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livro

Associamos estes dois livros pelo facto de, essencialmente, se tratarem de um só, em que quase só mudam os nomes dos seus intervenientes. E, nesse seguimento, são obras relativamente simples, em que uma das personagens coloca algumas questões àquela que lhe é superior. Vejamos três exemplos particularmente curiosos:

 

  • Quais são as quatro coisas que jamais estarão satisfeitas?

A terra, o fogo, o inferno e um homem que deseja as riquezas do mundo.

  • Qual foi o homem que morreu mas não nasceu, e depois da morte foi sepultado no ventre de sua mãe?

Foi Adão, o primeiro homem, porque a terra foi a sua mãe, e depois da morte foi aí sepultado.

  • Como é que Cristo nasceu da sua mãe, Maria?

Pelo seio direito.

 

Além destes pequenos exemplos, existem nestas obras alguns elementos que não deixam de ser curiosos. Numa dada altura é referido, indirectamente, que o fruto da famosa árvore do Paraíso era o figo. Porquê este, e não a maçã? A resposta é fácil de compreender se  recordarmos que no Evangelho Segundo São Marcos Jesus amaldiçoou uma figueira. De facto, é essa mecânica de ideias que pauta o conteúdo da obra - é feita uma questão e depois é apresentada uma resposta que, em muitos casos (mas nem sempre!), pode ser subentendida do texto bíblico ou de alguns elementos da cultura cristã medieval. E, nesse sentido, se não é uma obra muito interessante para um leitor leigo, aqueles que tenham interesse na evolução das crenças cristãs poderão aqui encontrar muito material que lhes dará que pensar.

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São Pedro e o cão

Muitos e curiosos são os episódios atribuídos a personagens bíblicas mas que não têm lugar na Bíblia. Este, de São Pedro e do seu cão falante, que hoje aqui resumimos numa das suas versões (existem mais, deixe-se isso bem claro), é um deles:

 

Um dia, estando São Pedro na cidade de Roma, procurava Simão Mago. Ouvindo dizer que este se encontrava na casa de um nobre romano, de seu nome Marcelo, foi aí em busca dele. Próximo da porta de entrada viu um cão preso com uma coleira. Decidiu soltá-lo, ao que o animal lhe respondeu dizendo, com voz humana, "O que posso fazer por ti, ó servo do deus vivo?". Pedro simplesmente lhe pediu que entrasse na casa e fosse buscar Simão Mago. O animal fê-lo, mas o choque de o ouvir a falar entre os presentes foi tão grande que levou à conversão de Marcelo.

 

Presume-se que esta seja uma história puramente ficcional, até porque não aparece nas fontes mais antigas para o confronto de S. Pedro com Simão Mago, mas enquanto milagre que demonstra o poder divino, não podemos deixar de ver todo o episódio como curiosíssimo. Nada era impossível a Deus, pensava quem compôs esta sequência, e por isso... fazer com que os cães falassem com voz humana dificilmente lhes pareceria estranho. Quem não se converteria face a tamanho milagre?!

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Nos primeiros séculos do Cristianismo surgiu um importante problema - como representar a(s) figura(s) divina(s)? As respostas foram-se sucedendo umas ás outras, mas o exemplo que aqui hoje apresentamos provém da Basilica di Santa Maria Maggiore, em Roma. Jogando uma espécie de "Onde está o Wally?", será que vêem algo de muito curioso nesta primeira imagem?

Muitas poderiam, naturalmente, ser as respostas, dada a vasta extensão iconográfica vista na imagem, mas foquemo-nos então num pormenor mais limitado:

Estas interpretações são sempre muito discutíveis, mas podem aqui ser vistos os quatro evangelistas (sob a forma de de um touro alado, um homem alado, um leão alado e uma águia), juntamente com São Pedro e São Paulo. Por baixo, um pequeno texto diz algo como "O bispo Sexto, para o povo de Deus". Mas o que está dentro de um círculo? Aqui não é muito fácil de se perceber, mas assemelha-se a uma espécie de trono com uma cruz, ambos ricamente adornados. Será Deus? Será Cristo? Será toda a Trindade? Em qualquer um dos casos é notável, esta representação da(s) figura(s) divina(s) pela ausência; a nós, até nos poderá parecer muito estranha, pelo que importa perguntar - a que se deve ela?

