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Raros são, como já uma vez aqui dissemos, os mitos associados a Hércules após este ter ascendido ao Olimpo. Aqui fica uma pequena excepção a essa regra:

Conta-nos uma das fábulas de Fedro que quando Hércules ascendeu ao Olimpo os vários deuses o vieram cumprimentar. No entanto, quando Plutão (deus dos Infernos, mas também das riquezas) o fez, o novo deus virou a sua cara, justificando a sua acção da seguinte forma - "Odeio-o, porque ele é amigo daqueles que são perversos, e ao mesmo tempo corrompe toda a humanidade ao apresentar a tentação de lucrar mais e mais".

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Romano desconhecido

Com pouco mais de uma centena de versos, o poema A Fénix, da autoria de Claudiano, encontra-se completo. Porém, é uma composição indisputavelmente muito menos interessante do que a Gigantomaquia e O Rapto de Proserpina - descreve somente o pássaro a que damos o nome de "Fénix", tomando por guia as linhas de Heródoto. E somente isso, não apresentando sequer muito interesse para o tema, já que a mesma informação por ele apresentada está também presente em diversas outras fontes.

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A figura de Argos - que não deve ser confundida com um outro Argos, o cão de Ulisses - é famosa de um episódio em que a deusa Hera o colocou a guardar Io, uma princesa grega que tinha sido amada por Zeus, mas que agora estava transformada em vaca. Tratar-se-ia do guarda perfeito, já que todo o seu corpo tinha incontáveis olhos, pelo menos um dos quais estava constantemente aberto e atento. Hermes, a mando do pai dos deuses, posteriormente faria a criatura adormecer (a forma como o fez varia mediante as diversas versões do mito), matando-o em seguida e salvando Io.

Este monstro, como um anterior, também provém da série Zyuranger. Aqui chamado "[Dora]Argos", estava totalmente coberto de olhos, um dos quais estava sempre acordado (ter em atenção o olho amarelo, na imagem acima). Se o resto do episódio pouco nos diz em relação ao mito original, é curiosa esta representação da figura, até infrequente na cultura ocidental; a maior parte das vezes Argos é mostrado somente como um pastor, apesar de existirem excepções, como a mostrada abaixo, em que o seu corpo pode ser visto com vários olhos fechados no momento em que Mercúrio se preparava para o degolar:

Para quem não o saiba ainda, ao término do mito é feita também uma breve alusão na imagem acima - no canto superior esquerdo pode ser vista Hera e um pavão. Diz-nos a mesma história que após a morte de Argos, a deusa decidiu transformá-lo nesse animal, preservando os seus miraculosos olhos nas belas penas do animal.

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Os símbolos místicos reproduzidos acima provêm de um texto chamado Oitavo Livro de Moisés, encontrado no século XIX mas provavelmente escrito ainda nos primeiros séculos da nossa era. O texto em questão, hoje incompleto (na edição a que tivemos acesso termina mesmo antes de explicar como invocar os mortos), contém um ritual mágico de invocação divina, que já apresentava muitos dos elementos que reaparecem em rituais mais recentes, com passagens como a seguinte:

 

Chamo o Teu Nome, o maior entre os deuses. Se o disser por completo, irá ocorrer um terramoto, o sol irá parar, a lua irá ter medo, e as rochas, montanhas, mares, rios, e todos os líquidos serão petrificados; todo o universo será lançado no caos.

 

No meio dessas invocações surgem duas teogonias muito semelhantes, que foram copiadas para o local por um evidente engano, até porque o ritual depois prossegue como se elas aí nem estivessem. Terá sido por isso que este texto foi descartado, sendo re-encontrado tantos anos depois? Não sabemos...

 

Uma última curiosidade - porquê "oitavo" livro? Cinco dos livros do Antigo Testamento são tradicionalmente atribuídos a Moisés, pelo que a atribuir-se um texto mágico ao mesmo autor teria de ser, pelo menos, o sexto. Não sabemos se existiu - um sexto e sétimos livros foram publicados no século XIX, mas são falsificações modernas - mas o título deste livro pode, de alguma forma, levar-nos a acreditar que sim, que numa dada altura até poderão ter existido três (ou mais) grimórios associados a esta figura bíblica.

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Circe é talvez uma das mais famosas feiticeiras da cultura ocidental, sendo famosa da Odisseia homérica. Dizia-nos aí o poeta que esta transformava os homens que visitavam a sua ilha em animais, e a subsequente moralização desse mito deu-lhe uma visão que se tornou popular na Idade Média, em que as transformações desta figura apenas revelavam o que as pessoas já tinham no seu interior; por exemplo, um homem impiedoso poderia tornar-se um lobo, um homem que liga demasiado à beleza um pavão, uma mulher que vendia o seu corpo uma loba, e assim por diante. A imagem abaixo provém de uma tal reinterpretação do mito, presente na série nipónica Zyuranger.

