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Segundo esta história Timárion era um homem como nós. Um dia, ao vir para casa depois de um festival religioso cristão, sentiu-se mal, adoeceu e apesar dos esforços dos médicos da altura, durante essa sua viagem de regresso a casa acabou por morrer, mas... somente por engano.

 

Como será isso possível? Bem, é essa a trama desta obra impossivelmente atribuída a Luciano da Samósata. Segundo ela, quando Timárion estava doente pareceu perder toda a sua bílis, que se pensava ser um dos quatros elementos necessários à vida, e então as figuras incumbidas de levar os mortos para a sua morada final apoderaram-se da sua alma, levanda-a para o devido julgamento no reino de Hades. No entanto, estavam erradas - este herói, afinal de contas, não tinha perdido a sua bílis, mas algo que apenas se assemelhava a esta, gerando a confusão que levou à sua morte.

Timárion é então defendido em tribunal por um antigo conhecido, ganha o seu caso (mostrando que este não era um tribunal português, onde absolutamente nenhuma prova de vida o traria de volta), e é levado de volta ao reino dos vivos, onde depois reconta a um amigo tudo aquilo que viu durante o seu tempo de suposta morte.

 

Este é um texto interessante, muito provavelmente do período bizantino, que goza um pouco com outras concepções do mundo dos mortos, adicionando-lhes também alguns elementos cristãos. A visão que apresenta é até consistente com a das sátiras de Luciano, mas muitos são os elementos que tornam impossível essa sua autoria. Como este nem é um texto muito longo, fica o convite para que seja lido por todos aqueles que queiram uma leitura menos vulgar.

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Esta Carta a Aristeias, também conhecida por Carta a Filócrates, foi escrita por volta do século II a.C. , e vários são os aspectos que a tornam importante. É, por exemplo, nela que é feita a mais antiga das referências à Biblioteca de Alexandria, em relação à qual nos é dito que um tal Demétrio de Faleros foi incumbido da compilação de documentos para o espaço. Entre muitas outras obras ele necessitava dos textos sagrados judaicos, e é essa imprescindibilidade que tem o papel principal nesta epístola.

São aqui feitas algumas descrições de alguma importância, e é depois descrito o processo como 72 tradutores (seis elementos de cada uma das 12 tribos judaicas) são incumbidos de fazer a primeira tradução dos textos hebraicos para o grego, originando a edição a que, em memória dos seus tradutores, ainda hoje chamamos Septuaginta.

 

Se estas informação basilares são relativamente conhecidas, a segunda parte do mesmo texto nem tanto o é. O rei do Egipto, tendo então todos esses 72 sábios judaicos na sua corte, decide fazer-lhes algumas perguntas, às quais todos eles respondem demonstrando a sua sabedoria de Deus e do mundo. A um deles é perguntado o que é melhor na vida, ao que ele responde:

Saber que Deus é o Senhor do Universo, e que no melhor que fazemos não somos nós que atingimos o sucesso mas Deus, que pelo seu poder realiza todas as coisas e nos leva ao nosso objectivo.

 

A outro é perguntado qual a verdadeira marca da piedade:

Perceber que Deus trabalha constantemente no Universo e conhece todas as coisas, e que nenhum homem que aja injustamente e com maldade pode escapar à Sua atenção. Como Deus é o benfeitor de todo o mundo, também tu deves imitá-Lo e não cometer ofensas.

 

A um terceiro é perguntado em que circunstâncias devemos sentir mágoa:

Nos infortúnios que se abatem sobre os nossos amigos, quando vemos que são prolongados e irremediáveis. A razão não nos permite sentir mágoa por aqueles que estão mortos e livres do mal, mas todos os homens sentem mágoa em relação a eles porque pensam apenas em si próprios e no seu próprio proveito. É apenas pelo poder de Deus que podemos escapar a todo o mal.

 

Muitas outras questões desta natureza são postas neste texto, algumas mais interessantes que outras, mas certamente que nos levam a pensar na ideia de que, mesmo passados todos estes séculos, as preocupações da humanidade ainda se parecem manter muito semelhantes, com estas respostas judaicas a serem muito semelhantes às dos teólogos cristãos modernos. É, mais do que a breve história da criação da Septuaginta, talvez essa a grande lição a retirar deste texto.

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No Livro do Êxodo, 34:29 (tradução "João Ferreira de Almeida Atualizada"), é dito o seguinte:

Quando Moisés desceu do monte Sinai, trazendo nas mãos as duas tábuas do testemunho, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, por haver Deus falado com ele.

 

Nada de particularmente invulgar teria esta passagem, não fosse o facto de diversas traduções dizerem que a face de Moisés passou a ter cornos após este incidente, expressão que tende a sobrepor aquela que aqui foi apresentada em negrito. Poderia, diriam certamente alguns, ser só mais um erro de tradução, como tantos outros na Bíblia, não fosse o facto de Miguel Ângelo assim o ter representado numa estátua ainda hoje presente no Vaticano.

Moisés com cornos

Este erro parece ter surgido da tradução do Antigo Testamento feita por São Jerónimo, na qual uma só palavra - como tantas outras nessa sua edição! - foi mal transposta do hebraico para o latim, tornando uma face "iluminada" numa "com cornos". Cuidado com as traduções!

