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Hoje festeja-se por estes lados, mas indo ao que importa, uma obra de Pseudo-Calístenes sobre a história de Alexandre Magno. Tão interessante quanto estranha, esta obra conta toda a vida de Alexandre Magno de uma forma que une, constantemente, mito com realidade.

Começa com a fuga de um rei Netcanebo (presumivelmente será Nectanebo II, último faraó do Egipto) da sua terra natal; com recurso a magia, este finge ser Amon e engravida Olímpia, a esposa de Filipe da Macedónia, e é dessa relação que nascerá Alexandre. A obra continua, contando muitos dos famosos episódios da vida deste, mas tudo se começa a tornar mais estranho à medida que o herói se aproxima das terras da Índia, onde vai encontrando criaturas e locais cada vez mais estranhos. É morto um unicórnio, o exército luta até contra lagostas gigantes, são encontradas plantas e pássaros que profetizam com voz humana, e outros tantos episódios que, como parecerá óbvio, não tiveram lugar. A obra termina um pouco depois da morte deste filho de Filipe da Macedónia.

Do ponto da vista dos mitos gregos, há também um momento da obra que me parece ter especial relevância. Quando Alexandre ataca Tebas, em defesa desse local um nativo conta toda a história mitológica da cidade, e que deveria fazer dela um local importante para o próprio herói. Este rejeita essa argumentação e acaba por destruir a cidade, mas esse passo do texto permite-nos constatar, mesmo de uma forma potencialmente ficcionada, a riqueza mitológica de um local, até porque alguns dos mitos aí mencionados são, para nós, bastante mais obscuros do que se poderia pensar.

Este texto, ainda assim, merece é ser lido pela sua importância cultural, já que foi, através da sua tradução latina, uma das principais fontes de mitos de Alexandre Magno na Idade Média.
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No seu texto sobre o porquê dos deuses demorarem a punir os malfeitores, mais um que faz parte da Moralia, Plutarco refere a história de um tal Tespésio de Soli, que após uma vida atribulada teria "morrido", voltado à vida, e contado aos seus amigos o que tinha visto. Não irei, obviamente, tentar resumir este obscuro relato, muito menos conhecido que os de Homero, Platão ou Cícero, mas quem o quiser ler poderá fazê-lo, em tradução inglesa, aqui, no longo parágrafo 22.
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Algo que sempre me incomodou, no estudo de uma qualquer área, é o uso de citações fora de contexto. É demasiado simples ver alguém mencionar uma dada frase, copiá-la juntamente com a referência, e usá-la sem sequer se conhecer a obra de onde proveio. Acontece demasiado, e é algo que eu considero abominável.

Qual é o problema? Vejamos um pequeno exemplo, provindo de uma tradução inglesa da Moralia de Plutarco:

Does it not thence follow, that the earth is spherical, though we nevertheless see it to have so many lofty hills, so many deep valleys, and so great a number of inequalities? Does it not follow that there are antipodes dwelling opposite to another, sticking on every side to the earth, with their heads downwards and their heels upwards, as if they were woodworms or lizards? That we ourselves go not on the earth straight upright, but obliquely and bending aside like drunken men? That if bars and weights of a thousand talents apiece should be let fall into the hollow of the earth, they would, when they were come to the centre, stop and rest there, though nothing came against them or sustained them; and that, if peradventure they should by force pass the middle, they would of themselves return and rebound back thither again? That if one should saw off the two trunks or ends of a beam on either side of the earth, they would not be always carried downwards, but falling both from without into the earth, they would equally meet, and hide themselves together in the middle? That if a violent stream of water should run downwards into the ground, it would, when it came to the centre of the earth, which they hold to be an incorporeal point, there gather together, and turn round like a whirlpool, with a perpetual and endless suspension?

Fabulosa, esta citação! Os Gregos acreditam numa terra redonda, na gravidade, e em outras coisas que tais! Que se use cinco, 10, 20 vezes esta citação para o provar, sem qualquer margem para dúvidas, mas... infelizmente, a frase seguinte a essas também era:

Some of which positions are so absurd, that none can so much as force his imagination, though falsely, to conceive them possible.

É, portanto, este o problema de se citar seja o que for sem se conhecer, ou sem se ter lido, a obra de onde ela provém. Mesmo que o eventual citador até tivesse lido a proximidade da citação, sem ler toda a obra ele nunca saberá o contexto da mesma. Seria como citar, por exemplo, o discurso de Aristófanes no Simpósio de Platão e atribuí-lo a Sócrates, só porque alguém mais também já o fazia, e porque nenhum dos dois envolvidos tinha lido a obra.

Agora, se por um lado eu compreendo a importância de se estudar também as fontes secundárias, e outras que tais, acho é que isso também nunca pode, nem deve, ser usado para colmatar um desconhecimento das várias fontes primárias, na primeira pessoa, como, infelizmente, tanta gente insiste em pensar...
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No seu texto contra o empréstimo de dinheiro, Plutarco diz o seguinte:

this [o pedido de empréstimo de dinheiro] we do, not being compelled by poverty (for no usurer will lend a poor man money) but to gratify our prodigality. For if we would be content with such things as are necessary for human life, usurers would be no less rare in the world than Centaurs and Gorgons.
fonte

Quão mais simples e sublime seria, hoje, a vida se as pessoas, em vez de optarem, constantemente, por uma vida que não podem fazer, soubessem escutar as importantes palavras do passado, em muito semelhantes a estas!
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Nesta obra, que faz também ela parte da Moralia, Plutarco analisa os vários livros das histórias de Heródoto, de uma forma muito sintética, e aponta as várias imprecisões de que a obra sofre. Nesse sentido, este texto pode ser dividido em duas partes, a primeira das quais aborda os problemas gerais da obra, e a segunda em que o autor vai passando pelos livros e mostrando o que está menos correcto em cada um deles.

Na primeira parte, então, é dito que Heródoto podia ter usado expressões mais simples, em vez de termos pejorativos; que usa demasiados infortúnios como forma de ligar as histórias; que omite alguns elementos positivos; que, face a várias versões, tende a optar sempre pela pior, e que o faz, igualmente, quando as razões para algo são desconhecidas; que nem sempre diz as verdadeiras razões para certas acções terem tido lugar, entre várias outras.

Na segunda parte, Plutarco começa logo por criticar a ideia, patente no primeiro livro das Histórias, de que as mulheres gregas tinham sido raptadas porque o quiseram ser. Eventualmente, até dá uma versão ligeiramente diferente da Batalha das Termópilas, e fala de vários outros episódios famosos, mostrando a parcial falsidade de Heródoto em muitos deles, e justificando a sua parcialidade face aos Bárbaros, e muitas vezes contra os Gregos.

Ironicamente, em nenhum dos momentos da obra Plutarco menciona as óbvias falsidades nas Histórias; seria porque também nelas acreditava, ou porque esses elementos já eram conhecidos como falsos, nessa altura, e portanto seria redundante fazê-lo? Omite, por exemplo, toda e qualquer referência às muitas criaturas fantásticas mencionadas por Heródoto, focando-se essencialmente em outras versões, e impossibilidades, dos episódios históricos, tema que, como ele próprio diz, também aborda naquilo a que hoje chamamos Vidas Paralelas. Nesse ponto, porém, esta torna-se uma obra crucial para o estudo da recepção do texto de Heródoto...
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