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Se esta primeira expressão até é famosa nos nossos dias, tinha uma forma ligeiramente diferente na Antiguidade, referindo-se exclusivamente a uma "história sem cabeça", ou seja, uma que está incompleta, sendo a expressão derivada, segundo nos diz Plutarco, da existência de um antigo ritual em Creta no qual uma estátua sem cabeça era apresentada como o símbolo de um homem que, após ter violado uma ninfa, foi encontrado sem essa parte do corpo.

 

Já a expressão "o alfa e o omega" provém do bíblico Livro do Apocalipse, que a popularizou na nossa cultura. Platão dizia que a figura divina era "o princípio, o meio e o fim de todas as coisas", enquanto que Cícero se referiu à "proa e popa" de um assunto como se de um todo contínuo se tratasse; poderão estar ambas, no seu sentido geral, até relacionadas com a expressão cristã, mas isso não é totalmente certo.

 

A ligação entre as duas expressões até poderá nem nos parecer muito óbvia, mas passa pela referência a todos os elementos constitutivos de alguma coisa através dos seus limites (por exemplo, "alfa" e "omega" são, respectivamente,a primeira e última letras do alfabeto grego). Poderá ter sido por essa razão que foi adicionada a sequência "(...) pés nem (...)" à primeira das ideias, mas também devido ao facto de uma história sem os proverbiais "pés" não teria em que se apoiar, estando não só incompleta mas igualmente desprovida de apoio factual.

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Não são muitas as fontes da Antiguidade que nos recontam os elementos específicos do ritual do casamento romano, mas existem dois que tendem a ser mencionados com alguma frequência:

 

- Era frequente que os noivos, ou somente a noiva, mudassem de nome. As razões para tal prendem-se com uma crença segundo a qual quem soubesse o nome verdadeiro de alguém, ou de algum local, poderia ganhar poder sobre ele através da magia. É por essa razão que, por exemplo, o verdadeiro nome da cidade de Roma, hoje oculto entre tantos outros mistérios, raramente era mencionado. Isto poderá ter contribuído, mesmo que implicitamente, para que ao longo dos séculos e ainda nos nossos dias, tenha existido a tradição da adopção de um novo apelido nessas ocasiões.

 

- Também, sabemos que o ritual incluía a frase que deveria ser repetida pelos noivos. Ele dizia "Onde fores Caia, serei Caio", ao que ela deveria responder "Onde fores Caio, serei Caia". Se o ritual original se referia a Caio e Caia ou Gaio e Gaia é incerto, dadas as alterações linguísticas que foram ocorrendo ao longo dos séculos, mas o que sabemos é que os dois nomes tinham um significado simbólico, podendo ter-se tratado de referências a duas figuras históricas conhecidas pela sua fidelidade, de uma referência a Gaia, deusa grega da terra (o que lhe daria um sentido semelhante a "onde tu fores, eu irei contigo"), entre várias outras teorias.

 

Finalmente, aqui fica um pequeno vídeo para rir um pouco. A informação aí presente, relativa a São Valentim, é provavelmente falsa, já que pouco sabemos sobre esse santo do século III. Até poderá ser verdade, mas não temos qualquer fontes que o confirmem.

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O mito de Proteu já cá foi brevemente tratado antes (ver aqui), mas esta expressão leva-nos novamente de volta ao seu tema.

O elemento principal desta figura mitológica é, naturalmente, a capacidade de se metamorfosear. Por essa razão o deus tende a ser representado em plena transformação, como na gravura acima, proveniente dos Emblemas de Alciato. Visto que já aparecia na Odisseia homérica, a fama das metamorfoses do deus sempre foi grande (é mencionado também por Aristófanes, Horácio e Luciano, entre muitos outros), mas a que se deve a expressão aqui citada? Parece levar-nos não tanto à capacidade de mudar a sua forma real (algo que seria verdadeiramente incrível num ser humano), mas referir-se àquelas coisas que mudam frequentemente as suas "formas". Se, por exemplo, tivermos um amigo que está constantemente a mudar de opinião, poderíamos dizer-lhe que é "mais mutável que Proteu", mas também o poderíamos dizer do nosso contemporâneo preço dos combustíveis automóveis.

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Dizem-nos as histórias que pouco antes de um cisne morrer ele canta da forma mais bela. No Críton, Sócrates até usa essa ideia como prova da existência de uma vida após a morte, dizendo-nos que o animal cantava assim porque sabia o que o esperava, tinha a certeza absoluta de que ia passar para uma existência muito melhor. São quase infindáveis os autores da Antiguidade, da Idade Média e até dos nossos dias que nos repetem esta mesma informação, mas... será ela verdade?

 

No mundo de agora, em que temos acesso a incontáveis fontes de informação ao simples clique de um botão, é muito fácil verificar essa história. Inesperadamente, não só o cisne não canta, como também não quebra (magicamente) esse jejum para cantar antes da morte. Por irónico que nos pareça, a certeza do sábio Sócrates estava errada, mas a expressão - originalmente, cygnea cantio - tornou-se tão famosa ao longo dos séculos que ainda hoje é usada para designar uma derradeira obra antes da morte.

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Nos seus Adágios Erasmo apresenta uma expressão curiosa, ao revelar que de alguém com bastante conhecimento se podia dizer que até "Sabe como Júpiter desposou Juno", i.e. Scit quomodo Iupiter duxerit Iunonem. A própria ideia revela-nos de antemão que esta é uma história um pouco obscura, que somente um número muito restrito de pessoas conheceria. Se, nesse sentido, o casamento das duas figuras está intimamente ligado com os próprios mitos gregos e o casamento de Zeus e Hera, mesmo nessa cultura o mito em questão não é muito conhecido. Sabe-se que houve uma celebração, essa de grande fama, mas os eventos que levaram ao próprio desposo são pouco conhecidos.