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É famosíssima, a fábula aesópica de lebra e da tartaruga. Pois bem, o Teatro Bocage, em Lisboa, terá a partir de 22 de Outubro (e creio que até 26 de Novembro) uma comédia para crianças baseada nessa fábula. Como nos dizem as informações da produtora:

Após décadas e décadas de injustas criticas à Lebre, eis chegada a verdadeira história que levou à sua derrota numa corrida que parecia já ganha. 

Quem é esta Tartaruga aparentemente pacata e paciente? 

Quem é esta Lebre aparentemente vaidosa e presunçosa?

Vem descobrir nesta hilariante comédia de desenganos e torpecias o que realmente aconteceu naquele dia, àquela hora, naquela floresta…!!!

 

Não fomos ver, mas fica a recomendação para os mais novos, até porque as fábulas de Esopo são, como um dia escrevemos, das melhores prendas que lhes podemos dar.

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"Livro de Jó"

19.10.16

O Livro de Jó é, num contexto meramente mitológico, provavelmente um dos mais interessantes do Antigo Testamento. Apresenta-nos, logo no seu início, a figura de Deus e de um seu adversário, Satanás, a decidirem testar Jó. Claro que este venerava Deus, até porque a sua vida lhe corria sempre bem, mas o que aconteceria se todos esses benefícios lhe fossem retirados?

 

É esse o grande tema abordado neste texto - porque sofrem aqueles que têm uma conduta correcta e bondosa? No final do texto todos os benefícios são restituídos e Jó até é premiado com alguns extras. Não sabemos que resposta teria Satanás para nos dar, até porque não torna a surgir na parte final do texto, mas a questão aqui posta é de tal importância que, séculos mais tarde, a ela até voltariam autores como Boécio.

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Esta é uma pergunta de uma complexidade imensa, que não pretendemos abordar de forma aprofundada. As linhas que se seguem são, portanto, uma versão muito básica e simplificada dos acontecimentos.

 

As crenças do Cristianismo tiveram a sua base no Judaísmo, em que é mencionado "Deus" como a única figura divina dessa religião. No entanto, com o advento do Cristianismo, e em particular com a ideia de Jesus enquanto filho de Deus, começaram a pôr-se todo um conjunto de questões de alguma complexidade, como, a título de exemplo, as seguintes:

Em que momento se tornou Jesus divino? Nasceu assim, ou apenas se tornou divino mais tarde?

Quando a "pomba" desceu sobre Jesus no baptismo, o que teve lugar?

O livre-arbítrio existe, podendo Jesus decidir não ser crucificado?

Deus também foi crucificado?

(...)

 

Dificilmente se poderia aceitar ideias como as de um Jesus criança a usar milagres na oficina de José, ou de um Deus crucificado e a sofrer na cruz. Por isso, questões como estas levaram ao problema de tentar definir quem era Deus, quem era Jesus, e quais os limites de ambas as figuras. Infelizmente, os textos bíblicos também não ajudam na resolução de questão, já que tanto Jesus como os seus predecessores nada de conclusivo disseram sobre o tema. Assim, surgiu a necessidade de recorrer a outras fontes. Mas quais são elas?

Poderá até chocar alguns leitores menos informados, mas muitas das bases da teologia cristã provêm do Neoplatonismo, mais precisamente do Timeu platónico, um texto de grande complexidade mas que contribuiu, por exemplo, para a ideia de uma terceira figura na Trindade, o Espírito Santo, anteriormente conhecido como o Logos, aquela "Palavra" (recorde-se que uma das traduções mais simples do "λογοσ" grego é palavra, discurso) a que se refere o primeiro versículo do evangelho atribuído a João.

Assim, se os primeiros adeptos do Cristianismo já acreditavam na existência de Deus (recorde-se, naturalmente, que eram Judeus), e pensavam em Jesus como filho dessa figura, foi através de conflitos religiosos e da influência de diversas heresias que a teologia cristã foi sendo refinada. Se, por exemplo, Deus não sofreu na cruz, isto tornaria difícil que fosse também Jesus, mas se Deus não era Jesus isso poderia levar à ideia de que os cristãos veneravam dois (ou mais) deuses, o que não é simples de explicar. Outros pensavam que Jesus era a primeira de todas as criaturas, enquanto outros pensavam que este era co-eterno com o Pai. Existiam ainda aqueles que posicionavam o Espírito Santo abaixo dessas duas figuras divinas. Em suma, a história das heresias nos primeiros séculos da igreja está intimamente ligada à própria definição, que ainda hoje temos, do divino.

Portanto, se Deus tinha de existir, tal como era inegável a existência de Jesus, essa ideia foi sendo refinada com base nas ideias dos opositores da igreja católica, com o Espírito Santo a ser pensado como uma espécie de interveniente com a função geral de comunicar algumas mensagens divinas aos seres terrenos. É - deixe-se bem claro - uma ideia muito simplificada do que teve lugar, mas serve para explicar, de uma forma pelo menos basilar, como o Deus do Judaísmo se tornou na Trindade da nova religião.

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