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Amadis de Gaula foi provavelmente o mais famoso de todos os romances de cavalaria produzidos na Península Ibérica. Resumi-lo num punhado de frases soar-nos-ia redutor, mas podemos referir que se trata da história da belíssima Oriana e das muitas aventuras pelas quais Amadis passou em sua honra. E é, de facto, sobre uma dessas aventuras em que hoje nos focamos. Num dado momento Amadis foi capturado por Briolanja, que o amava e que dele desejava ter um filho. Mas será que o herói cedeu às tentações da carne, gerando um rebento com ela?

 

A sua amada Oriana pensou que sim, mas o texto do romance não deixa essa informação totalmente clara. Pelo menos uma das edições a que tivemos acesso parece dar a entender que, originalmente, nada de errado se tinha passado entre as duas personagens, mas também acrescenta que o episódio em questão foi alterado por ordem do "Infante Dom Afonso de Portugal" (i.e. o filho de Dom Dinis), de forma a dar uma prole compassiva à solitária Briolanja.

Isto é possível de se fazer porque, quase certamente (que nestas coisas nunca podemos ter uma certeza absoluta), Amadis, Oriana e Briolanja se tratavam de personagens ficcionais. Nunca tiveram uma existência fora do campo da ficção, e como tal podem ter as suas existências alteradas como melhor se encaixar na trama. Se um dado lhes quisesse, por exemplo, dar 20 filhos e encenar uma batalha de todos eles contra o próprio pai, nada o impediria de o fazer.

 

Voltemos então à Antiguidade, a uma figura como Ulisses. Será que teve filhos de Circe e de Calipso? Por muito que os Poemas Homéricos nos possam levar a uma resposta em particular, absolutamente nada impediria autores posteriores de alterar a história, para que esta se inserisse melhor nos seus objectivos individuais. Desde que respeitassem algumas regras - por exemplo, a virgindade perpétua de Ártemis ou de Atena não deveria ser violada, e seria estranha a existência de um Zeus totalmente fiel à esposa - podiam fazer tudo o que desejassem com as personagens que tinham em mãos. Assim se compreendem as divergências de informação que se encontram em determinadas fontes; uma figura como Príamo podia ter tantos filhos e filhas como necessário para a história. E, nesse sentido, não existe uma resposta certa ou errada ao número e identidade de uma descendência - Amadis, como Ulisses, Édipo, ou qualquer outra figura ficcional, podem ter (e até deixar de ter) filhos e filhas, em número tão grande e diverso como a trama requeira. E, mesmo assim, Oriana e Penélope, como tantas outras heroínas, só seriam traídas se os autores assim o desejassem. Bastaria torná-lo real com palavras ditas ou escritas.

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A Utopia de Thomas More

A Utopia, de Thomas More, é a história (ficcional) de um filósofo-navegador português, de nome Rafael Hitlodeu, que numa dada altura das suas viagens se encontrou na terra de Utopia, um estado ideal que pouco fica a dever à República de Platão. Porém, a descrição desse Estado - que é o elemento mais famoso da obra - só aparece no segundo livro. O que contém o primeiro? Essencialmente, uma discussão crítica de diversos aspectos culturais do tempo de Thomas More, que depois serve de introdução à possível alternativa vigente nas terras de Utopia.

 

Se, por um lado, uma leitura puramente lúdica desta obra é um pouco enfadonha, por outro uma discussão das ideias apresentadas nesta Utopia poderá ser muito prolífica, na medida que a obra oferece um enorme número de ideias (ou, se assim preferirmos, quase sugestões) que ainda merecem ser discutidas nos nossos dias de hoje. Infelizmente, poucos parecem ter sido os nossos políticos que a leram; quão diferente - e quão melhor - seria o nosso mundo se esta utopia sugerida por More já tivesse sido tornada realidade!

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Máscaras

Outra pesquisa que tem sido feita de uma forma relativamente frequente neste local passa pela "Origem da Comédia". E, na realidade, são poucos os autores da Antiguidade que nos dão informações concretas e fiáveis relativas à origem desse género de ficção. Como tal, não pretenderemos fazer o impossível, mas sim demonstrar a mesma dificuldade que já outros sentiram antes. Vamos, por isso, a um exemplo particularmente curioso.

