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São Pedro e o cão

Muitos e curiosos são os episódios atribuídos a personagens bíblicas mas que não têm lugar na Bíblia. Este, de São Pedro e do seu cão falante, que hoje aqui resumimos numa das suas versões (existem mais, deixe-se isso bem claro), é um deles:

 

Um dia, estando São Pedro na cidade de Roma, procurava Simão Mago. Ouvindo dizer que este se encontrava na casa de um nobre romano, de seu nome Marcelo, foi aí em busca dele. Próximo da porta de entrada viu um cão preso com uma coleira. Decidiu soltá-lo, ao que o animal lhe respondeu dizendo, com voz humana, "O que posso fazer por ti, ó servo do deus vivo?". Pedro simplesmente lhe pediu que entrasse na casa e fosse buscar Simão Mago. O animal fê-lo, mas o choque de o ouvir a falar entre os presentes foi tão grande que levou à conversão de Marcelo.

 

Presume-se que esta seja uma história puramente ficcional, até porque não aparece nas fontes mais antigas para o confronto de S. Pedro com Simão Mago, mas enquanto milagre que demonstra o poder divino, não podemos deixar de ver todo o episódio como curiosíssimo. Nada era impossível a Deus, pensava quem compôs esta sequência, e por isso... fazer com que os cães falassem com voz humana dificilmente lhes pareceria estranho. Quem não se converteria face a tamanho milagre?!

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Nos primeiros séculos do Cristianismo surgiu um importante problema - como representar a(s) figura(s) divina(s)? As respostas foram-se sucedendo umas ás outras, mas o exemplo que aqui hoje apresentamos provém da Basilica di Santa Maria Maggiore, em Roma. Jogando uma espécie de "Onde está o Wally?", será que vêem algo de muito curioso nesta primeira imagem?

Muitas poderiam, naturalmente, ser as respostas, dada a vasta extensão iconográfica vista na imagem, mas foquemo-nos então num pormenor mais limitado:

Estas interpretações são sempre muito discutíveis, mas podem aqui ser vistos os quatro evangelistas (sob a forma de de um touro alado, um homem alado, um leão alado e uma águia), juntamente com São Pedro e São Paulo. Por baixo, um pequeno texto diz algo como "O bispo Sexto, para o povo de Deus". Mas o que está dentro de um círculo? Aqui não é muito fácil de se perceber, mas assemelha-se a uma espécie de trono com uma cruz, ambos ricamente adornados. Será Deus? Será Cristo? Será toda a Trindade? Em qualquer um dos casos é notável, esta representação da(s) figura(s) divina(s) pela ausência; a nós, até nos poderá parecer muito estranha, pelo que importa perguntar - a que se deve ela?

 

Bem, simplificadamente, o Judaísmo tem uma proibição da representação da figura divina, que até está muito bem presente no Antigo Testamento. Uma interdição semelhante existia nos primeiros séculos do Cristianismo, pelo que cedo se pôs a questão de como mostrar o que não podia ser mostrado, e esta foi uma das soluções encontradas. Por estranha que ainda nos pareça é, filosoficamente, uma representação mais fiel do que a do velho de barbas brancas que tanto imaginamos nos nossos dias.

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Há alguns anos atrás uma leitora deste espaço deixou-nos um comentário sobre a relação entre os deuses pagãos e o próprio Deus cristão. Dizia ela, nessa altura, que lhe fazia alguma confusão ir à igreja e pensar que ao venerar Deus estava, de alguma forma, a prestar culto ao Sol. Se o tema não é assim tão simples, se Deus e o Sol (já) não são um só e o mesmo, não nos seria fácil conseguir reduzir a riqueza desse grande tema a um singelo punhado de linhas.

 

Então, porque voltamos agora a esse mesmo assunto? Há algumas semanas passou-nos pelas mãos um livro atribuído a P. Saintyves de título Les saints successeurs des dieux. Parece somente existir em língua francesa, o que poderá dificultar a leitura, mas é uma obra fascinante, provavelmente entre as mais interessantes que já nos passaram pelas mãos. Nela, o autor demonstra que os santos cristãos são, de alguma forma, uma espécie de herdeiros dos múltiplos deuses das religiões ditas pagãs; isto pouco teria de muito inovador, não fosse o facto de também apresentar múltiplos casos em que, estranhamente, os santos têm muito mais de figuras pagãs do que poderíamos sequer sonhar.

