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Mitologia em Português

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17 de Outubro, 2019

A (falsa) história de São Inácio Castellaneta, e as torturas dos Romanos aos Cristãos

Num episódio recente dos Simpsons, a trama introduziu um (ficcional) Santo Inácio Castellaneta. Supostamente vivendo em 250 d.C., recusou-se a abandonar a fé cristã e, como tal, os romanos cortaram-lhe a cabeça, os braços, as pernas e os dedos. Depois, atiraram-lhe flechas feitas de cobras congeladas e retiraram-lhe os olhos, cobrindo-lhe as respectivas cavidades com pistachios cobertos de chocolate - mas o santo continuou a recusar-se a abandonar a fé cristã. Então, finalmente, pareceram cozer os seus ossos em vinho de cereja. Depois, esse martírio levou a uma dada tradição na cidade de Springfield.

Um falso santo

A breve sequência pode ser vista carregando na imagem acima, mas o que ela tem de particularmente especial é o facto de representar um falso martírio com contornos que até poderiam ser verdadeiros. Tem lugar no século III d.C., apresenta uma figura cristã disposta a defender a sua fé pessoal contra todas as torturas, e mesmo após a sua morte a memória dos eventos pelos quais passou ainda perdura. Na verdade, se tivessemos lido este relato num livro, dificilmente duvidaríamos da sua veracidade. O que levanta uma questão - será que coisas como estas realmente aconteceram aos mártires cristãos?

 

Entre os muitos mártires dos primeiros séculos da nossa era contam-se algumas histórias absolutamente incríveis. Desde santas cujos seios foram cortados e cozinhados, até figuras religiosas cuja cabeça decepada quase nos faz sorrir face à constelação de tantas outras torturas por que passaram, não podemos deixar de pensar se não existiria um carácter muito sádico nos Romanos. Só isso permitira justificar as tamanhas torturas a que, supostamente, sujeitaram os Cristãos. Mas, repita-se, será que esses relatos são mesmo verdade? A história é frequentemente escrita pelos vencedores, e... por isso, não sabemos, nem temos forma de saber, até que ponto os Romanos infligiam mesmo nos Cristãos aquelas torturas de que muito ouvimos falar, até porque nada nos códigos legais de então previa tais abusos para com os criminosos. É, então, uma questão que tem mesmo de permanecer em aberto...

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2 comentários

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    mitologia

    20.10.19

    Bom dia.

    Sim, pode ser considerado "estranho", mas a ideia era mesmo dar que pensar através de um exemplo inesperado. ;) Mas podemos falar um pouco mais do tema através de exemplos mais reais.

    Os Romanos não eram monstros. Eram seres de carne e osso, como nós, e tinham sentimentos. Tinham leis. Acreditar que seria possível, de forma horizontal e repetida, que torturassem de uma forma tão grotesca os acusados de um crime - seja este, ou qualquer outro - parece-nos difícil de aceitar. Dificilmente existiria uma lei que dissesse "Se forem Cristãos, deverão ser torturados de todas as formas possíveis e imaginárias até abjurarem a sua fé". E, mesmo assim, os relatos dos martírios estão repletos de elementos estranhamente incríveis.

    Santa Eulália de Barcelona, por exemplo, foi alegadamente sujeita a 13 torturas diferentes, a mais famosa das quais passou por ser fechada num barril com elementos cortantes, o qual depois foi empurrado por uma rua abaixo.
    Os olhos de Santa Lúcia, numa versão tardia da história, são-lhe arrancados, imediatamente antes de ser decepada.
    Diversos santos foram cozidos vivos, um deles até dentro de um famoso touro de bronze.
    O "nosso" São Cristóvão foi coberto de flechas e, como sobreviveu, depois agredido até à morte.
    São Pedro foi crucificado, sim, mas os Romanos parecem ter sido simpáticos ao ponto de lhe permitirem que o fosse de cabeça para baixo - porque concederiam eles um favor, qualquer que fosse, a um suposto criminoso?
    [Etc.]

    Certamente que muitas destas figuras existiram, e é até possível que tenham sofrido torturas, mas dificilmente não terá existido um exagero por parte dos Cristãos, com intenção de demonizar os Romanos/Pagãos, apresentando-os e às suas crenças como totalmente selvagens.

    Esta poderia ser só uma hipótese, uma teoria, como qualquer outra, mas temos informações concretas de que alguns santos não são verdadeiros. Não existiram, ou pelo menos não como nos é relatado. Para dar três exemplos rápidos, bastará ver os casos de Santa Ninfa (inventada para uma cristianização de um antigo espaço religioso), Barlaam e Josafat (adaptada da história de Buda), e da mesma Santa Lúcia já mencionada acima (a cegueira poderá ter sido adicionada à história para a tornar padroeira das doenças dos olhos). Assim, sabemos que, por diversas razões, foram criados alguns santos, e isso levou à necessidade de lhes dar, ou adaptar, uma vida cujos contornos deveriam respeitar o já conhecido de outros santos anteriores.

    Por isso, este último grupo leva a um problema acentuado - como distinguir os verdadeiros santos daqueles que são ficcionais? Quando vamos a uma igreja, quando rezamos a um determinado santo, como podemos distinguir os da primeira categoria dos da segunda? São essas as grandes questões que aqui pretendíamos deixar, para quem nelas quiser pensar.
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