destino final de Ulisses, a morte que lhe vem do mar (que, como muitos leitores provavelmente notam, nunca ocorre na versão de Homero), as desventuras de Agamémnon e de Orestes, entre vários outros episódios.

 

 

Agora, uma questão que se põe, evidentemente, é... será alguma destas versões superior à de Homero? Em termos estilísticos parece-me claro que não, mas serão elas mais fieis a uma possível e histórica guerra de Tróia? Não sabemos, jamais poderemos vir a sabê-lo, mas pelo menos permitem-nos comparar tradições concorrentes de um mesmo mito, muitas das quais fariam parte do Ciclo Épico e que estão, para nós, perdidas, como é o caso dos eventos que ocorrem nos anos da guerra que Homero não narrou.

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