 

Bem, simplificadamente, o Judaísmo tem uma proibição da representação da figura divina, que até está muito bem presente no Antigo Testamento. Uma interdição semelhante existia nos primeiros séculos do Cristianismo, pelo que cedo se pôs a questão de como mostrar o que não podia ser mostrado, e esta foi uma das soluções encontradas. Por estranha que ainda nos pareça é, filosoficamente, uma representação mais fiel do que a do velho de barbas brancas que tanto imaginamos nos nossos dias.

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Há alguns anos atrás uma leitora deste espaço deixou-nos um comentário sobre a relação entre os deuses pagãos e o próprio Deus cristão. Dizia ela, nessa altura, que lhe fazia alguma confusão ir à igreja e pensar que ao venerar Deus estava, de alguma forma, a prestar culto ao Sol. Se o tema não é assim tão simples, se Deus e o Sol (já) não são um só e o mesmo, não nos seria fácil conseguir reduzir a riqueza desse grande tema a um singelo punhado de linhas.

 

Então, porque voltamos agora a esse mesmo assunto? Há algumas semanas passou-nos pelas mãos um livro atribuído a P. Saintyves de título Les saints successeurs des dieux. Parece somente existir em língua francesa, o que poderá dificultar a leitura, mas é uma obra fascinante, provavelmente entre as mais interessantes que já nos passaram pelas mãos. Nela, o autor demonstra que os santos cristãos são, de alguma forma, uma espécie de herdeiros dos múltiplos deuses das religiões ditas pagãs; isto pouco teria de muito inovador, não fosse o facto de também apresentar múltiplos casos em que, estranhamente, os santos têm muito mais de figuras pagãs do que poderíamos sequer sonhar.

 

Claro que ninguém duvida da existência de um Santo António, ou de um São Francisco Xavier, mas como explicar os casos de figuras santificadas em relação às quais sabemos pouco mais do que um mero nome? Ou como explicar que a história de São Josafá seja demasiado semelhante à de Buda? E o que dizer de São Zeus, São Mercúrio e Santa Ninfa, entre outras figuras cujos nomes nos remetem para a antiga religião? São questões como essas, entre muitas outras, que o autor explora nesta interessantíssima obra, que merece evidentemente ser lida por todos aqueles que tenham interesse na influência que as religiões pagãs tiveram no Cristianismo.

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Desde os tempos da Antiguidade, passando pela Idade Média e até aos nossos dias, que algumas crenças mágicas se mantiveram relativamente estáveis. A ideia de talismã, enquanto uma espécie de objecto com poderes sobrenaturais (e, frequentemente, de protecção) é uma dessas crenças, que já aparece atestada em papiros mágicos egípcios e que, ainda assim, continua a ser usada nos nossos dias. O que hoje aqui trazemos é uma espécie de talismã, mas de conteúdo cristão:

São Pedro sentou-se numa pedra e chorou. Cristo apareceu-lhe e perguntou, "Pedro, porque choras tu?" Pedro respondeu, "Senhor, doem-me os dentes". Então, o Senhor ordenou à minhoca no dente de São Pedro que daí saísse e que nunca tornasse a entrar. Mal a minhoca saiu, a dor parou. Então, Pedro disse: "Peço-te, ó Senhor, que quando estas palavras forem escritas e um homem as levar consigo, nunca sinta dor de dentes." E o Senhor respondeu, "Boa ideia, Pedro; assim seja!"

