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Se alguém por aqui tivesse de classificar esta obra, creio que diria que ela é tão interessante quanto complexa. O autor, Sérvio, pega na famosa Eneida de Virgílio e comenta-a, quase linha a linha. Porém, a obra também acaba por ser um pouco desorganizada, no sentido de que é extremamente útil caso um leitor pretenda saber mais sobre um dado verso da obra de Virgílio, mas de uma enorme complexidade caso se pretenda verificar as várias anotações que tem para oferecer sobre um dado tópico.

 

Esta é, então e como é evidente, uma obra imprescindível para o estudo da Eneida, mas também para a compreensão das múltiplas fontes que esse seu autor tinha à disposição (muitas delas fontes hoje perdidas, como o épico de Énio, ou os poemas do Ciclo Épico), dos mitos a que este fazia alusão, e também dos aspectos mais culturais que fazem parte da obra.

 

Presumo que esta seja, para a maior parte dos leitores, uma obra de consulta, e não algo para ser lido de forma sequencial, já que se chega a tornar enfadonha, ao também comentar versos que, para 99% dos leitores, seriam de importância menor. Não deixa, contudo, de ser uma obra muito única, e repleta de um saber frutífero.

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Existe, na Sicília, uma zona cujo nome provém de "Santa Ninfa", supostamente uma santa mártir do século IV, que, naturalmente, teria esse nome... mas, até devido à singularidade do nome, tudo fará mais sentido se se tiver em conta que o local, anteriormente, era chamado "Ad Nymphas" devido às suas belas águas, e que a existência dessa santa não é atestada na Antiguidade.

 

Trata-se, portanto, de uma situação em que uma santa foi inventada para dar o nome a um dado local, e se a vida (não histórica, note-se) da mesma até menciona a localidade, esta não é uma das situações em que uma santa deu nome ao local, mas sim em que o local veio a dar o seu nome a uma (muito potencialmente falsa) "santa".

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Existe um relato de uma vida de Homero atribuída a Heródoto. Sobre a veracidade da trama, ou sobre se será, efectivamente, um texto do famoso historiador, é algo difícil de disputar e só brevemente será feito aqui, sendo o enfoque num aspecto mais curioso desta obra, e que me pareceu útil referir.

 

Homero seria então, de acordo com esta versão, um homem chamado Melesigenes, e, como parecerá natural, este relato preserva a sua vida, parte da sua obra, a sua "transformação" em Homero após a cegueira, e a sua morte, mas... mais que tudo, este é um texto que como que funde a obra do autor com a própria figura deste. De facto, ao longo da obra surgem múltiplas citações dos textos de Homero (incluíndo poemas tão obscuras como Os Oleiros), e sobre cada uma delas é dito que foi produzida, ou incluída numa dada obra, para fazer referência a um qualquer evento, ou figura, da vida do poeta.

 

Para dar um exemplo notável, a personagem Mentor da Odisseia seria então uma figura real, que Homero conheceu, e que decidiu preservar na sua obra, face à amizade que os unia. Também, num dado momento e para agradar a uma audiência de oleiros, o autor declama um pequeno poema, Os Oleiros, de forma a deles receber um benefício.

 

Agora, até que ponto é este texto real, e pode ser considerado como um verdadeiro relato da vida de Homero? Muito sucintamente, digo que... não pode, nem deve, ser visto como tal, e desenganem-se aqueles que poderiam pensar o contrário, até porque, para deixar de lado argumentos mais complexos, teriam passado vários séculos entre a vida do possível autor dos textos homéricos e a escrita desta obra, mesmo que ela tivesse, realmente, sido escrita por Heródoto.

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Um dos aspectos mais interessantes da mitologia grega e romana é o facto de nem todos os elementos divinos terem a mesma importância. Assim, Varrão, numa das suas mais famosas obras, dividia os deuses em múltiplas classes, como nos informa Tertuliano. Existiam, para esse autor, os deuses dos filósofos, os dos poetas, e os da população, numa ideia que nada tem a ver, directamente, com a veneração, mas sim com a construção da ideia da própria divindade.

 

Quando, por exemplo, um dado poeta contava um mito num dos seus textos, podia até acontecer que esse mito tivesse algum fundamento religioso, mas também era possível que fosse, exclusivamente, o exercício da liberdade poética desse autor a tomar lugar. Não é por ele contar uma história em que Medeia e Hércules se conhecem e defrontam a Hidra de Lerna que um tal episódio era considerado como real pelo resto da população.