 

Polidoro Virgílio nasceu nas últimas décadas do século XV. Entre as suas obras conta-se uma obra, hoje com um total de oito livros, chamada De Inventoribus Rerum, em que pretendeu dissertar sobre as origens das coisas. Tem, por exemplo, um capítulo sobre a origem dos deuses, outro sobre a espécie humana, outro sobre os obeliscos egípcios, e assim por diante, todos eles escritos com base em informações que lhe tinham chegado por via de autores e obras da Antiguidade. Relativamente à origem da comédias, escreveu estas linhas sucintas:

"As Comédias começaram numa altura em que os Atenienses ainda não se tinham associado numa cidade. Os jovens desse país, habituados a cantarem versos solenes nos festivais, fizeram-no [i.e. cantaram] nas vilas e nas ruas mais populares para ganharem dinheiro. (...) No entanto, é incerto sobre quem de entre os Gregos as terão criado primeiro."

 

Certamente que existiu um momento de Origem da Comédia, em que esta passou a existir, mas o que as linhas de Polidoro Virgílio nos revelam é precisamente aquilo que poderíamos dizer a um qualquer leitor, e pouco mais - não sabemos como, ou quando, nasceu a Comédia!

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Cisnes e o amor

As mulheres desejam as proezas dos homens jovens e aceitam o mérito em vez de uma boa aparência. O amor tem mil e uma entradas: para alguns, uma bela figura abre o portão ao prazer, para outros um coração valente, enquanto que certos outros o devem à sua proficiência nas artes; para um menor número a cortesia oferece uma oportunidade ao amor, enquanto que muitos se tornam elegíveis pelo esplendor da sua reputação, e a coragem pode até ferir os corações das mulheres de uma forma tão profunda como a graciosidade.

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livro

Associamos estes dois livros pelo facto de, essencialmente, se tratarem de um só, em que quase só mudam os nomes dos seus intervenientes. E, nesse seguimento, são obras relativamente simples, em que uma das personagens coloca algumas questões àquela que lhe é superior. Vejamos três exemplos particularmente curiosos:

 

  • Quais são as quatro coisas que jamais estarão satisfeitas?

A terra, o fogo, o inferno e um homem que deseja as riquezas do mundo.

  • Qual foi o homem que morreu mas não nasceu, e depois da morte foi sepultado no ventre de sua mãe?

Foi Adão, o primeiro homem, porque a terra foi a sua mãe, e depois da morte foi aí sepultado.

  • Como é que Cristo nasceu da sua mãe, Maria?

Pelo seio direito.

 

Além destes pequenos exemplos, existem nestas obras alguns elementos que não deixam de ser curiosos. Numa dada altura é referido, indirectamente, que o fruto da famosa árvore do Paraíso era o figo. Porquê este, e não a maçã? A resposta é fácil de compreender se  recordarmos que no Evangelho Segundo São Marcos Jesus amaldiçoou uma figueira. De facto, é essa mecânica de ideias que pauta o conteúdo da obra - é feita uma questão e depois é apresentada uma resposta que, em muitos casos (mas nem sempre!), pode ser subentendida do texto bíblico ou de alguns elementos da cultura cristã medieval. E, nesse sentido, se não é uma obra muito interessante para um leitor leigo, aqueles que tenham interesse na evolução das crenças cristãs poderão aqui encontrar muito material que lhes dará que pensar.

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Niobe e Anfion

Nesta obra, Boccaccio apresenta-nos breves biografias de 106 mulheres, contando-se entre elas um grande número de figuras mitológicas - Ceres e Minerva, Isis, Europa, Medeia, Jocasta, ou Helena de Tróia, entre muitas, muitas outras. Mas, com a excepção notável de Eva, figuras mais ligadas ao Cristianismo estão totalmente ausentes da obra, como também o estão de outra obra do mesmo autor, Sobre os Destinos dos Homens Famosos.

 

Mas, mais do que uma obra de carácter biográfico, este é um texto com uma intenção moralizante, já que pelo exemplo de todas essas mulheres o autor pretende demonstrar um conjunto de características que já não encontrava no sexo feminino dos seus dias. Para mencionar um único caso, numa dada biografia é exaltada a eterna fidelidade de uma determinada heroína, antes de serem criticados os múltiplos casamentos das mulheres do seu tempo.

 

Finalmente, uma referência inesperada - a Papisa Joana é uma das mulheres cuja biografia aparece constante nesta obra, sendo ela tratada como uma figura totalmente real. Será que o foi? Essa é uma questão que, como antes, preferimos deixar para os leitores.

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Édipo

Este pequeno poema medieval, de cerca de 84 versos, recorda os principais eventos da vida do herói numa primeira pessoa, e numa altura em que essa figura já se encontrava naquilo que o poema identifica directamente como "o Inferno [cristão]". Como é comum em outros lamentos, Édipo chora tudo aquilo por que passou; são breves as suas linhas, mas repletas de significado, e um perfeito exemplo de como alguns autores da Idade Média, muitas vezes anónimos, recordaram os mitos de outros tempos.

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