 

Claro que ninguém duvida da existência de um Santo António, ou de um São Francisco Xavier, mas como explicar os casos de figuras santificadas em relação às quais sabemos pouco mais do que um mero nome? Ou como explicar que a história de São Josafá seja demasiado semelhante à de Buda? E o que dizer de São Zeus, São Mercúrio e Santa Ninfa, entre outras figuras cujos nomes nos remetem para a antiga religião? São questões como essas, entre muitas outras, que o autor explora nesta interessantíssima obra, que merece evidentemente ser lida por todos aqueles que tenham interesse na influência que as religiões pagãs tiveram no Cristianismo.

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Desde os tempos da Antiguidade, passando pela Idade Média e até aos nossos dias, que algumas crenças mágicas se mantiveram relativamente estáveis. A ideia de talismã, enquanto uma espécie de objecto com poderes sobrenaturais (e, frequentemente, de protecção) é uma dessas crenças, que já aparece atestada em papiros mágicos egípcios e que, ainda assim, continua a ser usada nos nossos dias. O que hoje aqui trazemos é uma espécie de talismã, mas de conteúdo cristão:

São Pedro sentou-se numa pedra e chorou. Cristo apareceu-lhe e perguntou, "Pedro, porque choras tu?" Pedro respondeu, "Senhor, doem-me os dentes". Então, o Senhor ordenou à minhoca no dente de São Pedro que daí saísse e que nunca tornasse a entrar. Mal a minhoca saiu, a dor parou. Então, Pedro disse: "Peço-te, ó Senhor, que quando estas palavras forem escritas e um homem as levar consigo, nunca sinta dor de dentes." E o Senhor respondeu, "Boa ideia, Pedro; assim seja!"

 

Muito poderia ser escrito sobre estas breves linhas, mas atente-se especificamente no carácter cristão das mesmas. Surgem São Pedro e Jesus Cristo, quase num vácuo, e a figura miraculosa do segundo é aqui vista exclusivamente como uma resolução para o problema do primeiro. E depois, surge uma promessa - como Pedro foi curado, também qualquer outro crente de igual fé o viria a ser. É um claro exemplo da crença segundo a qual existe uma relação cósmica entre a situação apresentada no talismã e aquela que o crente estava a viver - e que, por isso, como a primeira delas foi resolvida, também a segunda o seria.

 

Mas porquê São Pedro e Jesus Cristo? Exemplos semelhantes a estes abundam no decorrer dos séculos, e mais importante do que as figuras em questão é o seu carácter; aqui, bastaria uma figura que sofra e que tenha fé (que é Pedro, mas poderia ser João, ou Paulo, ou até um crente anónimo), e alguém capaz de o curar, que é Jesus, mas poderia ser Apolo ou Diana. Mudam-se, por isso, os nomes, mas a ideia presente no próprio talismã mantém-se, por seguir uma lógica que parece natural à humanidade, e que ainda seguimos, com ideias como "Ele tinha tosse, tomou o medicamento X e ficou curado; eu também tenho tosse, vou tomar o mesmo e também o ficarei", mas esquecendo que as coisas nem sempre são assim tão simples...

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Sendo hoje Dia de Reis, lançamos um pequeno desafio - quem já se interrogou sobre a origem da tradição da fava? A sua presença é cada vez mais incomum nos nossos dias (ao que uns poderão chamar "razões de segurança alimentar", nós chamamos "o assassínio bárbaro de uma tradição"), mas muitos ainda se recordarão do tempo em que este bolo continha tanto um presente, normalmente metálico, como esta famosa fava. Mas, repita-se, de onde vem essa tradição?

 

Fomos à procura da resposta e encontrámos uma breve referência (moderna e sem fontes a apoiá-la) a uma lenda segundo a qual os três reis magos estavam a ter dificuldades em decidir qual deles ofereceria a primeira prenda ao menino Jesus. É uma ideia interessante, mas ignora dois elementos cruciais - no texto bíblico não existe qualquer referência ao número de reis magos (esse número surge somente como extensão do número de presentes e já na Idade Média); também, porque seria escolhida uma fava, ainda para mais quando esta nem é comida?