De forma equiparável, se um filósofo dissesse que cada uma das estrelas era uma deusa, isto não implicava que, de um dia para o outro, os céus se passassem a apresentar repletos de novos deuses, cada um com seu nome, e cada qual como objecto de veneração, mas sim que alguém simplesmente teorizou essa possibilidade.

E, ainda, existiam deuses que só eram venerados pela população (talvez de classe mais baixa?), como os deuses do nascimento e crescimento das crianças, os das descidas, e o das dobradiças da porta.

 

Essa é, de facto, uma enorme distinção que marca o confronto entre os autores pagãos e os cristãos. Como já aqui foi referido várias vezes no passado, se existiam mitos em que deuses devoravam os próprios filhos, ou em que Zeus traía a mulher com múltiplas mortais, nenhum dos adeptos da antiga religião parecia acreditar, ou considerar, que esses actos eram aceitáveis e deviam mesmo ser seguidos pelos humanos. Em vez disso, se, para eles, essas eram "fábulas dos poetas", já os autores cristãos da Antguidade parecem assumir que era precisamente essa enorme imoralidade que a religião dos pagãos pregava - que todos deveriam trair esposas, ou comer crianças, entre incontáveis outros exemplos de actos horrendos - o que não era verdade.

Um outro aspecto importante a ter em conta, e que advém dessa tripla divisão, é que os deuses da população subsistiram durante mais tempo que os dos outros dois grupos. Na Idade Média, mais de 500 anos após a queda de Roma, ainda se conheciam exemplos de figuras não cristãs que eram veneradas por agricultores, mas esse é um tema que ficará para outra altura, dada a sua vastidão.

 

Porém, o mesmo autor, Varrão, e em relação aos deuses romanos, até faz uma divisão ainda mais surpreendente, quando os divide em certos, incertos, e eleitos. Tertuliano, autor cristão, goza essa divisão, e com alguma razão; se um deus é "incerto" (ou seja, se não sabemos se ele existe), porque deverá ele ser venerado? E se um deus pode ser "eleito", como sucedeu com César e com várias outras, isso implicaria alguém ter a possibilidade de o eleger, como num Senado divino, algo que, por razões extremamente óbvias,  seria impróprio aos mortais.

 

Onde nos levam estas divisões? Essencialmente, a uma ideia de que a religião na Antiguidade, e mais particularmente na Grécia e em Roma, não era tão simples como nos poderia parecer, visto que a dois mitos distintos nem sempre é dada uma mesma relevância. Um deles até poderia ser um mito que era objecto de culto (por exemplo, o de Apolo e a Píton, em Delfos), enquanto que outro era mais considerado como uma mera "fábula dos poetas" (por exemplo, quando Diomedes fere uma deusa), e algumas figuras eram meramente locais (como Visidiano de Nárnia), e, portanto, os vários mitos nem sempre têm o mesmo grau de importância.

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Esta obra de Tertuliano, composta por dois livros, pode, igualmente, ter o seu tema dividido em dois. Assim, o primeiro livro pretende refutar várias das visões que havia relativas aos cristãos, nessa altura (recorde-se que o autor escrevia as suas linhas por volta do final do século II), enquanto que o segundo mostra as muitas falhas que, segundo o autor, existiam na religião pagã de então.

 

No contexto deste espaço, é esse segundo livro que tem uma maior importância. Fazendo-se valer de vários testemunhos de Varrão e de outros autores, Tertuliano conta diversos mitos, alguns deles pouco conhecidos, para mostrar as diversas falhas que, na sua opinião, existiam na religião romana. Essa é uma ideia tão importante que, séculos mais tarde, também Santo Agostinho a ela voltará, e no seu tratamento do tema acaba por usar até muitos dos testemunhos que já ocorriam neste texto, como as citações da obra de Varrão, em que esse autor enunciava os (muitos), e obscuros, deuses que presidiam ao nascimento e desenvolvimento das crianças.

 

Esta é, então, uma obra bastante simples, mas que também permite apreender os dois pontos de uma só questão, tanto a crítica aos cristãos, e a forma como eles eram vistos na altura, como também a forma como eles próprios viam os seus opositores, e a religião que estes praticavam, nas múltiplas facetas.

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Esta obra tem a curiosa distinção de ter sido, durante muito tempo, o grande épico dos latinos, sendo, depois, suplantado pela Eneida, e levada a um quase esquecimento. Isto acaba até por ter o seu quê de ironia, já que várias expressões de Virgílio provêm do texto de Énio (como Macróbio nos informa), mas como a obra parece já não sobreviver de uma forma completa, temos de nos apoiar nos fragmentos para a julgar de forma mais directa. E, desta obra, existem ainda hoje mais de 500 fragmentos, provando-nos a sua enorme popularidade.