Esta monstruosa figura, a que na série chamavam "[Dora]Circe", era um porco glutão numa forma quase humana. Poderia pensar-se que a ligação ao mito é muito ténue, mas o mesmo episódio cedo afasta essa ideia; quando os heróis tentam recolher mais informação sobre a criatura, o seu mentor reconta-lhes parte do mito de Odisseu e Circe, apontando a forma como esse herói grego derrotou a feiticeira recorrendo a uma erva mágica. É seguindo a mesma ideia que os heróis acabam por destruir este monstro, numa sequência cujas múltiplas interrelações com o mito estão bem à vista.

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A morte de Adónis

A paixão de Afrodite pelo belo Adónis é provavelmente um dos mais famosos mitos da Antiguidade. Também o é o desfecho de toda a história, em que o belíssimo jovem é morto por um javali, mas muito mais inesperado é o breve tratamento que este pequeno poema dá ao tema (pode ser lido, em grego e inglês, aqui). Nele, a deusa do amor manda capturar o javali, provavelmente com vista a fazê-lo pagar pelo seu crime; no entanto, o atemorizado animal explica-lhe que nada de mal desejava ao jovem, pedindo as maiores desculpas e dizendo que não queria mais do que acariciar aquele ser tão belo que tinha visto à sua frente, acabando por magoá-lo sem querer. Cheia de compaixão, a deusa perdoou o animal e deixou que este se juntasse ao seu séquito.

 

Face a uma tão invulgar versão deste mito, somos obrigados a interrogar-nos sobre as suas potenciais fontes. Seria esta uma invenção de um autor de identidade desconhecida, ou estava assente numa tradição a que já não temos acesso? Esta pequena sequência certamente que destoaria numa tragédia, sendo muito mais provável que, como no caso do porco que falou com Odisseu, se tenha tratado de uma sequência que não fazia parte do mito original.

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Desde os tempos da Antiguidade, passando pela Idade Média e até aos nossos dias, que algumas crenças mágicas se mantiveram relativamente estáveis. A ideia de talismã, enquanto uma espécie de objecto com poderes sobrenaturais (e, frequentemente, de protecção) é uma dessas crenças, que já aparece atestada em papiros mágicos egípcios e que, ainda assim, continua a ser usada nos nossos dias. O que hoje aqui trazemos é uma espécie de talismã, mas de conteúdo cristão:

São Pedro sentou-se numa pedra e chorou. Cristo apareceu-lhe e perguntou, "Pedro, porque choras tu?" Pedro respondeu, "Senhor, doem-me os dentes". Então, o Senhor ordenou à minhoca no dente de São Pedro que daí saísse e que nunca tornasse a entrar. Mal a minhoca saiu, a dor parou. Então, Pedro disse: "Peço-te, ó Senhor, que quando estas palavras forem escritas e um homem as levar consigo, nunca sinta dor de dentes." E o Senhor respondeu, "Boa ideia, Pedro; assim seja!"

 

Muito poderia ser escrito sobre estas breves linhas, mas atente-se especificamente no carácter cristão das mesmas. Surgem São Pedro e Jesus Cristo, quase num vácuo, e a figura miraculosa do segundo é aqui vista exclusivamente como uma resolução para o problema do primeiro. E depois, surge uma promessa - como Pedro foi curado, também qualquer outro crente de igual fé o viria a ser. É um claro exemplo da crença segundo a qual existe uma relação cósmica entre a situação apresentada no talismã e aquela que o crente estava a viver - e que, por isso, como a primeira delas foi resolvida, também a segunda o seria.

 

Mas porquê São Pedro e Jesus Cristo? Exemplos semelhantes a estes abundam no decorrer dos séculos, e mais importante do que as figuras em questão é o seu carácter; aqui, bastaria uma figura que sofra e que tenha fé (que é Pedro, mas poderia ser João, ou Paulo, ou até um crente anónimo), e alguém capaz de o curar, que é Jesus, mas poderia ser Apolo ou Diana. Mudam-se, por isso, os nomes, mas a ideia presente no próprio talismã mantém-se, por seguir uma lógica que parece natural à humanidade, e que ainda seguimos, com ideias como "Ele tinha tosse, tomou o medicamento X e ficou curado; eu também tenho tosse, vou tomar o mesmo e também o ficarei", mas esquecendo que as coisas nem sempre são assim tão simples...

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