Felizmente, Erasmo também conta essa história, atribuindo-a a um escólio na obra do poeta grego Teócrito. Seguindo as suas linhas basilares, podemos revelar que Zeus se transformou num cuco, lançou uma tempestade e se foi colocar perto do regaço de Hera. Naturalmente que a deusa recolheu o pequeno pássaro, tendo a intenção de o proteger do mau tempo. Porém, nesse momento o deus voltou à sua forma original e tentou ter relações sexuais com essa sua irmã. Inicialmente esta recusou-o, mas com a intervenção de outros deuses, a que se juntou depois um pedido de casamento do próprio Zeus, essa paixão física acabou por ser consumada.

 

Não podemos ter a certeza de que este mito nos preserva a versão original, mais antiga, do episódio que antecedia o casamento de Zeus com Hera, mas é uma história que, se for vista no contexto geral dos mitos gregos, faz todo o sentido. Permite-nos compreender que as múltiplas infidelidades do deus, em que este se transformava em diversas figuras não-humanas para seduzir as mulheres, tinha uma base no seu próprio casamento divino - seria, por essa razão, também possível que as mortais seduzidas pelo deus pensassem, conhecendo o caso particular de Hera, que a sedução do deus não fosse levar somente a uma relação casual. Por isso, esta parece-nos uma possibilidade credível para um potencial episódio, hoje perdido, que até possa ter antecedido o casamento de Zeus/Júpiter com Hera/Juno!

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Muitas são as formas deste provérbio que nos chegaram aos dias de hoje, desde a mencionada no título até expressões como "a sorte sorri aos audazes" ou "a sorte protege os audazes". Essa multiplicidade provém da própria tradução da expressão latina, "fortes fortuna adjuvat", que naturalmente pode ser traduzida das mais diversas formas, mas os pontos que aqui nos interessam são dois outros.

 

Primeiro, de onde vem essa expressão? Duas das fontes mais antigas que temos parecem ser Cícero e Virgílio, mas o primeiro deles dá-nos uma pista importante quando, ao citar a expressão, a atribui a Quinto Énio. Por isso, dadas as muitas referências aos Anais de Énio no poema épico de Virgílio, parece-nos provável que ambos os autores a tenham conhecido através da mesma fonte comum. Mas isso não implica que esse tenha sido o seu autor original, sendo possível que a expressão já viesse dos gregos. Uma pesquisa online revela que alguns a atribuem a Alexandro Magno, sem qualquer fonte, mas é muitíssimo provável que se trate mais de uma atribuição tardia, quase em termos de "wishful thinking", do que algo com uma base real.

E isto, como a própria referência a Alexandre, leva-nos ao uso e significado da expressão. Erasmo de Roterdão, quando a explica, dá-lhe uma metáfora particularmente curiosa, dizendo que não devemos ser como animais que se escondem no interior das suas carapaças. Isto porque as coisas boas, aquelas que a fortuna/sorte/destino nos possam vir a trazer, dependem frequentemente de nós próprios. Por isso, este adágio insta-nos a arriscar, a procurar aquilo que queremos, já que isso depende, primeiro e primordialmente, de nós próprios.

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Este documentário é anunciado como uma comparação das histórias mitológicas e dos comics às histórias bíblicas, e essa é uma ideia que, à primeira vista, até parece interessante. No entanto, o seu conteúdo é de muito fraca qualidade, levando a que seja, pensamos nós, o primeiro conteúdo a cá ser mencionado pela sua notória falta de qualidade.

De um modo geral, este documentário pode ser dividido em duas partes. Na primeira são mostradas algumas das crenças mitológicas e religiosas da Antiguidade e é estabelecido um paralelismo das mesmas com as histórias bíblicas. Isto nada teria de errado, não fosse o facto de os criadores se apoiarem na antiga ideia de que esses paralelismos tinham sido antecipadamente gerados pelo Diabo para fazer com que as pessoas acreditassem menos na mensagem de Jesus Cristo. Como se isso não fosse suficiente, está repleto de erros notórios.

Na segunda parte o documentário socorre-se então de comics americanos e filmes baseados nos mesmos, com a intenção de apoiar a ideia de que todos eles, de uma ou de outra forma, promovem uma satirização da mensagem cristã. Dizem, por exemplo, que o Batman - o herói da história, recorde-se - é um demónio, mas que o Joker/Coringa é representado de forma muito positiva. Dizem que existem ideias demoníacas e mágicas por detrás de alguns criadores de comics, etc. Isto para, no fundo, argumentarem que o grande objectivo dos comics é fazer com que as pessoas descartem a mensagem de Jesus Cristo em favor dos encantos do Diabo. O documentário até termina dizendo algo como "só existe um herói que merece a nossa admiração, o nosso salvador Jesus Cristo", demostrando bem as intenções dos seus autores.

 

Ainda estão a ler? Mesmo que alguém até queira apoiar essas ideias, por razões que não conseguimos compreender muito bem, existe uma falha absolutamente fatal em toda a sua argumentação, que passa por apresentar toda e qualquer informação de forma descontextualizada. Seria como ler Os Lusíadas em busca de uma única frase positiva sobre os deuses pagãos e depois apresentá-la assim, totalmente descontextualizada, para dizer que Luís de Camões era pagão - absolutamente ridículo!

 

Uma busca pelos seus produtores revelou que também existe um The Replacement Gods 2, mas somente pela visualização do trailer já se compreende que defende a mesmíssima ideia, recorrendo novamente a todo o tipo de informações descontextualizadas. É, por isso, um documentário absurdo, a evitar a todo o custo, sob pena de se perderem alguns minutos da nossa vida com algo que nem diverte, nem é verdadeiramente informativo.

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