 

A sua trama cobria a história de Roma, desde a fuga de Eneias da caída Tróia até aos eventos que tiveram lugar durante o tempo de vida do próprio autor, justificando a sequência o título de Anais dado à obra. Originalmente, e como Cícero nos informa, a obra até acabava num ponto anterior, dada a idade que o autor então tinha, tendo depois sido expandida com mais alguns livros.

 

Mas, se esta é uma obra agora fragmentária, parece-me mais justo falar de uma sequência especialmente importante, do que de dezenas de linhas cuja posição seria agora difícil de localizar. Então, o primeiro verso da obra era, provavelmente "Musas, que com os vossos pés pisam o magno Olimpo". Depois, seguia-se uma sequência em que o autor explicava o porquê de ter escrito a obra: em sonhos, surgiu-lhe a figura de Homero no Hélicon, dizendo-lhe que já tinha passado por várias vidas, que numa delas tinha sido um pavão, e que, agora, habitava o corpo deste novo poeta.

 

A grande importância desta segunda ideia é a de permitir ver Énio como um herdeiro latino de Homero, até por ser o primeiro a usar o hexâmetro dáctilo em língua latina; seria demasiado fácil ver essa figura parcial em Virgílio, ao se insistir em equiparar a sua maior obra aos dois textos de Homero, mas este poema de Énio permitiria compreender que a ideia não era nova, e que Virgílio não era o único a focar-se numa imitação dos poemas homéricos, seja a nível da temática ou da forma poética.

 

Então, se a obra de Virgílio, a Eneida, é hoje vista como o grande épico latino, não nos podemos esquecer que existe um antes dessa obra, e um depois. O "depois" é sobejamente conhecido, mas o "antes", esse, era ocupado por este importante épico de Énio, hoje, infelizmente, tão esquecido.

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São muitas as figuras, tanto mitológicas como reais, que Dante menciona na sua Comédia, a que Boccacio chamou "divina", mas se sobre muitas delas são apenas dedicadas uma ou duas linhas, a situação de Ulisses, no canto XXVI do Inferno é de algum interesse um pouco maior.

 

A figura é aí mostrada juntamente com Diomedes, e quando é intrepelada por Dante, conta parte da sua história. Não conta, porém, o seu famoso regresso, ou as aventuras em Tróia, mas um novo episódio, inventado por Dante, em que este herói decide explorar o mundo que nunca ninguém tinha visto, além das Colunas de Hércules. Com os seus famosos dotes de oratória, convence outros a juntarem-se a essa empresa, e se acabam por encontrar uma nova terra, antes de aí chegarem são atingidos por uma tempestade, que leva todos os navegadores à sua morte.

 

Se a associação com Diomedes, que aqui tem lugar, é fácil de compreender em virtude de episódios como o do Paládio, o mais interessante, aqui, acaba por ser o facto da figura ser colocada entre aqueles pecadores que recorreram a fraudes para conseguir algo. E, por mais que a figura principal da Odisseia nos queira parecer um herói, não podemos esquecer que esta visão de Dante faz todo o sentido; Ulisses é uma figura com muitas faces, um polytropos (para quem gosta desses vocábulos gregos e latinos), e é nesse sentido que ele não pode deixar de ser visto como alguém disposto a fazer seja o que for para atingir os seus objectivos, tornando-se até imoral nessas suas acções. Pense-se, por exemplo, no episódio do Cavalo de Tróia, que muitas das fontes existentes dizem ter sido inventado por Ulisses; ou pense-se no episódio do ciclope Polífemo; ou até mesmo nos vários episódios que tomam lugar já em Ítaca; e facilmente se acaba por compreender que o Ulisses de Homero é alguém que não tem qualquer problema em recorrer a todo o tipo de fraudes e enganos para atingir o que quer.

 

Agora, se no caso do poema homérico essas múltiplas fraudes até nos podem parecer justificadas, há que ter em conta que já alguns autores da Antiguidade criticavam a posição de Homero, e diziam que só devido ás palavras desse autor é que o marido de Penélope era visto como um herói, no sentido que essa palavra tinha na altura. Então, a visão que a Divina Comédia tem de Ulisses não é tanto a de Homero, mas a desses outros autores, para os quais nem tudo era considerado aceitável na busca de um qualquer objectivo.

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