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Banho-maria

Quem gosta de culinária certamente que já ouviu a expressão "banho-maria". O dicionário português da Priberam define-o como um "Líquido quente em que se mete um recipiente que contém aquilo que se quer aquecer", como pode ser visto na imagem acima. Mas, afinal de contas, de onde vem a expressão?

 

A "Maria" a que se refere o processo é uma personagem histórica conhecida como "Maria, a Judia", uma alquimista do primeiro século da nossa era e que, supostamente, o teria inventado. Pouco sabemos sobre essa figura, ou os seus ensinamentos, com a excepção do que está preservado num breve extracto conhecido como Diálogo de Maria e Aros sobre o Magistério de Hermes.

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É provável que tenham sido poucos aqueles que leram o Mahabharata nos nossos dias, até pela proibitiva extensão da obra, mas esse épico em sânscrito tem diversos momentos que dão muito que pensar. Aqui fica uma breve sequência que discutíamos há alguns dias:

 

  • Quem é realmente feliz?

Aquele que tem poucos meios mas nenhumas dívidas; esse é um homem verdadeiramente feliz.

  • Qual é a coisa mais espantosa?

Dia após dia e hora após hora as pessoas morrem e os corpos são levados, mas os espectadores nunca se parecem aperceber que também eles irão morrer algum dia, e parecem pensar que irão viver para sempre. Esta é a coisa mais espantosa do mundo.

 

Momentos como estes, que pouco ficam até a dever à Filosofia dos Gregos, repetem-se uma e outra vez nesta obra. Claro que não é um épico simples, que possamos simplesmente abrir e ler como quem lê um ténue romance, mas é, indisputavelmente, uma obra cujos infindáveis momentos filosóficos nos deixam, uma e outra vez, a pensar. E, neste nosso mundo de hoje, quantos mais momentos de reflexão nos faria bem acrescentar aos nossos dias?!

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Para terminar as celebrações, hoje trazemos cá uma obra pouco conhecida. Quando se pensa em literatura da Idade Média, pensa-se nas aventuras arturianas, num determinado conjunto de poesia amorosa e de criações cristãs e, para alguns, talvez até num derradeiro Dom Quixote de Cervantes. Mas, ao mesmo tempo, também existia um conjunto de criações medievais que já tentava, de certa forma, satirizar os outros conteúdos da época. Se nada sabemos sobre "Garin", suposto autor desta pequena obra (terá ele vivido no século XIII, como pensou um estudioso dos nossos dias?), O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos] é, sem qualquer dúvida, uma dessas obras satíricas, cuja popularidade pode ser apreciada em sete manuscritos. Mas de que fala esta obra, afinal?

 

Apresenta-nos um cavaleiro que já tinha pouco dinheiro e passava fome. Quando o seu escudeiro viu três belas mulheres a tomarem banho, roubou as suas roupas, as quais pretendia vender num mercado próximo. Porém, o amo não o deixou fazer isso, optando por devolver as vestes às três desconhecidas. Depressa se revelaram fadas, e decidiram depois premiar aquele que as ajudou com três dons - a primeira, garantiu-lhe que ele viria a ser sempre bem recebido, onde quer que fosse; a segunda deu-lhe o poder de fazer falar as vaginas; a terceira deu-lhe o poder adicional de que, quando uma vagina não lhe pudesse responder, um rabo o faria.

O cavaleiro, tal como um potencial leitor, não pôde deixar de achar que estas mulheres/fadas só poderiam estar a gozar com ele, mas no desenrolar da aventura - que aqui omitimos, para não estragar a surpresa de potenciais leitores - é provada a completa veracidade das três promessas, levando o herói do seu infortúnio original até uma vida bem mais afortunada.

 

Mais que tudo, este texto goza com algumas das convenções literárias que esperaríamos encontrar em romances de cavalaria, só pecando pelo facto de ser muito curto - depois de ganhar os seus poderes, o cavaleiro apenas passa por duas breves aventuras antes do autor concluir as linhas que nos apresenta. Fora isso, tem até uma certa piada.

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Bolo de Aniversário

E lá vai mais um ano. Será que, quando começámos este espaço todo esse tempo atrás, pensavamos que iríamos continuar a escrever estas linhas tanto tempo depois? Dificilmente, pelo que convém escrever umas linhas mais pessoais sobre tudo isto.

 

Há umas semanas atrás, enquanto eu falava com um famoso professor de Harvard, ele disse-me que admirava o nosso trabalho, por tentarmos trazer ao público geral um tipo de conteúdos a que, normalmente, não teriam acesso. Respondi-lhe que não consideramos que façamos nada de especial, porque o nosso objectivo é, acima de tudo, precisamente esse, o de trazer o conhecimento ás pessoas. Não há qualquer interesse, para nós, em fomentar aquela ideia - infelizmente tão comum em quem estuda temas como estes! - de um homem sábio, de longas barbas, fechado numa torre de mármore e a considerar-se melhor que toda a humanidade. Isso seria uma perda de tempo, de conhecimento, como aqueles que papagueiam que aprenderam Acádico, Copta, Grego, Latim e outras tantas línguas só para, sem nunca deixarem de olhar para o seu próprio umbigo, se dizerem muito bons.

 

Não é por isso que escrevemos, mas para fazer sorrir aquela mulher que mostra curiosidade em saber o mito do Colar de Harmonia, ou aquele desconhecido que quer descortinar o significado de uma expressão latina, ou aquele jovem que quer recomendações de livros, entre outras tantas pessoas com quem nos fomos cruzando. Fazêmo-lo porque a partilha é o acto mais natural do conhecimento - o que não é partilhado morre connosco, como dizia Séneca nas suas Epístolas Morais.