 

Muito poderia ser escrito sobre estas breves linhas, mas atente-se especificamente no carácter cristão das mesmas. Surgem São Pedro e Jesus Cristo, quase num vácuo, e a figura miraculosa do segundo é aqui vista exclusivamente como uma resolução para o problema do primeiro. E depois, surge uma promessa - como Pedro foi curado, também qualquer outro crente de igual fé o viria a ser. É um claro exemplo da crença segundo a qual existe uma relação cósmica entre a situação apresentada no talismã e aquela que o crente estava a viver - e que, por isso, como a primeira delas foi resolvida, também a segunda o seria.

 

Mas porquê São Pedro e Jesus Cristo? Exemplos semelhantes a estes abundam no decorrer dos séculos, e mais importante do que as figuras em questão é o seu carácter; aqui, bastaria uma figura que sofra e que tenha fé (que é Pedro, mas poderia ser João, ou Paulo, ou até um crente anónimo), e alguém capaz de o curar, que é Jesus, mas poderia ser Apolo ou Diana. Mudam-se, por isso, os nomes, mas a ideia presente no próprio talismã mantém-se, por seguir uma lógica que parece natural à humanidade, e que ainda seguimos, com ideias como "Ele tinha tosse, tomou o medicamento X e ficou curado; eu também tenho tosse, vou tomar o mesmo e também o ficarei", mas esquecendo que as coisas nem sempre são assim tão simples...

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Sendo hoje Dia de Reis, lançamos um pequeno desafio - quem já se interrogou sobre a origem da tradição da fava? A sua presença é cada vez mais incomum nos nossos dias (ao que uns poderão chamar "razões de segurança alimentar", nós chamamos "o assassínio bárbaro de uma tradição"), mas muitos ainda se recordarão do tempo em que este bolo continha tanto um presente, normalmente metálico, como esta famosa fava. Mas, repita-se, de onde vem essa tradição?

 

Fomos à procura da resposta e encontrámos uma breve referência (moderna e sem fontes a apoiá-la) a uma lenda segundo a qual os três reis magos estavam a ter dificuldades em decidir qual deles ofereceria a primeira prenda ao menino Jesus. É uma ideia interessante, mas ignora dois elementos cruciais - no texto bíblico não existe qualquer referência ao número de reis magos (esse número surge somente como extensão do número de presentes e já na Idade Média); também, porque seria escolhida uma fava, ainda para mais quando esta nem é comida?

 

P. Saintyves, numa obra de que cá falaremos futuramente, deixa de forma oblíqua uma potencial resposta. Aparentemente, existia em terras do Egipto um festival que tomava lugar a 6 de Janeiro e em que eram oferecidos bolos e favas à deusa Ísis e ao seu filho Harpócrates. Quando o Cristianismo tentou sobrepor esse festival com um mais indicado para os novos crentes, optou por fundir os antigos bolos e a fava num só. A fava não era comida, seja por razões como as patentes nas crenças pitagóricas, ou por se ter tratado de uma oferenda para os deuses (nesse sentido, até poderia ser vista como um símbolo da vida eterna).

 

Será esta a resposta correcta à questão que lançámos acima? Não sabemos, nem temos forma de o saber, se tomarmos em conta que mais de um milénio separa esse ritual do bolo-rei dos nossos dias, mas esta é uma explicação que faz muito sentido, associando o dia do festival, o bolo e a fava (bem como o facto de esta não ser comida) numa só corrente contínua. E por isso, a resposta irá satisfazer-nos até que uma melhor possa ser encontrada.

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Não são fáceis de notar, até porque se presume que não seja muitas as pessoas que decidem "caçá-las", mas existem algumas citações de autores da Antiguidade Clássica nos textos do Novo Testamento. Aqui ficam três pequenos exemplos:

 

  • Actos dos Apóstolos 17:28, a citação provém dos Fenómenos de Arato
  • Primeira Epístola aos Coríntios 15:33, a citação provém de Menandro
  • Epístola a Tito 1:12, é citado um famoso provérbio relativo aos Cretenses

 

Estes três exemplos permitem-nos compreender que o autor das epístolas tinha, pelo menos, algum conhecimento da literatura grega... mas será que conhecem alguns outros exemplos de citações de autores da Antiguidade na Bíblia?

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