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O Segundo Mitógrafo do Vaticano, também este de autoria desconhecida, reconta 275 mitos, e dá-lhes um tratamento muito semelhante ao Primeiro Mitógrafo do Vaticano (já falado aqui), acrescentando, porém, explicações a alguns dos mitos aí patentes. Curiosamente, vários dos mitos contados nesta obra repetem o conteúdo da anterior, até nas próprias palavras que usam, levando-nos a crer que esta obra até se poderá ter baseado na outra, de algum modo.

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O mito de Ifigénia, a filha de Agamémnon que foi sacrificada para possibilitar toda a demanda contra Tróia, é-nos muito conhecida através da versão de Eurípides, em que a heroína, mais do que morrer no altar pelas mãos do próprio pai é, por obra dos deuses, substituída por um animal no derradeiro momento. Porém, essa não é a única versão do mito, com Hesíodo, no seu catálogo das mulheres, a dizer que, por desejo de Artémis, a jovem se teria depois tornado Hecáte.

 

Mas volte-se à versão de Eurípides, cuja trama geral foi muito bem descrita por Aristóteles, na sua Poética, em linhas que merecem ser recordadas. A tradução é em Português do Brasil:

 

Uma donzela, prestes a ser degolada durante um sacrifício, foi tirada dos sacrificadores, sem estes darem pelo fato; e transportada a outra região onde uma lei ordenava que os estrangeiros fossem imolados à deusa; e a donzela foi investida nesta função sacerdotal. Passado algum tempo, o irmão da sacerdotisa chega àquela região, e isto ocorre porque o oráculo do deus lhe prescrevera que se dirigisse àquele lugar, por motivo alheio à história e ao entrecho dramático da mesma. Chegando lá, ele é feito prisioneiro; mas quando ia ser sacrificado, deu-se a conhecer (quer como explica Eurípides, quer segundo a concepção de Polído, declarando naturalmente que não somente ele, mas também sua irmã devia ser oferecida em sacrifício) e com estas palavras se salvou.

fonte

 

Como o autor bem dá a entender, a história da morte e sacrifício de Ifigénia, que nos poderia parecer o término da sua vida, é aqui o início de algo mais complexo, de toda uma aventura a que somente Orestes, num último momento, tem acesso. Assim, esta figura, mais do que ser filha de Agamémnon, chega-nos como irmã de Orestes; dos eventos com a primeira figura masculina pouco mais se conhece que o sacrifício (o que faz algum sentido, tendo em mente a cultura da época), mas é o reconhecimento final de Ifigénia pelo irmão que bem nos chegou, e que mais nos caracteriza, hoje, esta figura.

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O Fisiólogo, ou Physiologus na sua versão latina, é um texto que nos fala dos animais e suas características, mas diverge de obras como a História Natural ou a História dos Animais pelo facto de, ao ter sido escrito nos primeiros séculos da nossa era, já apresentar a curiosa singularidade de traçar paralelismos entre diversos animais e as crenças cristãs.

 

Numa dada altura da obra, é dito que o nome do tigre se devia à sua velocidade (e o rio Tigre teria esse nome pela mesma razão), algo que é relativamente normal neste género literário. Porém, linhas depois, é contada uma história relativa aos abutres, segundo a qual eles dariam à luz sem a existência de uma relação sexual, e o autor usa essa característica do animal para justificar o nascimento virgem provindo do ventre de Santa Maria. A Fénix é usada como um exemplo da ressureição de Cristo, e a rola como um exemplo de fidelidade (e das palavras de São Paulo em relação aos casamentos), entre muitos outros exemplos que eu aqui poderia dar.

 

Ainda assim, esta obra também tem um aspecto mais curioso, e que só é constatável para quem conheça bem este género literário. Se grande parte das características aqui atribuídas aos animais já apareciam em obras anteriores, na análise desta obra notei que muitas das usadas para a comparação com elementos cristãos parecem ter sido inventadas, ou adaptadas, pelo autor (desconhecido) desta obra, não aparecendo de uma forma tão clara nos textos anteriores. Tal característica até poderia empobrecer o património que esta obra tem para nos oferecer, mas importa frisar que esta é, mais do que as suas antecessoras, a obra que acaba por ter um enorme impacto na Idade Média, em que múltiplos bestiários seguem a ideia aqui apresentada e estabelecem, uma e outra vez, paralelismos entre as características dos vários animais e os textos bíblicos, como se os primeiros tivessem sido criados por Deus para atestar a veracidade dos segundos.

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