Nesse contexto, queremos agradecer a quem, ao longo dos anos, foi seguindo e segue este espaço. Apesar de nem sempre ser fácil, é para elas que vamos escrevendo, e que continuaremos a escrever, de uma forma completamente gratuita, enquanto isso nos for possível. Obrigado!

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Hoje recordamos um filme mudo de 1924, sobre o mito de Helena de Tróia. São mais de três horas de filme, com legendas no seu original alemão, mas não deixa de ser interessante relembrar como os mitos de Tróia foram retratados há já quase uma centena de anos.

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O problema da origem das sereias (ou sirenas, se preferirmos ignorar uma questão de nomes) é um pouco diferente daquele que abordámos relativamente às fadas. Se, nesse segundo caso, é possível identificar uma altura em que as fadas ainda não existiam e um momento em que passam a existir, já as primeiras, aqueles seres que têm uma parte superior humana e uma parte inferior de peixe, têm uma antiguidade enorme. Uma das mais antigas referências surge através do deus Dagon (ou Dagan), que supostamente trouxe o conhecimento da agricultura aos habitantes da antiga Mesopotâmia, e que foi frequentemente representado assim:

O deus Dagon

Tem barba e um chapéu característico da época, mas o seu elemento mais notável é, como deverá ser óbvio, o facto de ter a forma de um peixe da cintura para baixo. Visto que este é um deus que parece preceder os próprios mitos dos Gregos, somos então levados a perguntar qual terá sido a sua origem. É natural que tenha nascido numa civilização com especial ligação aos rios ou mares (como, evidentemente, o era a da Mesopotâmia), mas, fora isso, pouco podemos afirmar sobre como surgiu a ideia da existência de seres com estes - mesmo nas poucas obras em que Oannes (i.e. outro nome de Dagon) é referido, apenas é dito que, num dado dia,  surgiu das águas, instruiu as populações e depois desapareceu tão misteriosamente como antes tinha aparecido.

 

Será que, antes desta figura divina, já existiam outras criaturas semelhantes? É possível, mas nunca certo, que sim. O que sabemos, no entanto, é que ao longo dos séculos, aqui e ali, foram surgindo incontáveis referências a outros seres metade-peixe, metade-humano, sempre com uma parte superior humana (salvo excepções satíricas).

Sereio ao contrário

Essas referências são difusas e nem sempre têm fontes comuns, ou seja, as "sereias" dos Gregos, dos Chineses, ou a de Hans Christian Andersen não têm, obrigatoriamente, a mesma origem que o antigo Dagon. Podiam ter pele branca, castanha, amarelada, ou de qualquer outra cor. Terá sido provavelmente face ao desconhecimento de onde surgiram que, mais tarde, também foram aparecendo múltiplas tentativas de as explicar - por exemplo, terão os navegadores sido inspirados por criaturas marinhas como os manatins? Ou terão, nas suas viagens e motivados por um cansaço extremo, imaginado as mulheres que já há muito não viam? É sempre possível que sim, mas a origem da primeira criatura com esta forma está hoje tão afastada do nosso tempo que parece ter sido irremediavelmente perdida. E, como tal, uma explicação mais fiável e concreta do que a apresentada aqui é imprudente, excepto se quiserem construir castelos nas núvens...

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Artur e a espada

Há alguns dias foi cá deixada esta pergunta - "[Será que] o Rei Artur existiu mesmo?"

É uma boa questão, mas a grande dificuldade em responder a ela passa por definir aquilo que se considera uma existência do Rei Artur. Por exemplo, um episódio como o da espada presa numa pedra, mostrado na imagem acima numa versão da Disney, apesar de ser muito famoso dificilmente terá sido real. Se removermos esse episódio, certamente fictício, da vida do herói, abre-se a possibilidade de que outros também possam ter sido mera ficção, o que, por sua vez, nos transporta para uma questão adicional - se o Rei Artur existiu, o que podemos verdadeiramente saber sobre ele?

 

É esse o grande cerne da questão. É possível que um monarca chamado Artur até tenha existido, num dado momento da história da Grã-Bretanha, mas não temos forma de distinguir os seus feitos reais daqueles que foram tornados lendários.

Para dar um exemplo concreto, na Vida de Merlim, de Geoffrey de Monmouth (ou, se preferirem, Godofredo de Monmouth), é dito que Uther fugiu para a Grã-Bretanha quando "Constante", supostamente seu irmão, foi traído (i.e. Constante II, ou seja, por volta de 411 d.C.). Sabendo que este Uther é o pai de Artur, isso permite-nos colocar a vida do herói que procuramos no século V d.C., mas somos rapidamente levados para elementos lendários quando é acrescentado que foi ele que derrotou o Procurador Lúcio Hibério (ou Tibério), uma figura quase certamente fictícia. Ou seja, até num mero punhado de linhas de um mesmo documento a potencial realidade e a ficção por detrás da figura de Artur fundem-se numa só, o que torna bastante difícil traçar onde acaba uma e começa a outra; de facto, o problema até se complica mais se tivermos em conta que o mesmo autor, na sua História dos Reis da Bretanha, também diz que Artur abandonou o trono, por ter sido ferido mortalmente em combate, em 542 d.C. - cerca de 130 anos depois da fuga do seu pai para a Grã-Bretanha, o que dá uma idade prodigiosa a pelo menos um deles!

 

Por isso, será que o Rei Artur existiu mesmo? É possível que sim, mas face aos dados que temos nos nossos dias é-nos difícil reconhecer onde acaba uma possível figura histórica e onde começa a sua lenda. O Artur lendário pode ser encontrado nas mais diversas histórias da Idade Média, mas a figura potencialmente real por detrás dele parece estar, hoje, irremediavelmente perdida.

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