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Trata-se do mesmo Górgias que aparece num dos diálogos de Platão o suposto compositor deste elogio a Helena de Tróia, mas a que se deviam estas suas linhas? Essencialmente ele pretendia mostrar que Helena não tinha qualquer culpa de ter sido raptada. Ele não dizia, como o fez Estesícoro alguns séculos antes, que a figura nunca tinha sido raptada. Foi-o, isso é indiscutível para este autor. Mostra é que se a esposa de Menelau foi levada, isso se deveu a pelo menos uma de quatro causas: amor, persuasão, rapto pela força ou influência divina.

 

É dessas quatro causas que falam, de uma forma breve, as linhas deste texto de Górgias e os argumentos que utiliza são puramente lógicos, tão lógicos que merecem ser postos a descoberto. Infelizmente, os "Poemas Cíprios", onde o episódio tomava lugar, estão hoje perdidos, pelo que não sabemos de que forma Páris acabava por conseguir levar Helena consigo de volta para Tróia, mas se pensarmos por algum tempo facilmente somos capazes de concluir que as quatro possíveis causas deste autor fazem todo o sentido. Se ela se apaixonou pelo filho de Príamo, estava a ir-se embora não porque o queria fazer mas porque a paixão a conduzia a isso. Se este a convenceu por palavras, foi a sua capacidade retórica, mais do que um desejo real de Helena, que a levou a fugir com ele. Se a filha de Leda foi levada à força evidentemente que nada podia fazer. Em último caso, se foram os deuses a causar todo o episódio nenhum dos seus intervenientes teria qualquer tipo de influência real, levando a que nenhum deles pudesse ser culpado pelo sucedido.

 

Não se pretende aqui imitar Górgias, quem estiver interessado nos argumentos que utilizava poderá apenas ir ler o texto mencionado acima. O que se pretende mostrar é que seja qual for o caminho que levou ao rapto de Helena, esta figura pouca influência tinha no resultado final. Não sabemos, repito, como tomava lugar este episódio nos poemas mais antigos, mas o autor deste texto, que nos escrevia no século IV a.C. sabia-o (veja-se que num outro dos seus textos também defendia Palamedes, figura de relevo nos mesmos poemas), tendo apresentado esta defesa, como não poderia deixar de ser, com base no que aí sucedia. Sabemos, portanto, que Helena não era a culpada da sua ausência da casa de Menelau, pelo menos não para este autor. Se, no entanto, era ela a causadora de toda a guerra, isso já é outra questão ligeiramente diferente.

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Neste seu "Livro dos espectáculos" Marcial conta-nos algumas das festividades que tiveram lugar durante a inauguração do Coliseu de Roma, também conhecido por Anfiteatro Flaviano. Entre elas contavam-se algumas encenações de mitos, como os de Pasífae, Dédalo, Prometeu ou Orfeu, em que condenados à morte perdiam a sua vida de uma forma muitas vezes semelhante à dos respectivos mitos. Curiosamente, isso nem sempre acontecia, com o autor desta obra a referir que pelo menos uma vez o destino de um dado mito não se cumpriu.

 

Se hoje sabemos que estas encenações até eram frequentes na cultura romana, aparecendo até referidas em obras cristãs contra esses mesmos espectáculos, deve pensar-se nas múltiplas facetas de um mito que poderiam ser retratadas em cena, e passíveis de cumprir com recurso aos condenados. No caso de Prometeu, por exemplo, a ideia seria que alguém fosse esventrado como o deus o era no mito, mas seria difícil assegurar que isso tomava lugar, sendo, mais do que encenações dos mitos, quase re-escritas dos mesmos.

Para quem estiver interessado uma tradução inglesa da obra pode ser encontrada aqui.

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Já na Antiguidade se diziam coisas destas, que o Homem insiste em esquecer uma e outra vez:

 

Ah, if a double term of life were given us by Zeus, the son of Cronos, or by changeful Fate, ah, could we spend one life in joy and merriment, and one in labour, then perchance a man might toil, and in some later time might win his reward. But if the gods have willed that man enters into life but once (and that life brief, and too short to hold all we desire), then, wretched men and weary that we are, how sorely we toil, how greatly we cast our souls away on gain, and laborious arts, continually coveting yet more wealth! Surely we have all forgotten that we are men condemned to die, and how short in the hour, that to us is allotted by Fate.

fonte

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Rifeu era, como nos diz a "Eneida", um troiano extremamente justo, mas que ainda assim foi morto aquando da conquista de Tróia. O poema de Virgílio só nos diz isso, é até provável que a história até tenha sido inventada por esse autor, MAS é precisamente aqui que começa a parte curiosa do mito. Ao falar dessa figura, no segundo canto da sua obra, o autor diz que os deuses pouco valor deram à justiça da figura... mas séculos mais tarde, Dante Alighieri, na sua "Divina Comédia", coloca então esse troiano no Paraíso, enquanto deixou de fora desse local figuras como Cícero ou Platão. O que os antigos deuses rejeitaram, o Deus do Cristianismo acolheu!

 

A este Rifeu também João de Barros atribuía a fundação de uma nova Tróia, próxima de Setúbal, mas essas histórias ficam para outro dia, como prometido a uma leitora.

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Li há alguns minutos que o Professor Martin West (link) faleceu. Ficam os pêsames e a sucinta homenagem a um grande investigador e a uma pessoa que sempre que podia ajudava os alunos.

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Palamedes é dos heróis menos conhecidos da Guerra de Tróia. Homero dedica-lhe zero palavras, uma ausência que Tzetzes justificou dizendo que essas obras não queriam dizer mal dos gregos, mas indo ao que importa, a história do herói...

Era filho de Náuplio, e foi ele que descobriu o esquema que Odisseu tinha urdido para escapar a toda a guerra. Quando este segundo se estava a fingir de louco, Palamedes colocou um jovem Telémaco em frente de um arado (ou, segundo outras versões, ameaçou-o com uma espada) e o pai viu-se obrigado a revelar a sua sanidade, sendo obrigado a juntar-se ao contingente aqueu, mas não sem alguma inimizade perante o seu opositor.

Depois, já durante a guerra de Tróia, Palamedes foi vítima de um vingativo esquema de Odisseu, o que acabou por o matar. O que se passou, mais precisamente, depende das versões do mito - ou foi afogado, ou viu-se acusado de (falsa) traição - mas é indiscutível que ele não sobreviveu até aos episódios relatados no início da "Ilíada", com pelo menos um autor a dizer que a raiva de Aquiles se devia também à morte deste seu amigo, como já cá foi relatado anterior.

 

Falemos, agora, de Náuplio. Depois do seu filho ter sido morto em Tróia, ele ainda tentou que o culpado fosse penalizado, mas ninguém mostrou qualquer tipo de solidariedade. Então, também ele decidiu vingar-se - tentou insurgir as mulheres dos gregos contra os seus maridos ausentes (dois casos famosos são os das esposas de Agamémnon e de Diomedes) e, quando estes já voltavam de Tróia para suas casas, acendeu uma tocha durante uma tempestade, fingindo tratar-se de um porto e levando muitos dos navegadores para as suas mortes.

 

Existe um pequeno elemento a adicionar sobre a primeira destas figuras, Palamedes. Se este mito até nos poderia parece menor, são vastas as menções na literatura da Antiguidade às invenções do herói. Só para dar dois exemplos, diz-se que inventou algumas letras do alfabeto grego e também alguns jogos, como os dados, que os heróis gregos depois usaram para se distrair durante os seus tempos livres em Tróia.

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