 

P. Saintyves, numa obra de que cá falaremos futuramente, deixa de forma oblíqua uma potencial resposta. Aparentemente, existia em terras do Egipto um festival que tomava lugar a 6 de Janeiro e em que eram oferecidos bolos e favas à deusa Ísis e ao seu filho Harpócrates. Quando o Cristianismo tentou sobrepor esse festival com um mais indicado para os novos crentes, optou por fundir os antigos bolos e a fava num só. A fava não era comida, seja por razões como as patentes nas crenças pitagóricas, ou por se ter tratado de uma oferenda para os deuses (nesse sentido, até poderia ser vista como um símbolo da vida eterna).

 

Será esta a resposta correcta à questão que lançámos acima? Não sabemos, nem temos forma de o saber, se tomarmos em conta que mais de um milénio separa esse ritual do bolo-rei dos nossos dias, mas esta é uma explicação que faz muito sentido, associando o dia do festival, o bolo e a fava (bem como o facto de esta não ser comida) numa só corrente contínua. E por isso, a resposta irá satisfazer-nos até que uma melhor possa ser encontrada.

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Não são fáceis de notar, até porque se presume que não seja muitas as pessoas que decidem "caçá-las", mas existem algumas citações de autores da Antiguidade Clássica nos textos do Novo Testamento. Aqui ficam três pequenos exemplos:

 

  • Actos dos Apóstolos 17:28, a citação provém dos Fenómenos de Arato
  • Primeira Epístola aos Coríntios 15:33, a citação provém de Menandro
  • Epístola a Tito 1:12, é citado um famoso provérbio relativo aos Cretenses

 

Estes três exemplos permitem-nos compreender que o autor das epístolas tinha, pelo menos, algum conhecimento da literatura grega... mas será que conhecem alguns outros exemplos de citações de autores da Antiguidade na Bíblia?

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Muitos são os segredos que se escondem nas linhas do Antigo Testamento. Infelizmente, ainda não encontrámos qualquer livro que aborde todos eles (se souberem de algum, por favor deixem essa informação nos comentários!), pelo que esta semana voltaremos a focar-nos num segundo mistério - de que árvore provinha o fruto que Adão e Eva comeram? Terá sido, como frequentemente representado em imagens cristãs, a maçã?

É muito provável que a história do Paraíso e da singular árvore tenha antecedido o próprio Judaísmo, porque existem representações de episódios a eles semelhantes em períodos muito anteriores. Porém, nenhuma delas permite identificar seja a árvore, ou o fruto desta. Mesmo aqueles que procurem, quase com uma lupa, essa informação no texto do Antigo Testamento rapidamente acabarão frustrados - não está lá, estando tão oculta que a Árvore da Vida facilmente se confunde com a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, ao ponto das suas características muito se confundirem. Poderiam procurar-se respostas noutras religiões da mesma área geográfica, mas isso também leva a um problema inesperado - mesmo quando é de alguma forma identificada (por exemplo, quando os praticantes do Zoroastrianismo falam da haoma), desconhecemos qual a sua equivalência moderna.

 

Tentemos então uma resposta inversa - terá sido a árvore a macieira, e o fruto proíbido a maçã? Já responder a essa pergunta implica falar um pouco do texto bíblico cristão. Quando São Jerónimo, por volta do século IV ou V, traduziu esses textos para Latim, criou uma tradução tão popular que durante séculos e séculos seria a utilizada por toda a Europa. E no seu texto ocorria, evidentemente, uma palavra como malus ("o mal"), ou mali ("do mal").

Contudo, se alguém na mesma época quisesse escrever "a maçã" ou "da maçã", fá-lo-ia precisamente da mesma forma - malus e mali - só mudando muito ligeiramente o som produzido oralmente.

Agora, se nada no texto identifica mesmo o fruto, a semelhança de palavras facilmente poderá ter levado a que este passasse a dizer o que não diz - que essa árvore dava... maçãs. E assim surgiu mais uma ideia que não está escrita na Bíblia, a de que Adão e Eva poderão ter sido expulsos do Paraíso por causa de um fruto de macieira.

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